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Ana Martins: ‘Democracia não é plena, mas liberdade conquistada é importante’

Militante conta dificuldades de enfrentar a ditadura e lembra que o irmão, submetido a 21 dias de tortura intensa, tem sequelas até hoje, por resistir aos choques. ‘Matariam minha irmã’, pensava ele

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“Quem não conheceu a ditadura não sabe o que é o sofrimento da ditadura”, afirma Ana

São Paulo – Ana Martins tem a sua trajetória marcada pela resistência e pela luta contra a ditadura. Nascida em 1940 na zona rural do interior de São Paulo, mudou para a capital com 14 anos, para completar a 4ª série, pois começou a estudar apenas com 12. Tornou-se metalúrgica ainda jovem, e aos poucos se engajou na militância, até se tornar integrante da Ação Popular (AP), uma das organizações clandestinas de resistência à ditadura, que tinha como característica uma forte presença de operários. Mais tarde, já no PCdoB, participou da formação de guerrilha no Araguaia.

Ao recordar os 50 anos do golpe contra João Goulart, em 1º de abril de 1964, Ana avalia que o Brasil ainda não vive em uma democracia plena, uma vez que a forte influência do poder econômico nas instâncias de poder. “Mas a liberdade e as conquistas são muito importantes”, defende.

A militante conta que, quando se mudou para o sertão baiano, em direção à região do Araguaia, no Pará, casou-se e teve a primeira filha, Juliana. A criança andava com uma pulseira com o endereço de sua tia, para o caso de algo acontecer aos pais. “Quem não conheceu a ditadura não sabe o que é o sofrimento, para os que militam, e para os seus familiares, para os amigos”, diz, em entrevista à TVT.

Em 1970, seu irmão mais novo, Elídio, foi preso e torturado durante 21 dias. “Ele tem até hoje sequelas, sofreu torturas com fio elétrico no ouvido, no nariz, na boca, no pênis e no ânus”, relata. Elídio se envolveu na luta armada para ajudar a irmã e acabou preso. E, segundo ela, conseguiu não entregar ninguém. “Ele sabia que eu tinha envolvimento, que eu tinha reunião, guardava material. Pensando que iam me matar, ele segurou, não abriu a boca.”

Ana voltou para São Paulo na clandestinidade ao final da década de 1970, ainda filiada ao PCdoB, que estava na clandestinidade. Atuou por 30 anos em alfabetização de adultos e está ligada ao partido até hoje.

Assista à reportagem da TVT: