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Resistência

O dia em que Roger Waters enfrentou a escalada fascista no Brasil

Coerente com sua obra, o fundador do Pink Floyd fez frente ao ódio que a extrema-direita propaga no Brasil. Ganhou vaias e aplausos. 'Achavam que Another Brick in The Wall era sobre construção civil?'
Publicado por Gabriel Valery, da RBA
15:33
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reprodução/facebook
Roger ele não

#EleNão incendiou o público em São Paulo com manifestações divididas

São Paulo – O músico britânico e ex-Pink Floyd Roger Waters viu de perto a escalada do ódio no Brasil. Em uma apresentação impecável na noite de ontem (9), na capital paulista, usou a imensa estrutura de seu palco da turnê “Us + Them” para denunciar o avanço da extrema-direita e do neofascismo.

Projetou em um telão uma lista de políticos autoritários que se destacam no mundo e, entre eles, estava Jair Bolsonaro (PSL). A hashtag #EleNão projetada mais tarde foi o estopim para fazer seu show entrar para a história. As vaias ganharam dos gritos de apoio, enquanto a mensagem de Waters fazia frente com a #Resist.

Waters foi um dos fundadores do Pink Floyd em 1965, e estava presente em seu LP de estreia, Pipes at Gates of Dawn, em 1967. Os mais de 50 anos de carreira do artista foram marcados pelo ativismo e posicionamento político. Seu show na noite de ontem não foi diferente. O ícone da música mundial fez um espetáculo grandioso em todos os sentidos. Estrutura de palco e som, qualidade musical e engajamento na luta contra a ascensão do fascismo.

O posicionamento do britânico contra o autoritarismo que a extrema-direita representa, no Brasil personificado por Bolsonaro, incendiou a Arena Allianz, estádio do Palmeiras. Música e política sempre caminharam juntas, mas parte do público não quis ver assim.

O que se via no rosto dos que resistiram durante as vaias era um misto de emoções. Alguns choravam com a indignação expressa nos rostos. Outros, especialmente as mulheres, mais uma vez mostraram que não vão se calar. Gritaram de forma incessante, em coro, “ele não” e revelaram uma plateia dividida.

Waters chegou a dizer que esperava de certa forma a reação negativa, mas que não poderia deixar de se posicionar contra alguém que defende abertamente ditaduras militares.

Alguns poucos foram embora antes do fim do show. Entre aqueles que se posicionaram a favor do músico, a conversa na saída ironizava os que vaiaram. “Será que nunca ouviram uma letra do Pink Floyd? Acham que Another Brick in The Wall é sobre construção civil?”.

Logo, frases no mesmo sentido circulavam nas redes sociais. A composição do clássico álbum The Wall, de 1979, faz uma crítica ao modelo autoritário do ensino, com evidente oposição ao modelo militarista. “Acham que o Animals é sobre uma fazenda?”, sobre o álbum de 1977 que norteou a apresentação de Waters e faz duras críticas ao modelo de produção e exploração capitalista.

Porcos

Em 2012, Waters se apresentou no estádio do Morumbi. Na ocasião, tocou do início ao fim as canções de The Wall. O mundo era outro, as ideias totalitárias começavam a ressurgir, mas ainda eram tímidas. Mesmo assim, o britânico falou sobre política, como de costume, ao citar o caso de Jean Charles de Menezes, brasileiro morto por policiais londrinos por ter supostamente sido confundido com um criminoso.

Seis anos depois, o músico voltou ao Brasil e fez uma veemente defesa dos direitos humanos. Recebeu vaias. O tom político do show começou justamente com a música Pigs, do Animals, que fala sobre os donos do poder. Durante a apresentação, o telão mostrou imagens vexatórias do presidente norte-americano. Ao final, a frase em letras imensas: “Trump é um porco”.

Ao longo de outras músicas, como Mother, do The Wall, críticas a políticos autoritários de diversas vertentes ideológicas. Mao Tsé Tung, Margareth Thatcher, Vladmir Putin. Nem o presidente progressista do Canadá, Justin Troudeau, escapou. Entretanto, apenas Bolsonaro despertou a ira de parte do público.

Provavelmente esta será a última turnê do gênio. Boa parte da inspiração de Waters está na morte de seu pai, que lutou contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial. No palco, foi coerente com sua carreira em uma apresentação contra as declarações racistas, machistas, homofóbicas e favoráveis à tortura por Bolsonaro. Escancarou para muitos o que se recusavam a enxergar. Abrir os olhos, corações e mentes é a sua maior obra. Desde 1967.