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‘Daphne’: os ‘excessos’ de uma mulher são vistos de outra forma

Primeiro longa de Peter Mackie Burns acompanha mulher que, com pouco mais de 30 anos e depois de vivenciar um episódio traumático, passa a se questionar sobre seu modo de vida
Publicado por Xandra Stefanel, especial para RBA
07:44
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Daphne

Se fosse um homem de trinta e poucos anos que bebesse, cheirasse e transasse muito, o incômodo seria o mesmo?

Aos 31 anos, Daphne trabalha durante o dia em um restaurante e passa a noite em pubs e bares da região de Elephant e Castle, em Londres. Sua diversão se dá entre muitas doses de álcool e cocaína, com sexo casual ao final da noitada. Uma vida de excessos aparentemente divertida sobre a qual a mulher não se questionava até presenciar um violento assalto em um pequeno mercado no seu bairro. Depois de ter de estancar o sangue do vendedor esfaqueado, tudo muda na vida de Daphne. Esta é a história do primeiro longa-metragem do diretor escocês Peter Mackie Burn, Daphne, que estreia nesta quinta-feira (8), em salas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador.

A protagonista da comédia dramática, Emily Beecham, foi premiada em Turim e Edinburgh por sua atuação impecável, por encarnar com maestria uma personagem complexa, inteligente, debochada e com uma profundidade ímpar. Daphne não tem medo do que “as pessoas vão dizer”, não importa se essas pessoas são suas amigas, colegas de trabalho, affairs, nem mesmo sua mãe.

As reações ácidas e egoístas da protagonista despertam no espectador mais atento questionamentos sobre como as mulheres muitas vezes têm de vestir máscaras para se proteger em uma sociedade machista e misógina. O muro que Daphne constrói em torno de si pode até servir como um escudo por um tempo: além de rejeitar a ideia do amor, é ela quem escolhe – sem qualquer cerimônia – os homens com quem vai pra cama. E quando algum deles quer algo mais profundo do que uma simples noite de sexo, ela recua.

“Cinismo saudável e cinismo neurótico são diferentes. Só falei isso porque achei legal você me oferecer pó, e quando eu cheiro coca, penso no Freud, e quando penso no Freud, eu penso no amor. E sabe como Freud definia o amor? A definição de amor do Freud é ‘uma psicose de gente comum’. De gente como você, Tommy. É uma doença. Você fica mal do estômago quando começa. Depois, vai piorando e fica pior ainda quando acaba. Isso é o amor. É o que todos queremos. É f*da”, comenta Daphne com um conhecido.

As situações que ela provoca incomodam pelo egoísmo e não demora muito para surgir uma pergunta que não pode ser calada: se fosse um homem de trinta e poucos anos, o incômodo seria o mesmo? Provavelmente, a resposta é não porque ainda hoje os homens têm o “aval social” para levar uma vida de farra sem grandes questionamentos.

O que, na verdade, deveria chamar a atenção no filme é a solidão em que a sociedade está submersa atualmente, em um mundo em que as relações são escolhidas como produtos. “Agora a gente não escreve nada sobre a gente. São só fotos. Não existe interação humana. É como fazer compras”, afirma Daphne, em uma clara referência aos aplicativos de encontros, como o Tinder. Ela tem consciência da superficialidade com que leva todos os seus relacionamentos e, depois do crime que presencia, ela parece se dar conta de que a carapaça que criou para si consumiu boa parte do que ela verdadeiramente é.

Para o diretor, a forma como Daphne leva a vida representa o que muitos de seus amigos passam quando chegam aos 30 anos. “Eu não tenho uma grande opinião sobre seu estilo de vida – apenas que ele reflete o que eu penso que muitos dos meus amigos estão vivendo no início dos trinta. Que com o estilo de vida de drogas e noitadas e sexos casuais começaram a se tornar vítimas da lei do mínimo retorno. Daphne está na fase em que as ressacas e recaídas estão começando a não valer mais a pena, quaisquer que sejam os ganhos, para se dar mal depois. Os baixos estão começando a superar os altos. É uma coisa da idade – é sobre se estar no início dos trinta. Ela ainda está procurando a liberdade dos vinte, mas o tempo a está alcançando”, declara o diretor Peter Mackie Burns no kit distribuído para a imprensa.

A mulher que fazia o papel de fortaleza se depara com a dor que escondia de si própria e de todos ao seu redor. E a razão para a construção desse muro parece ser explicada em uma conversa entre Daphne e seu chefe (Tom Vaughan-Lawlor). Ao perguntar se ele a acha egoísta, Joe responde: “Acho. É claro que você é. Eu também sou. Quem mais vai cuidar da gente? O mundo é duro com a gente. Precisamos ser duros também”.

CartazDaphne
Direção: Peter Mackie Burns

Roteiro: Nico Mensinga
Produção: Valentina Brazzini e Tristan Goligher
Direção de fotografia: Adam Scarth
Direção de arte: Miren Marañón Tejedor
Elenco: Emily Beecham, Geraldine James, Tom Vaughan-Lawlor, Nathaniel Martello-White
Montagem: Nick Emerson
Música: Sam Beste
Produção executiva: Lizzie Francke, Robbie Allen, Rosie Crerar e Vincent Gadelle
Coprodução: The Bureau, BFI e Creative Scotland
Distribuição: Supo Mungam Films
País: Reino Unido
Duração: 88 minutos
Ano: 2017