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Às margens de Los Angeles, filme mostra vida de prostitutas transexuais

'Tangerine', de Sean Baker, mistura aventura, vingança, amizade e ternura entre duas prostitutas trans e negras em uma história dramática cheia de humor ácido
Publicado por Xandra Stefanel, especial para a RBA
18:15
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Divulgação
Trans

‘Tangerine’ traz uma história cheia de emoção, com atrizes que conhecem de perto a realidade ali representada

A superficialidade da segunda maior cidade dos Estados Unidos passa bem longe do novo filme do cineasta americano Sean Baker, Tangerine, que estreia quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros. Além do fato de ter sido todo filmado com um iPhone 5S adaptado e com um orçamento mínimo, o longa-metragem surpreende ao mostrar uma realidade nunca rara de se ver nas telas grandes: o universo de transexuais negras e profissionais do sexo na periferia de Los Angeles.

A história acompanha Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez), uma transexual e prostituta que, depois de 28 dias na prisão, sai na véspera de Natal e descobre que seu namorado e cafetão Chester (James Ransone) a traiu com uma mulher cisgênero. A notícia chegou pela boca de sua melhor amiga, Alexandra (Mya Taylor). É aí que começa a aventura de Tangerine: louca de raiva, Sin-Dee começa a procurar por Chester e sua amante Dinah pelas ruas de uma Los Angeles pouco conhecida, longe da célebre calçada da fama.

O longa-metragem mistura (e equilibra) boas doses de humor e de drama. Talvez pelo fato de ter sido todo filmado com telefones inteligentes, o filme consegue uma proximidade íntima com os atores, especialmente com Kitana e Mia, que parecem completamente à vontade em frente às câmeras.

Ao mesmo tempo que Sean não tem pudor de tratar sobre sexo, drogas e intrigas realmente inspiradas na vida de transexuais e prostitutas, ele não hesita em aproximar o espectador daquela dura realidade. O diretor humaniza histórias de pessoas que vivem na exclusão marcadas por estereótipos: mulheres trans, negras e prostitutas.

Tudo o que Sin-Dee quer é ser amada como no conto de fadas Cinderela, quer ter um homem para chamar de seu e quer contar com o ombro de uma melhor amiga. O que ela quer, no fundo, é viver com dignidade – e quem não quer? – mesmo que para isso tenha de fechar os olhos para as traições (e a exploração) de Chester e para as escorregadas da melhor amiga, Alexandra.

Outro personagem que faz parte da trama é Razmik (Karren Karagulian), um taxista casado e com uma filha pequena que, entre um passageiro bêbado e outro, vagueia pelas ruas daquela região em busca de mulheres trans.

Tangerine passeia com humor pelos dramas pessoais de seus personagens e pela melancolia que impregna aquele bairro de L.A. “O mundo pode ser um lugar cruel”, diz Alexandra. “Sim, muito. Deus me deu um pinto. É cruel demais, não acha?”, responde Sin-Dee. De cara, o diálogo pode até parecer engraçado, mas não. O deboche da protagonista esconde uma dor que apenas quem nasceu com um corpo que não condiz com sua identidade de gênero pode entender completamente. Não se pode saber ao certo o sentimento que invade uma pessoa que recebe um copo cheio de urina na cara pela simples razão de não se encaixar nos padrões impostos por uma sociedade heteronormativa e transfóbica.

A ficção que fez sucesso em vários festivais de cinema (Sundance, entre eles) tem uma trilha sonora vibrante e um final que opõe violência e o poder da amizade. É uma história cheia de emoção que traz nos papéis principais atrizes que conhecem de perto a realidade ali representada.

Tangerine_(Trailer oficial) from Zeta Filmes on Vimeo.

Tangerine
Direção: Sean Baker
Roteiro:Sean Baker e Chris Bergoch
Fotografia: Sean Baker e Radium Cheung
Montagem: Sean Baker
Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian
País: Estados Unidos
Ano: 2015
Duração: 88 minutos
Classificação: 18 anos

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