'Esse Mundo é Meu'

O ‘primeiro fracasso’ de Sérgio Ricardo foi no dia do golpe. Mas o mundo ainda é dele

Músico teve seu primeiro longa-metragem lançado em 1º de abril de 1964. Ninguém foi ver. Perto dos 82 anos, ele diz estar satisfeito com os rumos de sua carreira 'estranha'. Mas lamenta os rumos da cultura brasileira

wilson-santoscpdoc-jb / arquivo rba
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Famoso por sucessos ‘às avessas’, como a vaia no 3º Festival de MPB, em 1967, artista relembra 50 anos de seu primeiro longa

São Paulo – Em uma tarde de quarta-feira, o cantor, compositor, cineasta e artista plástico Sérgio Ricardo foi ao Cine São Luiz, no bairro do Catete, zona sul do Rio de Janeiro. Era uma das casas mais tradicionais da cidade, inaugurada nos anos 1930, e em funcionamento até hoje. Era a estreia de seu primeiro longa-metragem, Esse Mundo é Meu, que tinha no elenco Antonio Pitanga, Léa Bulcão e Ziraldo, além do próprio diretor. “Foi o meu primeiro fracasso de bilheteria”, lembra Sérgio Ricardo, bem-humorado. “Não foi ninguém ver. Estávamos eu e dois amigos. Ninguém queria sair à rua.” A falta de audiência se explica pela data do lançamento do filme: 1º de abril de 1964.

Àquela altura, tropas já haviam saído de Minas Gerais com destino ao Rio, com o objetivo de derrubar o presidente constitucional, João Goulart, que ainda ouvia de assessores propostas para resistir ao golpe. No dia seguinte, mesmo com Jango ainda no país, o Congresso decretou vaga a Presidência da República. Dias de alvoroço e de violência contra a ordem institucional. Nessas condições, de fato, dificilmente se poderia imaginar uma tranquila ida ao cinema.

“Virou uma espécie de maldição na minha vida”, diz Sérgio Ricardo, que se tornou um autor de cinema mais conhecido fora do país, onde ganhou prêmios e participou de festivais. “Sou praticamente inédito no Brasil.” Após a discreta comercialização de Esse Mundo é Meu, ele espera o relançamento, em meados deste ano, de seus outros dois longas, Juliana do Amor Perdido (1968) e Noite do Espantalho (1973).

Esse Mundo é Meu, que também dá título a uma das mais conhecidas músicas do Sérgio Ricardo, conta duas histórias em paralelo: a de um metalúrgico branco (o próprio Sérgio), às voltas com sua mulher grávida, e de um jovem engraxate negro (Pitanga, com 24 anos na época das filmagens), que quer comprar uma bicicleta e conquistar a menina dos sonhos. Parte do longa foi rodada na favela da Catacumba, no Leblon (zona sul), com vista para um dos cartões-postais cariocas, a Lagoa Rodrigo de Freitas.

A favela, como outras, perdeu para a especulação imobiliária e foi removida nos anos 1970. O primeiro trabalho cinematográfico de Sérgio, o curta Menino da Calça Branca (1961), também foi filmado em uma favela que já não existe, a Macedo Sobrinho, no bairro de Humaitá, onde ele morava.

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Capa do DVD de ‘Esse Mundo é Meu’, de Sérgio Ricardo

História na cabeça

A filmagem de Esse Mundo… foi baseada especialmente no modelo da Nouvelle Vague, movimento originário da França que “era o cinema da moda”, conforme lembra Sérgio Ricardo. “Foi tempo recorde em cinema. Não tinha roteiro, não tinha nada. Saía para inventar a história no meio da rua. Na hora, descobria um cenário que me agradava. Tinha a história na cabeça”, conta o diretor. Lembro do Ziraldo dizendo: ‘Mas o que eu vou dizer?’”, conta, rindo. Era tudo “em cima da bucha”, define o autor. “O filme foi nascido do nada. Foi uma experiência fantástica.”

Esse Mundo… foi montado por Ruy Guerra e teve na câmara Dib Lufti, que se tornaria conhecido diretor de fotografia – Dib é irmão de Sérgio, cujo nome de batismo é João Lufti. Os dois nascidos em Marília, no interior paulista, onde os pais, vindos da Síria, moravam desde 1930, um ano depois de o local virar município. O crítico francês Luc Moullet criticou a ausência de Esse Mundo… na seleção para o festival de Cannes em 1965. Também citou o filme de Sérgio Ricardo como um dos principais trabalhos de 1964. Voltou a destacá-lo em 2011, em entrevista para O Estado de S. Paulo.

No meio dessa experiência cinematográfica, Sérgio Ricardo arrumou tempo para compor a trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Ou foi forçado a arrumar, dado o temperamento do “cliente”. O filme de Glauber foi lançado dias antes.

O desenhista Ziraldo faz papel de padre no filme. E divide uma cena marcante com Antonio Pitanga, que, após muito argumento e contra-argumento, acaba levando a bicicleta do pároco. “Ele (Pitanga) leva na dialética”, comenta Sérgio, rindo. “O padre leva a pior nessa.” Já os trechos que tratam de aborto, segundo o diretor, não causaram empecilho na época. “O problema naquela momento era mais político.”

Ele nem soube do destino do filme após o lançamento. “Coincidentemente, eu casei (com Ana Lúcia de Castro, mãe de Marina e Adriana), saí do Brasil e levei o filme debaixo do braço.” O longa foi exibido no Festival Internacional de Filme no Líbano e na Mostra do Cinema Novo em Gênova (Itália), ambos em 1964. “O governo sírio me convidou para inaugurar uma escola de cinema. Fiquei três meses fazendo um média-metragem, que não saiu (no Brasil)”, recorda, referindo-se a O Pássaro da Aldeia, exibido no Líbano.

“Quase lento”

Sérgio diz não ter “nada a repor” no filme. “Ele é tão espontâneo, surgido da criatividade de um momento.” Hoje, ele talvez seja considerado “quase lento”, reflete o diretor, que talvez cortasse um pouquinho de tempo em um outro take. Atuar como ator não chegou a ser um problema, porque Sérgio já havia trabalhado na TV, inclusive fazendo novelas. E também teve quem lhe desse boas dicas, como a cineasta italiana Carla Civelli, “que veio com a turma da Vera Cruz”, experiência cinematográfica brasileira. “Ela (Carla) me passou muito segredo, muita coisa interessante.”

Segredos, Sérgio Ricardo conheceu de várias atividades artísticas, como a pintura e o cinema, embora considere ser músico de profissão (“O resto é lenitivo.”). Na época de Esse Mundo é Meu, ele já havia lançado o terceiro LP, depois de passar, como pianista, em várias casas noturnas do Rio e de São Paulo. O artista avalia que, de certa forma, essa incursão por várias modalidades lhe causou dificuldades. “Nunca me preocupei muito com a carreira. Deu uma carreira estranha. Mas deu certo. Tudo andou dando certo, até pintura. A comercialização do meu trabalho nunca foi desempenhada de forma profissional. Mas está certo, o amadorismo é ótimo. Hoje, aos 82 anos (que serão completados em 18 de junho), estou achando muito bom.” O aspecto comercial da cultura, acredita, “escraviza o indivíduo”.

Para Sérgio Ricardo, integrante do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE), o golpe de 1964 foi uma espécie de morte para a cultura brasileira, que vivia ali o seu clímax: Bossa Nova, Cinema Novo, Teatro do Oprimido. Dali em diante, decadência. “Só prevalece aquilo que não tem valor nenhum. As pessoas estão na arte para ficar ricas, não para fazer arte. Virou um produto de venda.” Ele diz estar mais preocupado com os filhos. “João tocando um violão maravilhoso, a Marina cantando… Mas não são só eles, é a geração deles. A cultura brasileira está naufragando.”

A preocupação se estende à situação política. Sérgio Ricardo defende manifestações, protestos, e identifica uma insatisfação popular. “O sistema está forçando as pessoas a entrar por um buraco meio sem saída. Cadê os parâmetros? Não tem ninguém construindo nada importante no contexto da atividade cultural e política. Esse sistema está insuportável. Mas não é só no Brasil, é no mundo inteiro.” Tudo gira em torno de poder e dinheiro, lamenta.

Aos quase 82, o multi-artista continua percorrendo o mundo e fazendo arte. Quando se pergunta se tem alguma coisa a ser lançada, a resposta vem rápida e acompanhada de um riso: “Dois roteiros de cinema, três livros para publicar, um caixote de músicas inéditas…”.