Sucesso de público

‘Histórias que o nosso cinema (não) contava’ traz o Brasil da pornochanchada

Documentário de Fernanda Pessoa resgata o gênero que atraía mais público aos cinemas na década de 1970, em plena ditadura, e reconstrói parte da história do país

Reprodução
Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava

“Sempre digo que ninguém gostava da pornochanchada, só o público”, conta a diretora Fernanda Pessoa

São PauloApós passar por vários festivais no Brasil e no exterior, o filme Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contavaestreou na quinta-feira (23) no circuito comercial. O documentário da cineasta Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada brasileira, gênero renegado pela crítica nos anos 1970 mas responsável por boa parte das maiores bilheterias na década.

“Tinha um conhecimento muito grande de pornochanchada, filmes brasileiros dos anos 1970, por um trabalho que tinha feito na filmoteca da Faap, onde sou formada em cinema, e me intrigava muita essa questão: durante uma ditadura militar, super de direta, moralista, tradicional, os filmes mais vistos terem sido pornochanchadas”, conta Fernanda Pessoa, em entrevista a Fabiana Ferraz, na Rádio Brasil Atual. “Fui fazer um mestrado na França e lá tive essa ideia de fazer um recorte histórico, assistir os filmes e ver o que me ensinavam sobre a ditadura.”

Na entrevista, Fernanda explica como surgiu o termo ‘pornochanchada’. “Quem inventou esse termo foram os críticos, os próprios diretores nunca gostaram muito do nome. Foi inventado por volta de 1973 para falar de filmes eróticos que estavam começando em 1969, como Os Paqueras, Adultério à brasileira, e passaram a usar o termo para denominar uma série muito heterogênea de filmes”,conta. “Vários que não eram nem comédia  porque a pornochanchada nasce como referência às chanchadas dos anos 1950, seria comédia ou musical  e começam a chamar filmes que têm conteúdo erótico ou social como ‘pornô social’, ‘pornô drama’, ‘pornô político’… Se tem mulher pelada, vira ‘pornô,’ e tem que lembrar que não é pornô, não é sexo explícito, é só erótico.”

A diretora destaca ainda que a crítica era severa com os filmes do gênero. “Sempre digo que ninguém gostava da pornochanchada, só o público. A crítica de esquerda não gostava porque achava que eles eram alienantes, achava inclusive que (os filmes) estavam ajudando a ditadura a se manter no poder, pois as pessoas iam assistir às pornochanchadas e ficavam alienadas em relação ao que acontecia no país. E muita gente achava que a ditadura gostava desses filmes, o que não é verdade. Se você for olhar os arquivos da censura, vê que esses filmes não davam essa dimensão de ‘Brasil grande’ que a ditadura tentava mostrar”, aponta. “Nem esquerda nem direita gostava dos filmes, só o público. E muita gente assistia e falava mal.”

Entre as curiosidades das produções do gênero estavam os títulos dúbios, que representavam, na verdade, uma estratégia comercial. “Uma das formas de tentar vender o filme para os exibidores, mesmo antes de ele estar pronto, era através do título. Às vezes, o título não tem nada a ver com o filme e tem sempre um duplo sentido. A gente tem As Aventuras amorosas de um padeiro, que não é sobre as aventuras amorosas de um padeiro, mas sobre uma personagem carioca que casa virgem e decide que não é aquilo que ela quer.”

“Tem filmes muito bons, e dentro dos ruins têm coisas boas. Acho que é um gênero que temos que olhar, principalmente porque foi o mais assistido nos anos 1970. Isso diz muito sobre a gente.”

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

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