Psicologia solidária

Nem tudo é cor-de-rosa no mundo da mulher, principalmente em tempos de pandemia

O cenário de violência contra mulheres se agrava. Além de planejar o depois, temos de olhar para o hoje e não adiar o que tem que ser feito para reagir

Pixabay | Arte RBA

Vocês estão acompanhando as estatísticas quanto ao aumento da violência doméstica e sexual contra as mulheres em meio à pandemiae ao isolamento? Ficar em casa não garante a segurança de muitas delas, ainda que essa seja a atual estratégia de prevenção ao contágio com o vírus. O estreitamento na convivência diária vem fazendo com que mulheres sejam vítimas de outro mal, vulneráveis aos maus tratos de companheiros.

Os números demonstram aumento significativo em lesões, estupros, feminicídios, homicídios etc. Mas de longe não retratam a verdadeira realidade do que acontece dentro desses lares, uma vez que o ato de denunciar já é dificultado pelo acesso às delegacias. E porque não há também um suporte necessário para que elas se sintam acolhidas e protegidas.

Vale a pena pensar acerca dos motivos pelos quais esse cenário permanece, ainda nos dias atuais, mesmo com a Lei Maria da Penha em vigor no país. E quais os reflexos para a saúde mental do mundo feminino.

Múltiplas tarefas

Mesmo em pleno século 21, apesar de tantos avanços no mundo científico e tecnológico, os direitos humanos para as mulheres ainda não são exercidos na prática, sob a ótica da observação da realidade e não da legislação, quando comparados com os que beneficiam os homens. Isso só para começo de conversa.

O fato é que as mulheres detêm habilidades muito peculiares, como lidar com múltiplas tarefas ao mesmo tempo. Por exemplo, a facilidade para organizações cotidianas e acertos logísticos que vão desde o roteiro de férias da família até a decisão por quem busca os filhos na escola e onde os entrega. E é assim que a mulher vai tomando para si a gestão da vida pessoal e familiar, tudo isso sem perder de vista a própria carreira profissional e os relacionamentos sociais.

Ainda que em países considerados neoliberais, onde a força produtiva da mulher já é tida como primordial e de qualidade, nem assim ela vem sendo respeitada como deveria. As estatísticas não deixam dúvidas a respeito desse não reconhecimento, tanto por não terem acesso a altos cargos, como comprovadamente por receberem salários menores mesmo quando executam as mesmas funções. 

Cruéis limitações  

A limitação começa desde a falta de vagas em creches, complicando mais ainda a disponibilidade para trabalhos formais com garantias a direitos trabalhistas. Isso faz com que as mulheres enveredem por atividades informais como forma de garantir o cuidado com seus filhos. Sem contar a limitação que enfrentam na participação política, no acesso à educação e à saúde, sendo, contudo, exigidas demasiadamente em obrigações e deveres sociais.

A violência psicológica às quais elas são expostas contribui em elevar os riscos exponencialmente, se comparados a outros grupos. Como você supõe que fica a saúde mental dessa população?

Podemos falar de alguns fatores determinantes para ajudar a ilustrar esses quadros que contribuem para o aumento dos riscos. Há aqueles que não podem ser modificados por nós, tais como herança genética, gênero, idade, os hormônios que influenciam em todas as fases da vida. E há aqueles que contribuem e são em números bem maiores, mas passíveis de modificação, entre eles estão o nível socioeconômico-ambiental, a escolaridade, as condições de moradia, a discriminação, a instabilidade econômica.

Modelos impostos

Outro fator que eleva muito o risco é toda a forma de maus tratos e violências de ordem moral, física, psicológica e patrimonial que acabam por influenciar a vida emocional dessas mulheres. Um exemplo disso são os modelos de beleza impostos e que fazem com que muitas delas sofram em demasia por não corresponder a eles. 

Submetem-se, assim, por exemplo, a dietas desumanas somente para agradar uma sociedade superexigente. Sem falar na supervalorização dos atributos físicos em detrimento de outras capacidades e da hipervalorização da jovialidade como pré-requisitos importantes no mercado de trabalho e nas relações amorosas.

Fortalecimento emocional 

Urge pensar em como se cuidar para que toda essa sobrecarga social não recaia sobre nosso gênero. Pensar o que fazer para que não adoeçamos profundamente e percamos a crítica quanto ao lugar onde querem nos colocar. Um lugar de meros objetos de prazer e de controle, supervalorizando assim a capacidade de um gênero em detrimento do outro.

Para que possamos nos fortalecer emocionalmente, sem que nos posicionem em classificações pejorativas a fim de nos diminuir e nos excluir do mundo de possibilidades, não há infelizmente nenhuma fórmula mágica. Mas podemos, sim, lançar mão de alguns fatores de proteção que dependerão do esforço de cada uma em prol de sua saúde física e mental. Afinal, uma depende da outra. Para isso, nada como buscar melhorar a autoestima por meio de realizações pessoais e pela busca do autoconhecimento.

Temos de olhar para o hoje e não adiar o que tem que ser feito. Fazer as coisas que dizem respeito à qualidade de vida e que irão refletir em longo prazo em nossa história e na daquelas que virão a esse mundo. Um mundo onde já não é fácil o viver, ainda mais em condições tão adversas de desigualdade.

E não se cale diante da violência. Para denunciar, ligue 180.


Lilian Tavares é psicóloga, gerontóloga social , fundadora da @escutatoriaterapeutica. Faz parte do projeto Psicologia Solidária que atende de forma voluntária profissionais de saúde que enfrentam a pandemia do coronavírus em todo o Brasil.