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Fórum Social Mundial

A força e a luta da cultura periférica por reconhecimento e visibilidade

Promovido pela Fundação Perseu Abramo, debate analisou a importância do movimento hip hop e o processo de politização das periferias
Publicado por Redação RBA
18:16
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Ricardo Vaz
Cooperifa

Com seu sarau, há 16 anos a Cooperifa é um dos principais grupos de vanguarda na produção cultural periférica do país

São Paulo – A cultura da periferia esteve no centro do debate desta sexta-feira (16), penúltimo dia do Fórum Social Mundial, em Salvador. No encontro organizado pela Fundação Perseu Abramo (FPA), com o título “Lutas das periferias frente ao conservadorismo e austeridade”, os convidados discutiram a força do hip hop, a importância das políticas públicas de incentivo a projetos culturais periféricos e a politização da juventude na atualidade.

A antropóloga Érica Peçanha abriu o diálogo ressaltando a luta de artistas e de escritores das periferias em conseguir reconhecimento por suas obras. Segundo Érica, foi justamente a contínua batalha pela visibilidade, ao longo de muitos anos, que fez com que governos municipais, estaduais e a União desenvolvessem projetos de incentivo à produção cultural, por meio de editais e programas como o VAI e o Cultura Viva.

“Porém, não se trata apenas de militância, mas também de trabalho na área cultural”, disse a antropóloga, enfatizando que a visibilidade precisa vir acompanhada de retorno financeiro. Ela recordou que desde 2004 os recursos para o apoio de projetos vinham crescendo, mas, no caso de São Paulo, foram drasticamente reduzidos com o início do governo de João Doria – em 2017, o prefeito congelou 47% do orçamento da Secretaria da Cultura.

“O Estado brasileiro sempre teve papel importante como mecenas da cultura”, apontou. “O conservadorismo remete sempre às tentativas de barrar avanços progressistas, implicando em desigualdade de possibilidades de acesso e à produção de bens simbólicos, refletindo ainda na possibilidade de existir, de ser e estar no mundo.”

Com 48 anos de idade e há 31 no movimento hip hop,Lamartine Silva contou um pouco de sua trajetória na cultura periférica. Natural do Maranhão, lembrou que durante 10 anos os integrantes do movimento foram ignorados pelos gestores públicos, sem sequer serem convidados ao diálogo, embora mantivessem oficinas de dança e organizassem festivais de música. “A gente era dançarino sem ser considerado dançarino, era cantor de rap sem ser considerado cantor. Existia no mundo artístico uma ditadura na qual não se considerava rap como música, break como dança e grafite como arte visual.”

Lamartine afirmou que foi apenas com a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que as coisas começaram a mudar, com algumas pessoas sendo chamadas “ao menos pra reclamar, por que antes nem isso”. Segundo ele, durante anos Lula foi um dos poucos presidentes na América Latina a receber representantes da cultura hip hop em audiências oficiais. “Pode parecer pequeno, mas na época conseguimos colocar o problema em vários setores do governo, como na educação e cultura.”

Entre as “conquistas” obtidas pelo movimento hip hop no Brasil, Lamartine Silva destacou a participação em conselhos governamentais, como o da juventude, o que resultou na inclusão do hip hop na Política Nacional de Juventude, em 2005. “Embora alguns de nós tenham preconceito com conselhos, achando que são lugares brancos e de elite e que não temos que participar, são lugares importantes para ocuparmos”, afirmou.

A politização da periferia e sua relação com o hip hop foi destacada por Lamartine Silva como um tema urgente, citando o recente projeto Reconexão Periferias, da FPA, como elemento importante neste processo.

“Nosso papel, do hip hop, nesse projeto é debater esse processo de alienação e conservadorismo que tem acontecido com o nosso movimento. Existe um processo que está empurrando o hip hop para uma linha de direita, há colegas que votam no Bolsonaro, e estamos trabalhando para reverter isso”, explicou. “Não dá para nós ficarmos em cima do muro”, disse, fazendo referência especificamente ao impeachment de Dilma Rousseff e à perseguição político-jurídica contra Lula. “Precisamos reconectar as periferias ao seu verdadeiro objetivo, que é o revolucionário.”

Lançada no final de fevereiro, a coluna Reconexão Periferias pretende ser um espaço de ideias, debates e testemunhos das inúmeras pautas das periferias.