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Núcleo de dança da zona sul de SP ensina a arte da multiplicação da cidadania

Bailarinos do Pélagos, em Campo Limpo, mostram a jovens da periferia como criar, cultivar e propagar dignidade e altivez

Marcia Minillo/rba
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Rubens com os corpos cidadãos dançantes da zona sul paulistana: aprendizado em movimento

São Paulo  – Rubens de Oliveira Martins tem uma agenda e tanto. Com quase 15 de seus 29 anos dedicados à dança, é coreógrafo e diretor dos grupos Chega de Saudade e Gumboot Dance Brasil, do qual também é bailarino – e trabalha como professor em uma escola particular na zona oeste da capital paulista. Mas é na zona sul que estão suas raízes e seu maior orgulho. O Núcleo de Dança Pélagos, que criou em 2010 em parceria com a ONG Arrastão, é onde promove a multiplicação de corpos cidadãos dançantes. E replica sua história, que começou ali mesmo.

Filho e irmão de músicos amadores, Rubens se inscreveu no curso de percussão do Arrastão e logo sua intimidade com a linguagem artística o promoveu a monitor assistente. Foi a porta de entrada para o projeto Dança Comunidade, que o coreógrafo e bailarino Ivaldo Bertazzo abriu para jovens voluntários ou aten­didos por organizações da periferia, em 2003. Não demorou para que ele começasse a ensinar o que aprendia a outros jovens de comunidades, tanto dentro da Escola de Reeducação do Movimento ­Ivaldo Bertazzo como no Campo Limpo, no mesmo lugar onde havia começado.

Rubens trabalhava intensamente na companhia de Ivaldo, mas reservava seu único dia de folga, as segundas-feiras, para ir ao Arrastão. “Eu via as crianças e os jovens que acompanhavam meu processo com muita vontade de aprender. Eles viam matérias na TV, nas revistas, e queriam saber o que era. Daí o próprio Arrastão me convidou para dar aula, conta.

Quando saiu da companhia, em 2009, o dançarino propôs à ONG um projeto pontual de oficinas para os jovens do Campo Limpo. Assim nascia o Núcleo de Dança Pélagos. No ano seguinte, estreava seu primeiro espetáculo, Volúpia. “Foi muito especial. Tentei recuperar no meu corpo e na minha cabeça a experiência que eu tive em 2003. Refleti sobre como comecei e como estava ali. Tentei trazer na memória corporal qual é o início de tudo em um trabalho com um jovem que passa pelo momento mais importante da vida, que é a adolescência. Eles viviam intensamente cada segundo”, lembra.

Segundo Rubens, o objetivo principal do núcleo é fazer com que a dança seja uma ferramenta de formação e de autoconhecimento. “O Pélagos tem um projeto de dança que leva os jovens atendidos ao palco com um espetáculo, mas não só isso. A ideia é que no momento mais difícil da vida, que é essa transição da adolescência para a vida adulta, eles tenham um autoconhecimento, equilíbrio, e aprendam a lidar com os desafios da vida adulta”, afirma. Os integrantes do grupo têm fisioterapia, aulas de danças brasileiras, balé clássico, dança contemporânea, capoeira e aulas teóricas sobre história da dança, empreendedorismo, planejamento de carreira, nutrição, sexua­lidade. Além do aprendizado, os alunos recebem uma bolsa-auxílio.

“Tudo isso faz com ele entenda quem ele é nessa comunidade, para que possa levar sua comunidade para onde for”, diz o professor. “Eu percebi que era também um arte-educador. Diariamente, eles vi­nham com questões sobre a família, pessoais, físicas e emocionais para as quais eu tinha de dar um suporte, dar segurança.” Aprendeu e ensinou. Em 2015, a previsão é que os alunos mais antigos do núcleo comecem a dar aula em um projeto em São José dos Campos, no inte­rior paulista, em parceria com a prefeitura.

Bons exemplos

Muitos alunos já começaram a replicar seus conhecimentos. Renan ­Marangoni, de 19 anos, entrou no grupo em 2011. Dá aulas no Movimento Comunitário Estrela Nova, no Campo Limpo, e até formou seu próprio grupo, o Corpo Molde, que ­estreou­­ com o espetáculo Saga Tiba em novembro do passado. “Muitas coisas que aprendi no Pélagos eu levo para o Corpo Molde e para o Estrela Nova. Vejo o Pélagos como um dos disparadores para que eu começasse a criar. Ganhei mais segurança, mais estrutura, mais base para poder estabelecer aulas em outros lugares, criar meu próprio grupo, dar oficinas… Não é só você ir lá e ensinar o passo. É o seu papel de educador, é todo um processo: você tem de entender o seu corpo para poder dançar”, declara Renan, aluno do Pélagos e professor de cerca de 70 crianças e jovens do Estrela Nova.

Está seguindo o mesmo caminho de Rubens? “Não é a mesma coisa porque nós somos diferentes, mas o olhar dele para a dança me traz muitas referências. O meu sonho é criar essa possibilidade de mais pessoas poderem vivenciar a dança”, afirma Renan, cujos alunos também já começaram a promover oficinas. “Eu vejo que esses jovens estão fazendo diferença na comunidade.”

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Liliane: ‘… acabo dividindo muita coisa do que eu aprendo no Pélagos. A cultura tem que ser passada adiante’

Liliane Rodrigues entrou no Núcleo Pélagos em junho de 2013, aos 19 anos, depois de ter participado do projeto Jovens Urbanos e ter feito curso de mediação de leitura, de multiplicadora e de comunicação. Convidada por um professor a assistir o segundo espetáculo do núcleo, Garimpo, a jovem ficou encantada e não demorou muito para que fizes­se parte do grupo. “Percebo a minha evolução como dançarina e também na minha formação, porque o Pélagos não forma só bailarinos, tem várias outras coisas.”

Liliane pretende fazer curso técnico, faculdade e dar aula de dança. “O Rubens dá essa oportunidade para a gente, de sair, dar oficinas, vivências. É uma forma de passar adiante o que a gente aprendeu. Eu participo de um grupo de dança urbana no Grajaú (bairro da zona sul) e acabo dividindo com eles muita coisa do que eu aprendo. E é isso que me faz trabalhar.”

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Replicador Renan: ‘Ganhei mais segurança, mais estrutura, mais base…’

A inclusão é ali

Lucas Saraiva não faz parte do Pélagos, mas entrou no projeto Cidadança, de Ival­do­ Bertazzo, por indicação de Rubens, em 2007. “Ele começou no Cidadança e eu e a equipe toda trabalhamos muito nele. Depois de um tempo, ele me falou que seu sonho era entrar no Grupo Corpo. Depois do Cidadança, o Ivaldo o contratou para a companhia. Para mim, foi um prazer ter trazido esse menino do Arrastão, ter participado da sua formação e tê-lo dançando ao meu lado”, lembra Rubens.

Depois de ter viajado o mundo como bailarino, Lucas teve seu sonho realizado – já completou um ano no Grupo Corpo, de Belo Horizonte. “Sempre quis dançar nessa companhia. Estou realizando um sonho que me estimula a sonhar cada vez mais. Projetos desse tipo têm uma importância sem tamanho. É uma forma de você poder dar para esses jovens uma esperança de que pode dar certo e que eles podem ser felizes”, acredita. Mesmo que muitas vezes eles nem imaginem o tamanho do mundo que os espera. “Treinar esses jovens a sonhar é dar ferramentas e discernimento para que possam evoluir seus talentos e realizá-los. Não é preciso formar bailarinos, mas formar grandes pessoas, grandes humanos que possam fazer diferença no futuro.”

Marcia Minillo
Cena de Y Khyssa, terceiro e mais recente trabalho do Pélagos

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A dança é o que move esses meninos e meninas bailarinos e arte-educadores. Eles são o orgulho de Rubão, o espelho, professor e paizão. “Eu acho errôneo falar sobre ‘incluir esse jovem da comunidade’. Ele já está incluído faz tempo. É que existe uma sociedade paralela que não é conhecida, que é a nossa periferia. É lógico que é importante saber a história do Masp, mas também existe um grande reper­tório cultural na comunidade. Esse jovem também circula por esses lugares onde a cada esquina tem um sarau, uma exposição de artistas locais, um show… Está sendo construída na periferia uma maneira de viver dessa arte.”

Rubens afirma que a arte é apenas uma ferramenta para que esse jovem reconhe­ça seu poder. “Eles têm voz e entendimento; um entendimento que nasceu na periferia. Esse jovem começa a entender, na arte, o poder que ele tem e que é dele.” É sobre isso o terceiro e mais recente espetáculo do Pélagos, Y Khyssa, que significa “o que é meu”, no dialeto Yathê, da tribo indígena Fulni-ô, de Pernambuco. O espetáculo foi apresentado no final de novembro na 31ª Bienal de Artes, em São Paulo, e é tema de um documentário que os próprios alunos do Projeto Arrastão estão fazendo.

Fome de vida

Professor de dança em uma escola de classe média em Perdizes, Rubens diz que o “corpo periférico” tem suas especificidades. “Esse corpo do jovem da periferia tem fome de vida. Tudo o que ele faz, ele faz com muita fome, é um corpo que anda a pé, pega ônibus, arruma a casa, leva o irmão mais novo na escola, carrega uma mochila durante quilômetros para chegar até a escola, joga bola, vive a rua… E esse corpo acaba apresentando muitas possibilidades. Somos um corpo marcado por histórias boas e ruins.”

Além de talento e bagagem acumulados, o pertencimento pa­rece fascinar esses 30 jovens do Núcleo Pélagos. “Eu me vejo diariamente nesses meninos, a cada dificuldade que eles têm, porque são as mesmas que as minhas. Já me perguntaram: ‘Rubens, você já dançou no Ivaldo, já conhece tanta gente importante, já viajou o mundo, por que está voltando para lá?’”. Depois de um suspiro emocionado, ele mesmo responde: “Eu não estou voltando. Simplesmente, eu nunca saí de lá”.

O reconhecimento vem também­ de ­Ivaldo­ Bertazzo. “Ele possui familiaridade com nossas tradições, é um homem forte, com expressões fortes. É bom vê-lo seguindo os mesmos propósitos que tanto perseveramos nessas últimas quatro décadas. Desenha-se com muita nitidez que ele preencherá um grande espaço na linguagem da dança, unindo diferentes biotipos e classes sociais. É uma honra lembrá-lo como ex-aluno e parceiro”, diz Ivaldo.