Brasil

Avaliação Nacional de Vinhos, um retrato do vinho brasileiro

A Avaliação Nacional de Vinhos chegou à sua 28ª edição neste ano. A ideia não é eleger o melhor vinho do país, mas apontar os mais representativos daquele ano. E a safra 2020 trouxe boas surpresas

Divulgação
Daniel Salvador: "a Avaliação Nacional de Vinhos é o maior evento do mundo quando falamos em degustação técnica”

A “safra das safras”. Numa jogada de marketing com o pé na realidade, assim a Associação Brasileira de Enologia (ABE) decidiu nomear a sua 28ª Avaliação Nacional de Vinhos, que acontece todos os anos para mostrar ao país quais vinhos os enólogos escolheram como os mais representativos da respectiva safra. Nesta entrevista, o presidente da entidade, Daniel Salvador, 37 anos, falou da importância do evento para o vinho brasileiro. “A Avaliação Nacional de Vinhos é o maior evento do mundo quando falamos em degustação técnica”, disse.

No total, foram colhidas 395 amostras de 56 vinícolas, “um recorde”, segundo Salvador. A degustação é às cegas, ou seja, quem degusta não tem a menor ideia de onde vem as amostras.

Dentro das 404, foram selecionadas 16 (todas de vinícolas gaúchas), que correspondem a uma espécie de fotografia da safra. Pela primeira vez, foi selecionado um vinho rosé.

Com uma forcinha dada por São Pedro, que mandou mais estiagem (as uvas gostam de menos chuva que outras culturas), a colheita, que normalmente acontece no começo do ano, foi excelente, especialmente no Rio Grande do Sul, maior região produtora do país.

Evento

Dono da Vinícola Salvattore, em Flores da Cunha (Rio Grande do Sul), esse gaúcho, à frente da ABE desde janeiro de 2019, conclui seu mandato em dezembro próximo. A conversa que você lê abaixo (a entrevista na íntegra está disponível no podcast Taninos e Afins, cujo link está no fim do texto) foi feita por Skype, em 30 de outubro.

No final do texto, você também pode conferir as 16 amostras selecionadas na avaliação. A final foi no sábado (7), com transmissão on-line pela primeira vez, diretamente de Bento Gonçalves (Rio Grande do Sul), devido à pandemia. Detalhe um: a menor nota dada, entre as finalistas, numa escala até 100, foi 92. Detalhe dois: as amostras finalistas só foram reveladas ao final do evento.

O evento contou com participações ilustres, como a do narrador Galvão Bueno, que é produtor de vinhos na campanha gaúcha, e do ator Antonio Calloni, um entusiasta do vinho.

Entrevista

O que é a Associação Brasileira de Enologia (ABE) e qual é o papel dela no mercado de vinho?

A Associação Brasileira de Enologia está há mais de 40 anos no mercado e tem como foco principal o aperfeiçoamento da qualificação do seu associado. A entidade é formada basicamente por enólogos associados. Em paralelo, realiza eventos em prol do vinho brasileiro – Concurso Brasileiro de Espumantes e a Avaliação Nacional de Vinhos – e participa também de eventos internacionais.

A 28ª edição da Avaliação Nacional de Vinhos será finalizada daqui a alguns dias. Como foi a preparação do evento durante a pandemia? Houve maior participação da vinícolas?

Um concurso elege os melhores vinhos, enquanto a avaliação prioriza os representantes da safra, sendo um termômetro dela. A Avaliação Nacional de Vinhos, dentro de um conceito técnico, é o maior evento do mundo quando falamos em degustação técnica, seguindo os parâmetros internacionais da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), que tem como presidente uma brasileira (Regina Vanderlinde). Portanto, a avaliação não elege o melhor vinho, mas os mais representativos, e isso a gente faz com os vinhos só da safra do ano.

Neste ano, só estão os vinhos da safra 2020. Nós tivemos 395 amostras de 56 vinícolas. Dessas 395 – todas foram degustadas por um grupo de enólogos –, apenas 16 é que nós apresentamos para que todos possam conhecer esse panorama. Conhecer um pouco do estilo da safra 2020 dos vinhos que já estão no mercado ou que vão para o mercado daqui a alguns anos. Seria como aproximar o consumidor de uma barrica de uma vinícola sagrada, dando a oportunidade para ele degustar um vinho que ainda não está acabado, que está em tanque ou em curso de terminar a sua vinificação.

Safra de qualidade

Vocês receberam mais amostras de vinho brasileiro este ano?

(A safra de) 2020 foi uma safra peculiar, uma safra de qualidade, que entra nos caderninhos com uma qualidade e uma caracterização superior. Na avaliação, nós tivemos um número de amostras crescendo em relação a 2019 e em relação a outros anos também. Foi um recorde e, também, um recorde no número de vinícolas participando, um pouco do reflexo de que as vinícolas acreditam no potencial dos vinhos oriundos da safra 2020.

Você disse que a degustação é feita só por enólogos. Gostaria que você explicasse por que isso é importante.

Para chegar nas 16 amostras finais, de 16 vinícolas diferentes, apenas enólogos são convidados para a degustação, pois tem de ter muita sensibilidade para degustar um vinho que não está pronto. Um vinho que está em barrica, um vinho que está sobre borras finas, um vinho que está agora ganhando seus adornos finais. Por isso, tem que ter muita sensibilidade e muito conhecimento técnico de quem vinifica e não apenas de quem consome o produto final.  Não podemos convidar uma pessoa sem a experiência devida na vinificação. É muito diferente você apreciar um vinho que está no tanque agora de um vinho que está engarrafado, envelhecido e maturado na garrafa. O objetivo da avaliação é levar o melhor exemplar da safra, não o melhor vinho. O melhor vinho é quando ele será engarrafado, no seu tempo mínimo engarrafado. Então, o enólogo é a pessoa mais tarimbada para fazer essa degustação.

Calendário

No momento que vocês escolhem as amostras é justamente quando está ocorrendo a colheita das uvas dos vinhos de inverno (para saber mais sobre os vinhos de colheita de inverno, leia a minha coluna), principalmente na região Sudeste. Como eles ficam nessa avaliação?

A ABE está atenta a essa nova região, predominantemente no Sudeste, onde eles têm essa prática da dupla poda para conseguir fugir das chuvas de verão e produzir vinhos num momento melhor. Nós estamos atentos, mas é óbvio que há um limite. A avaliação não é pensada no calendário vitivinícola, é pensada apenas em outros fatores para que possamos organizar o evento. Diante das circunstâncias, este ano será em novembro. Tradicionalmente ela é realizada em setembro e fatalmente ela não vai conseguir aglomerar todos os vinhos do Brasil porque somos um continente se comparados a outros países.

É muito difícil ter um calendário exclusivo para que a gente possa aglomerar todas as produções. No Nordeste, por exemplo, temos duas safras de uva por ano. É um evento que tenta levar o panorama mais geral possível para o consumidor, mas vamos fazer um esforço para ver como podemos proporcionar que os vinhos colheita de inverno possam participar dentro da safra na avaliação, sem prejuízos ou sem vantagens.

Evolução do vinho brasileiro

Tendo como parâmetro a avaliação, o que você destacaria de evolução no mercado de vinho brasileiro?

O presidente (da ABE), pelo posto que ocupa, acaba tendo um contato geral com muitas vinícolas, acaba participando de muitos projetos. E é evidente a evolução geral do vinho brasileiro. Safra após safra, a avaliação nos ajuda a tomar alguns parâmetros. É fato que hoje, no Brasil, toda a parte de viticultura está sendo mudada. Cada região está procurando a variedade que mais se adapta ao seu clima, ao seu sistema de cultivo. Como tu citaste, a colheita de inverno é um desses parâmetros.

A Serra Gaúcha ainda é a maior região produtora de vinhos e uvas do Brasil e, também, vem procurando melhorar a sua qualidade de cultivo, suas variedades e seus sistemas. Há novas regiões, como Santa Catarina, e a fronteira (com o Uruguai) também vem se consolidando no mercado de vinhos e com produções muito saudáveis e muito fortes. Ou seja, hoje o panorama de viticultura e de vinhos no Brasil é muito forte. Nós mudamos muito e temos muito a caminhar.

Tecnologia

Em termos de tecnologia, nós sabemos que temos acesso a toda tecnologia de ponta na vinificação. Quando falamos de tecnologia, não falamos de melhorar produtos, pelo contrário. A tecnologia de uma vinícola se resume a conseguir extrair o melhor potencial de cada uva. As vinícolas não fazem milagre industrializando vinhos. Há um consenso entre os enólogos de que da uva boa se faz vinho bom, da uva ruim se faz vinhos medíocres. Isso não tem como mudar com tecnologia. Então, o que queremos apresentar para o consumidor é o perfil de cada uva sem intervenção da tecnologia ou com a menor intervenção possível. Por isso, em termos qualitativos, a ‘safra das safras’ 2020 está fora da curva, mas é possível avaliar nos últimos 10, 12 anos uma evolução muito grande. E caminhando a passos largos para melhorar cada vez mais e figurar entre os grandes produtores de vinhos do mundo.

Obviamente, nossa produção ainda é muito pequena se comparada a países mais tradicionais, mas essa é uma fase pela qual todo novo produtor passa. Ele começa, ele cresce, e vai atingindo novos horizontes, novos mercados e, talvez, ganhando mais força. Isso é normal. Não é um problema dizermos que, hoje, o Brasil produz muito pouco – produz o que precisa para vender para quem quiser comprar. Não temos uma necessidade de sair querendo ser o maior produtor de vinhos do mundo, até porque esse não é o foco do Brasil.

Espumantes

A gente sabe que o Brasil vende bastante espumante. Você destacaria algum outro tipo de vinho que o Brasil esteja produzido bem?

Os espumantes ganharam mais notoriedade a partir da crítica internacional. Quando temos grandes degustadores, sejam individuais ou em concurso, quando eles admitem que o espumante brasileiro merece uma atenção maior do que estava sendo dada, isso acaba provocando um frenesi, por assim dizer, dentro do próprio país. Hoje, nós já temos resultados melhores em vinhos brancos e, na questão dos vinhos tintos, ainda não temos um resultado evidente, porque estamos começando a colher agora novos frutos. Porém, acredito que é questão de alguns anos para que o Brasil seja reconhecido definitivamente por todos os seus produtos, não apenas em uma categoria e outra.

Vinho tinto brasileiro

Quando você fala dos vinhos tintos ainda não terem ‘evidência’, o que exatamente quer dizer?

São vários fatores. Um dos aspectos que o mundo observa num vinho ou num espumante é seu grau de representatividade e como ele pode ser descrito. Você não pode simplesmente copiar uma tendência ou fazer um vinho e tentar vendê-lo como sendo de outra região. O Brasil estava trabalhando o seu mercado de vinhos tintos basicamente indo de carona com outras regiões produtoras. Hoje o Brasil desafia a si mesmo. Mudou seu sistema de cultivo, suas plantas, as variedades, dentro das vinícolas houve uma mudança drástica e, nesse resultado, nós conseguimos identificar uma sensibilidade, um diferencial, até uma qualidade superior nos vinhos tintos. Então é uma fase de crescimento, de amadurecimento.

Quando o Brasil apresentou seus primeiros vinhos tintos, eles foram elogiados, mas não convenceram de que seriam os grandes rótulos do mundo. Mas, aos poucos, nós vamos reconquistando essa crítica e ganhando muitos elogios, que é o que mais gostamos. Falando de forma setorial, gostamos de ver algumas vinícolas se destacando e levando o nome do Brasil para a frente.

Sustentabilidade

Como está a questão da sustentabilidade da produção de uvas e vinhos no Brasil? A gente vê uma invasão de vinhos orgânicos, biodinâmicos, de países como Chile, França e Alemanha, que têm mais tradição, principalmente no biodinâmico. Como está esse assunto no Brasil?

Hoje nós conseguimos mensurar a participação de mercado dos vinhos, vamos falar assim, não tradicionais – orgânicos, biodinâmicos ou elaborados com a menor intervenção possível –, que estão dentro da viticultura, mas têm uma classe de vinificação especial. Já sabemos que os percentuais são importantes, embora ainda muito pequenos.

No Brasil, temos um clima que ainda merece um pouco mais de atenção, merece um pouco mais de estudo. Também estão sendo realizadas pesquisas para que possamos evoluir na questão sustentável desse setor da uva e do vinho. Agora, temos um problema que já é recorrente de uso de uns herbicidas em culturas de grande impacto, que estão prejudicando e provocando a morte de muitos vinhedos. Talvez isso mostre como a planta da vinha é sensível. Não se pode intervir nela. É uma planta perene, merece um cuidado e uma proteção muito grande; ou seja, não tem como fazer o uso de agroquímicos de forma desenfreada ou descontrolada.

Dados

É muito difícil encontrar dados do setor vitivinícola no Brasil. E isso foi muito prejudicado com o problema que houve com o Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho, que está sendo substituído pela União Brasileira de Vitivinicultura – Uvibra). Vocês estão tentando resolver esse gargalo para o vinho brasileiro?

Hoje a ABE é uma das entidades que representa o setor da uva e do vinho. Dentro de seu planejamento, é muito forte que o seu vértice é cuidar da parte técnica, da parte de qualificação, movimentando também o lado da visibilidade do mundo do vinho. Juntamente conosco, há outras entidades fortes, de cunho mais teórico, mais político, mais voltado para a questão das leis. Inclusive com o envolvimento devido na questão dos números, que são importantes para mensurarmos em que pé está o setor da uva e do vinho. Então, com a extinção do Ibravin, ou melhor, com a suspensão de suas atividades, uma nova entidade está sendo formada.

Tivemos recentemente a confirmação da assinatura do fomento de apoio em que o imposto do fundo Vitis, que era pago por vinícolas gaúchas, vai ser repassado para o setor com algumas mudanças (para saber mais sobre esse tema, ouça a versão integral da entrevista no podcast Taninos e Afins, cujo link está no final deste texto). Existem diversos meios declaratórios de produção de uva e de vinho, mas eles são restritos ao Rio Grande do Sul. Não há um cadastro nacional ainda, então depende muito de que cada estado adote esses controles e que possamos ter, de fato, por via de governo, dados de produção de uvas, de vinho, de comercialização, de estoque, ou seja, dados que possamos mensurar o setor no Brasil.

Os selecionados na Avaliação Nacional de Vinhos de 2020

Categoria vinho base espumante:

– Chardonnay – Cooperativa Vinícola Aurora – Bento Gonçalves (RS)

– Riesling Itálico/ Chardonnay/ Pinot Noir – Chandon do Brasil – Garibaldi (RS)

– Pinot Noir – Casa Valduga – Flores da Cunha (RS)

Categoria branco fino seco não aromático:

– Riesling – Cooperativa Vinícola Garibaldi – Garibaldi (RS)

– Chardonnay – Cooperativa Vinícola Aliança – Santana do Livramento (RS)

Categoria branco fino seco aromático:

– Sauvignon Blanc – Vinícola Família Lemos de Almeida – Vacaria (RS)

– Moscato Giallo – Vinhos Hortência – Flores da Cunha (RS)

Categoria vinho rosé fino seco:

– Cabernet Sauvignon – Vinícola Almadén – Santana do Livramento (RS)

Categoria vinho tinto fino seco jovem:

– Merlot – Vinícola Salton – Bento Gonçalves (RS)

Categoria tinto fino seco:

– Tannat – Casa Perini – Farroupilha (RS)

– Cabernet Franc – Vinícola Don Guerino – Alto Feliz (RS)

– Tannat – Família Bebber – Flores da Cunha (RS)

– Merlot – Pizzato Vinhas e Vinhos – Bento Gonçalves (RS)

– Merlot – Vinícola Cave de Pedra – Bento Gonçalves (RS)

– Tannat/ Cabernet Sauvignon/ Cabernet Franc – Casa Venturini – Flores da Cunha (RS)

– Touriga Nacional/ Tempranillo/ Petit Verdot/ Merlot/ Cabernet Sauvignon/ Tannat – Vinícola Miolo – Bento Gonçalves (RS)

Podcast

Para ouvir esta entrevista completa, acesse o podcast Taninos e Afins. Daniel Salvador também falou sobre preço, mais sobre a questão da sustentabilidade, consumo per capita e a cultura brasileira de vinho – como o vinho suave, docinho, e o envolvimento cultural do brasileiro com o vinho. Além da carreira dele na enologia e outros temas bem interessantes para quem gosta de vinho.


Adriana Cardoso é jornalista com mais de 20 anos de estrada, além de enóloga formada pelo Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia de São Paulo, campus São Roque. Fez estágio na Villa Francioni, vinícola localizada na região conhecida como Vinhos de Altitude, na Serra Catarinense, e hoje aventura-se a escrever e falar sobre vinhos, além de dar consultoria em comunicação para vinícolas e outros negócios do vinho. Acompanhe também o podcast Taninos e Afins nas plataformas Anchor, Breakers, Google Podcasts, Pocket Casts, RadioPublic e Spotify.