Psicologia solidária

Cuidado com o cuidador: atenção aos profissionais de saúde no combate à covid-19

Aqueles que no início eram aplaudidos como heróis, hoje sentem-se pressionados, não só pelos gestores dos serviços, mas muitas vezes pelos familiares

SMS/PMPA | Arte RBA
Profissionais de saúde estão expostos a alto risco de infecção, equipamento inadequado para segurança contra contágio, isolamento, exaustão, falta de contato com a própria família

Em 11 de fevereiro, o novo coronavírus foi oficialmente nomeado pela OMS como Corona Virus Disease 2019 – covid-19. A pandemia não apenas trouxe a alta taxa de mortalidade da infecção viral, mas também a desordem psicológica e a catástrofe mental para o resto do mundo. Essa incerteza e imprevisibilidade do surto pandêmico de doença infecciosa refletem em gravidade de impacto na saúde pública. E revela equipes despreparadas psicologicamente para enfrentar tamanha crise.

O alto potencial de contágio psicológico, do medo que frequentemente resulta em uma grande quantidade de problemas como ansiedade, estigma e preconceito, desvelam a fragilidade do organismo frente à doença. Esta vulnerabilidade não faz discriminação. Revela-se em todas as pessoas, desde saudáveis, doentes e, mais tragicamente, os profissionais de saúde, que estão constantemente lidando com o problema na linha de frente.

Heróis pressionados

A quarentena em massa pode causar uma sensação de impotência e sintomas emocionais aversivos em profissionais da saúde que trabalham em diversas linhas de contato com a doença e com os doentes e seus familiares.

Já se percebe que estão preocupados, assustados, sofrendo luto e trauma. Aqueles que no início eram aplaudidos como heróis, hoje sentem-se pressionados e, constantemente, ouve-se relatos de que sofrem pressões físicas e psicológicas, não só dos gestores dos serviços, mas diretamente dos familiares. Estes últimos, no auge do desespero pela vida, não raro direcionam toda sua angústia, medo e raiva a estes profissionais.

Estresse incessante

E isso frente a toda vulnerabilidade a que já estão expostos, incluindo alto risco de infecção, equipamento inadequado para segurança contra contágio, isolamento, exaustão e falta de contato com a própria família.

A pressão social está causando, ainda, outros problemas de saúde mental, que não apenas afetam a capacidade de tomada de decisão dos trabalhadores médicos, mas também podem ter efeitos prejudiciais no longo prazo em seu bem-estar geral.

O estresse incessante que os profissionais de saúde enfrentam pode desencadear problemas psicológicos de ansiedade generalizada, fobias, ataques de pânico, comportamentos obsessivos-compulsivos. Além disso, sintomas de estresse pós-traumático, angústia psicológica, estigma e evitação de contato, tendências depressivas, distúrbios do sono, desamparo, isolamento social.

Inversão de papéis

A repentina inversão de papéis – de um profissional de saúde, que cuida, para paciente, que necessita de cuidados – deve ser contemplada e mostra a necessidade de políticas públicas de cuidado ao cuidador. Apesar dos problemas comuns de saúde mental e questões psicossociais entre esses profissionais em tais ambientes, uma grande parte deles, culturalmente, não costuma procurar ou receber assistência de colega da saúde mental.

Não obstante, abordar as questões de ordem psicológica dos trabalhadores de saúde deve ser uma importante ação de cuidado com quem cuida. Trabalhadores e profissionais de saúde, que lidam em ambiente de alto estresse, são naturalmente suscetíveis a diversas tensões, ao imprevisível e incerto. Portanto, o aconselhamento e a psicoterapia baseados no modelo de adaptação ao estresse podem agir tão cedo quanto efetiva for a intervenção.

Sugere-se que um plano detalhado de intervenções em crises psicológicas deva ser incluído na agenda de discussões para o desenvolvimento de políticas de cuidados biopsicossociais e controle dos impactos gerais da pandemia.

Enfrentamento ao desgaste

Para lidar com os problemas de desgaste à saúde mental, o modelo de intervenção em plantão psicológico deveria ser desenvolvido e implementado, contemplando as características próprias de cada serviço, seja presencialmente em comissões de crise in-loco, seja por meio da tecnologia da internet.

Sugere-se que esse plano integre equipes de médicos, psiquiatras, psicólogos / profissionais de saúde mental e assistentes sociais para oferecer intervenção psicológica precoce a pacientes, famílias e equipes de saúde em geral. Além disso, psicólogos de aconselhamento deveriam visitar regularmente trabalhadores da enfermagem, fisioterapia e médicos entre outros, para ouvir suas histórias de catarse e fornecer apoio.

Diversas medidas implementadas em vários locais de assistência à saúde ajudariam a triagem e intervenção precoces, rápidas, discretas e mais seguras, além de reabilitação posterior. Ainda assim, dados epidemiológicos sobre as consequências para a saúde mental, impacto psicológico, morbidade psiquiátrica e problemas psicossociais com o advento da covid -19, ainda precisam ser explorados para responder a esses desafios. Mas esse é tema para outra discussão, não menos importante.


sono quarentena

Ingrid Francke é psicóloga, doutora em Saúde Coletiva, mestre em cognição humana e professora universitária. Faz parte do projeto Psicologia Solidária que atende de forma voluntária profissionais de saúde que enfrentam a pandemia do coronavírus em todo o Brasil.