Seu gosto

Vinho: vivendo, aprendendo e fazendo as próprias escolhas

Você não precisa ser um expert para entender o vinho. Para treinar o paladar, basta beber vinho, claro, além de ter uma dieta variada, fresca e mais próxima do natural possível, com moderação no açúcar e tempero na medida certa

Pixabay

Gosto de provar o vinho como provo um prato de comida. Mesmo sendo enóloga, eu não fico preocupada se o vinho tem aroma de abacaxi, lichia, compota de frutas ou qualquer coisa nessa linha – até porque os enólogos nem se fixam nisso mesmo. O que busco é a ausência de defeitos (como eles) e memória, muita memória sensorial, como acontece quando provo uma boa refeição.

Não sei quando se convencionou esse papo de ficar achando gosto disso e aroma daquilo no vinho. Honestamente, creio que essa perfumaria toda distancia demais o consumidor da bebida e isso não deveria ter a importância que tem, porque torna o mundo do vinho como ele é conhecido por muitos: chato. Muito chato!

O vinho deveria ser o mais próximo do que esperamos de um bom prato de comida: o arroz soltinho, o feijão bem temperado, o bife no ponto (para os carnívoros), a salada com hortaliças frescas, tudo temperado com carinho, sem excesso de sal, vinagre. Aproximando isso do vinho, a cor tem de estar legal, brilhante (exceto os vinhos propositadamente com turbidez), acidez bacana, taninos idem, uma madeira no lugar certo e por aí vai.

Como eu gosto de dizer – e parafraseando a moçada da gastronomia –, a gente precisa começar a desgourmetizar o vinho, até por se tratar de um produto cujo foco é dar prazer às pessoas.

Vinho é para juntar e não desagregar, como normalmente ocorre com produtos que são elitizados e alçados a um grau de status.

Na minha modesta opinião, esse caminho começa a partir do momento em que o consumidor se torna independente para fazer suas próprias escolhas.

Como se faz isso

O mercado conseguiu nos transformar em consumidores mimados, especialmente o de produtos de luxo, no qual o vinho se enquadra. As redes sociais estão cheias de picaretas de todos os tipos que prometem fazer-lhe tomar vinho “de um jeito diferente”, mas sempre com uma indicação de rótulo no final. Ou seja, sempre rola um jabazinho nessas ofertas (veja bem, cada um sabe a quantidade de boletos que paga e não estou aqui para tirar o ganha pão de ninguém).

Mas, voltando ao ponto, precisamos aprender a ser mais independentes como consumidores. Eu sei que a grana está curta e há uma infinidade de rótulos a serem escolhidos. Mas, se o seu problema é esse, beleza, vá pelo fator preço.

O primeiro passo é: não há outro modo de aprender sobre vinho sem experimentar vinho. Como dizemos no jargão da enologia, é preciso ter “litragem”. A partir daí, o consumidor pode começar a delinear o seu gosto. Mas, deve-se diversificar e não ficar num rótulo só, de um país só, um tipo de vinho e só. Tudo bem?

Sem açúcar

Falo isso porque, no Brasil especificamente, há um aspecto cultural intrínseco, nosso paladar infantil. Nossa história é calcada na cultura da cana-de-açúcar, um mercado sustentado pela escravidão que durou uns trezentos anos aqui, na qual boto na conta todas nossas mazelas atuais.

O Brasil divide com a Índia o posto dos dois maiores produtores de açúcar do mundo (a liderança pende para um e outro a cada ano) e somos o quarto maior consumidor. São toneladas de pó branco (não confunda) altamente processado, que abastece toda uma indústria alimentícia que quer tornar nossos paladares cada vez mais dependentes.

Então, a gente põe açúcar em tudo – no café, no cigarro, na comida ultraprocessada e até no vinho. Assim, estamos criando uma epidemia de obesidade pelo mundo e milhares de diabéticos, afinal, não há insulina que dê conta de tudo isso.

E o vinho?

Como já escrevi em outras colunas, há vinhos naturalmente doces – como o do Porto e de colheita tardia – e aqueles adoçados propositalmente. O problema é que açúcar e álcool, além de ser uma bomba calórica que faz um mal danado à saúde, também faz à digestão.

Bioquimicamente falando, açúcar e álcool não combinam e a ressaca no dia seguinte é brava. Além disso, esses vinhos têm de levar uma dose maior de conservantes, pois, enquanto há açúcar, pode haver fermentação e acidentes, como garrafas explodindo.

No Brasil, o vinho suave de mesa é uma sensação, assim como o “champanhe” vendido no Natal a menos de R$ 10, que de champanhe não tem nada (perdão por destruir os seus sonhos, mas falarei sobre esse tipo de vinho na minha próxima coluna. Aguarde!).

Percebi mudanças no meu paladar quando, há alguns anos, eu fui para a cozinha fazer meu próprio alimento e parei de adoçar o café. Aconteceu comigo o mesmo que escuto acontecer com gente que abandonou o cigarro – você começa a sentir o gosto e cheiro das coisas.

Um mundo de aroma e sabores abriu-se, e o café começou a ganhar outros contornos, porque café bom é como o vinho, tem uma conjunção de reações químicas e bioquímicas e notas aromáticas.

Então me dei conta de que o açúcar mascara outras possibilidades sensoriais e principalmente aquelas que a indústria não quer que você se dê conta (o que está errado) e torná-lo dependente.

Enfim, a independência

Voltando à questão do consumidor mimado, o que proponho é o seguinte: precisamos começar a questionar as coisas que a indústria e os próprios críticos querem atochar na nossa mente. Então, a primeira pergunta a se fazer é: eu gosto mesmo disso ou só gosto por me dizerem que isso é bom?

O primeiro passo rumo à independência é abrir a cabeça. Por exemplo: você já experimentou vinho branco para saber se é ruim mesmo? E o rosé? E espumante brasileiro? Já foi além da uva Cabernet Sauvignon?

Feitas todas essas perguntas, permita-se “afogar” numa taça. Beba tranquilamente, com atenção, sem pressa. Para que pôr pressa em tudo? Se necessário, tente de novo, e de novo.

Permita-se provar devagar, preste atenção na taça, na cor do vinho, no que ele lhe remete. É verdade! Como disse no começo, o vinho carrega muita memória sensorial (gustativa e olfativa, principalmente), assim como a comida.

Faça um rango gostoso, compre uma garrafa, ponha a mesa bem bonita, chame alguém legal para dividir com você ou, então, beba sozinho (a) mesmo. Bote uma música agradável. Por fim, expanda seus horizontes, transforme seu paladar em um adulto. E vá fundo. Essa viagem à maioridade é inesquecível.


Adriana Cardoso é jornalista com mais de 20 anos de estrada, além de enóloga formada pelo Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia de São Paulo, campus São Roque. Fez estágio na Villa Francioni, vinícola localizada na região conhecida como Vinhos de Altitude, na Serra Catarinense, e hoje aventura-se a escrever e falar sobre vinhos, além de dar consultoria em comunicação para vinícolas e outros negócios do vinho. Acompanhe também o podcast Taninos e Afins nas plataformas Anchor, Breakers, Google Podcasts, Pocket Casts, RadioPublic e Spotify.