Cinema

Liberdade condicional vigiada: quando a prisão é o próprio corpo

Documentário 'Corpo Delito', de Pedro Rocha, apresenta o drama de Ivan que, depois de oito anos preso, vai para o regime de liberdade condicional com uma tornozeleira que controla seus movimentos

Fotos: Divulgação
Ivan

Ivan parece se sentir tão preso dentro de casa quanto se sentia dentro de uma cela. Mas agora, a prisão é seu corpo

Ivan Silva, de 30 anos, acaba de sair em liberdade condicional depois de passar oito anos encarcerado. Ele pode andar pela rua, mas apenas nos locais em que é autorizado pela justiça. Neste regime, começa a retomar sua rotina em casa, com a mulher Gleice e a filha Glenda, mas a convivência com os amigos, as festas e baladas estão proibidas. Ivan tem seus movimentos monitorados sistematicamente por uma tornozeleira que registra sua localização. É esta a história que o diretor Pedro Rocha acompanha no filme Corpo Delito, que estreiou nesta quinta-feira pelo projeto Sessão Vitrine Petrobras em cinemas de 22 cidades.

Morador da Favela dos Índios, em Fortaleza, Ivan parece se sentir tão preso dentro de casa quanto se sentia dentro de uma cela. A prisão, agora, é seu próprio corpo, que não pode ir para onde quiser no momento que desejar. “A tornozeleira prende minha liberdade. Tem que ter muita paciência: tem a família, tem a pulseira, tem o trabalho… São três coisas e não pode errar com nenhuma das três. A família você não pode deixar, a pulseira você não pode quebrar e o trabalho você não pode abandonar. Aí fica difícil, né? Todo dia é essa mesma rotina: você acorda de manhã, toma banho, vem pra Fábrica Escola. Aí, chega em casa e vai dormir, não pode sair de casa. Eu sei que de um jeito ou de outro ela vai sair do meu pé. Não sei como, mas ela vai sair”, declara Ivan à psicóloga do organismo voltado à ressocialização de detentos que frequenta.

O fato de estar livre e preso ao mesmo tempo faz com que o rapaz vá se incomodando progressivamente. Seu contato com o mundo “lá de fora” é Neto, um amigo de 18 anos que tem o mesmo estilo de vida de Ivan antes de ser preso. São os olhos deste menino que levam o espectador para os lugares onde Ivan não pode mais ir: as festas, a praia, o futebol com os amigos…

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O que inspirou o diretor a fazer o documentário foi a vontade de investigar o que leva os jovens pobres e negros das periferias serem vistos como suspeitos

A fotografia do filme evidencia bem essa dicotomia ao apresentar Ivan com enquadramentos fechados e escuros. Mas apesar de Neto estar livre para curtir a vida, ele também não é completamente livre e o olhar que recebe do segurança em um shopping prova isso, assim como as revistas policiais nas quais sempre é “escolhido”. Aliás, foi desta constatação que o filme nasceu: da vontade de investigar o que leva os jovens pobres e negros das periferias serem quase sempre vistos como suspeitos.

O longa-metragem de quase 75 minutos foge do tradicional formato de documentário; nele não há entrevistas nem declarações feitas diretamente à câmera. “Corpo Delito é um filme híbrido, que se vale tanto de recursos do documentário observacional quanto do roteiro de ficção. O conflito e a tensão dramática do filme conduzem essa experiência aos moldes da ficção, enquanto a irregularidade de tal curva lembra ao espectador que ele está diante de uma matéria estranha, frequentemente aquém do que se espera de uma ficção propriamente dita”, explica Pedro Rocha. “A estética adotada tenta potencializar a experiência de encontro do espectador com o protagonista – um homem com um passado criminoso sobre quem todos formularão opiniões e julgamentos, ao mesmo tempo em que descobrirão que o desconhecem profundamente.”

Ao final, ficam no ar importantes questões que precisam ser debatidas: o uso da tornozeleira realmente favorece a reinserção dos ex-presos na sociedade ou ela é apenas mais uma forma de castigo que não traz benefício algum? A liberdade monitorada pode ser considerada de fato liberdade? O filme, no entanto, não traz respostas prontas apesar de deixar subentendido o ponto de vista do diretor. 

Corpo Delito está sendo exibido em cinemas de Aracaju, Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiania, João Pessoa, Maceió, Manaus, Niterói, Palmas, Porto Alegre, Recife, Rio Branco, Rio de Janeiro, Salvador, Santos, São Luis, São Paulo, Teresina e Vitória.

CartazCorpo Delito
Direção: Pedro Rocha
Elenco: Ivan Silva, José Neto, Gleiciane Gomes e Jeferson do Nascimento
Produtores: Ton Martins e Leandro Alves
Roteiro: Diego Hoefel
Direção de fotografia: Juliane Peixoto e Guilherme Silva
Montagem: Frederico Benevides
Editor de som: Erico Paiva