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alienação?

'O futebol nunca foi o ópio do povo', diz pesquisador

"O esporte pode sim ser alienante, como qualquer produto da indústria cultural, mas ele também produz significados bons", acredita o pedagogo Gustavo Bandeira
por Fernanda Canofre, do Sul 21 publicado 03/07/2018 12h59
"O esporte pode sim ser alienante, como qualquer produto da indústria cultural, mas ele também produz significados bons", acredita o pedagogo Gustavo Bandeira
Rovena Rosa/Agência Brasil
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'Por mais que as elites continuem comandando o futebol, a representação ainda é popular', diz Gustavo

Sul 21 – A agenda do pedagogo e técnico administrativo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Gustavo Bandeira, é definida pelos jogos do Grêmio de Porto Alegre. Desde os cinco anos, ele é frequentador assíduo das arquibancadas do clube, ao lado do pai. Foi da paixão pelo futebol que surgiu a ideia de aliar a pesquisa sobre construção do conceito de masculinidade ao futebol. A ideia veio de uma professora. Bandeira pensava em analisar a tese através de filmes de comédia norte-americana, como a série American Pie. E virou um campo de pesquisa.

“A ideia era ver como a gente age nos estádios, como torce, contra quem a gente grita, a favor de quem a gente grita, quais os sentimentos são nobres para serem mostrados e quais são proibidos naquele espaço. Eu resolvi olhar, dentro daquele espaço, como a masculinidade aparecia”, conta ele.

Além da formação em Educação, Bandeira fez uma especialização em Jornalismo Esportivo. O estudo acabou virando uma das hipóteses de pesquisa do grupo. A ideia é que um indivíduo aprende a ser homem ou mulher nos espaços de sociabilidade. Entre eles, os estádios de futebol, que sempre foram interditados, de certa forma à elas.

Em tempo de Copa do Mundo na Rússia, com casos de assédio de torcedores a mulheres estrangeiras, gritos homofóbicos, episódios de racismo e xenofobia dentro e fora de campo, Bandeira conversou com o Sul21 sobre todas as questões que o futebol suscita sobre a sociedade e porque ele é o esporte que tem mais poder de ser catalisador de tudo isso:

Parece que o Brasil ainda não entrou no clima de Copa este ano. Comércio não está decorado, como costumava, nem as ruas, não há muita comemoração em dias de jogos. O que tem de diferente neste momento?

Em 2014, dois meses antes da Copa não tinha clima de Copa. Só tinha o “não vai ter Copa”, manifestações nas ruas. Clima de Copa se dá na Copa.Tem ainda um problema muito forte vinculado ao símbolo da seleção brasileira, que é a camisa amarela da CBF, hoje muito mais vinculada ao impeachment da Dilma do que à seleção brasileira de futebol. Eu não era fã do trabalho da Dilma, mas como esse que veio depois é pior, o governo dela parece até bom. Mas eu não uso a camisa da CBF, não sinto vontade de usar a camisa da CBF e eu sempre tive e a usei. Acho que a marca desse símbolo, vinculada a um movimento político, num momento em que estamos extremamente polarizados, faz com que algumas pessoas o rejeitem. Por outro lado, é um país em crise. A gente já teve outras crises, em outros momentos de Copa, mas é uma queda de um momento que a gente vinha melhorando, mesmo que sem grandes conquistas ou revoluções, ao entendimento de boa parte da população. Para a minha geração, que é dos anos 1980, pós-Constituição, acho que esse foi o primeiro baque econômico e de costumes. A gente achava que direitos humanos seriam uma conquista progressiva e contínua, que teria mais direitos humanos. Foi um equívoco da minha geração, talvez isso ajude a atrapalhar o espírito da Copa.

Isso é inédito, não? Ou houve outra Copa assim?

No jogo de sexta (22), eu moro perto de uma escola e era engraçado ver as crianças torcendo. Mas os gritos delas, na hora do gol, foram os únicos. E a gente teve o 7 a 1 aí. Também ajuda. Daqui a pouco, se o Brasil ganha bem do México, se acontecer um Brasil X Argentina ou Brasil X Uruguai, esse clima de Copa volta. Acho que tem uma frustração da derrota que é importante. Porque, ao mesmo tempo, na sexta as ruas estavam desertas. Talvez as pessoas não estivessem ali torcendo, vibrando, mas elas mudaram sua rotina em função do jogo.

O professor da USP, José Miguel Wisnick, analisa o lado sociológico do futebol num livro chamado “Veneno Remédio”, onde ele fala que, no Brasil, “a incapacidade de combinar a paixão e a crítica tornou-se um traço recorrente”. Ele chega a usar os termos “veneno da crítica versus droga euforizante”. Concordas com isso? Ou agora parece ter mudado?

O futebol nunca foi o ópio do povo. Nunca foi. Muito antes pelo contrário. Em 1973, jogou aqui no Beira-Rio, para mais de 100 mil pessoas, público nunca antes registrado, a seleção brasileira contra a seleção gaúcha. Esse amistoso aconteceu porque o Brasil ia jogar contra Portugal, para comemorar o aniversário de Independência, e a seleção brasileira teve a pachorra de não convocar o Everaldo, jogador do Grêmio, tricampeão do mundo em 1970. Os gaúchos ficaram revoltados e resolveram marcar um amistoso. Tinha Figueroa, Anchieta, chilenos, uruguaios, catarinenses, uma seleção Gre-Nal contra a brasileira. O Hino Nacional foi vaiado, bandeiras do Brasil foram queimadas e nós estamos falando de 1973, cinco anos depois do AI-5 ter sido aprovado. Foi o único espaço possível de fazer isso. Se fosse feito isso no Centro de Porto Alegre, você estaria preso. No Beira-Rio, não aconteceu nada.

O esporte pode sim ser alienante, como qualquer produto da indústria cultural, mas ele também produz significados bons. [O futebol] apareceu como ópio do povo, porque a gente sempre teve um marxismo muito chato, que ou você está 100% do tempo fazendo a revolução ou você não serve. Ou você está lutando o tempo inteiro para conquistar os meios de produção ou você é um idiota. O que é um marxismo vulgar, porque Marx não tem nada a ver com isso. Vou culpar a esquerda, campo no qual eu me localizo, sem dúvida, mas a gente tem um problema que é de um certo preconceito ao que é popular. Tem preconceito ao futebol, ao Carnaval, às festas de rua. Hoje é meme nas redes sociais e todo mundo brinca com “enquanto você grita gol eles te exploram; enquanto você vê um filme iraniano também”. O futebol quando aparece é elitizado, mas a América Latina como um todo conseguiu popularizar. Por mais que as elites continuem comandando o futebol, que nas federações, por exemplo, não tenha “povo”, a representação ainda é popular.

Esse afastamento entre torcida e seleção brasileira, a única da América Latina que não se despediu com um amistoso antes de ir pra Copa da Rússia, tem a ver com a figura do herói do time, Neymar Jr.? Apesar de ser um grande jogador, ele é muito mais criticado do que amado pela torcida.

Para a qualidade que o Neymar tem, ele é muito rejeitado. Especialmente nessa geração dele, porque ele é muito melhor que os outros. A gente teve Copas do Mundo que o Romário não foi e, não só não tivemos nenhum problema, como ganhamos. Em 1998, ele foi cortado e fomos vice-campeões. Hoje, nem nós que criticamos o Neymar – e eu me coloco aí – imaginamos a seleção sem ele. Mas não sei se é só ele. Acho que o Kaká também não tinha essa representatividade.

Guilherme Santos/Sul21 Gustavo bandeira
Gustavo Bandeira é autor de pesquisa sobre futebol, machismo e homofobia
Por que será?

Gustavo: São jogadores que são feitos fora do país. No caso do Kaká, com a sua formação toda, ele é o anti-jogador, ele é branco, de família rica, fala bem. Teve um presidente do São Paulo que fez uma frase péssima, horrorosa: “a gente deveria tentar trazer o Kaká porque ele é cara do São Paulo, ele tem todos os dentes na boca”. Mostrando essa lógica elitista mesmo. O Neymar é um cara multimilionário, ele é um astro global antes de qualquer coisa, não é brasileiro. A gente tem problema com ele, mas a Argentina também tem com o Messi. Esses superastros são diferentes do que tínhamos antes. O Ronaldinho representava bem porque tinha um fenótipo que remete ao futebol brasileiro, ele fazia gol e sambava, o sorriso, o drible. O Neymar é brigão, é mimado, então, tem problema sim com essa figura. Mas, também acho que a gente teve, desde o início dos anos 1990, um aumento muito forte da relação do clubismo. Eu não paro pela seleção brasileira, eu paro pelo Grêmio. Na década de 1990, quando tinha amistoso da seleção, não tinha aula na universidade. Na quarta-feira, eu trabalho na UFRGS, as pessoas estavam ligando para saber se teria aula, em plena Copa do Mundo. A seleção perdeu um pouco desse fenômeno, acho que a agenda dos clubes pode ter tomado um pouco.

Essa questão do Neymar tem a ver com as tentativas de cavar falta, de ser “cai-cai”? O próprio Tite falou várias vezes sobre querer que a ética pautasse seu time. O Juninho Pernambucano, ex-jogador do Vasco e do Lyon, disse em uma rede social que é assim que jogadores brasileiros aprendiam desde sempre e que agora precisava mudar. Como a gente começou a questionar isso?

Eu adoro o Tite, acho ele um treinador genial, o único problema é ter treinado o Inter e ter sido campeão, fora isso ele é maravilhoso (risos). Mas, acho que ele tem um discurso moralista, semi-religioso que me incomoda um pouco. O Tite foi campeão da Libertadores com o Emerson Sheik (Corinthians), que mordeu o zagueiro do Boca Juniors. Então, não é assim que funciona, tem muita historinha.

E essa cobrança por mais “ética” da própria torcida?

Eu não sei, porque se pensar sobre o 7 a 1, por exemplo, vão ter vários depoimentos na hora que as pessoas diziam “faltou dar um soco num alemão, faltou chutar um alemão”. A representação da Copa de 1950, o grande drama brasileiro, as pessoas diziam “isso só aconteceu porque o Bigode não deu um soco no Obdulio Varela”. Acho que sempre existiu e continua existindo. O problema do Neymar está vinculado à simulação, ao exagero, à antipatia dele. Eu acho que tem um discurso hegemônico pelo jogo limpo sim, que antes não existia.

A gente tem um fenômeno curioso na seleção. A gente tem a troca de um treinador, o Dunga, de uma característica muito viril, de ganhar a qualquer preço, jogando mal e coisa e tal, pra um Tite que tem essa polidez toda, um bom falar, às vezes meio chato. Entre o ganhar de qualquer jeito e o ganhar por merecimento, a grande lógica do Tite, é mais bonito o segundo. Mas não sei se a gente não vai querer ganhar com gol impedido, com pênalti que não foi. A gente está lidando com novas tecnologias, com o VAR (arbitro de vídeo), mas e se a gente não tivesse esse replay, ia reclamar tanto? É tudo isso junto e combinado, não é uma explicação única. Então sim, a gente tem uma antipatia ao Neymar, não porque a gente é mais moralista, mas porque foi ele que fez. A figura do Neymar como sonegador de impostos, num país que, nos últimos anos, escolheu a corrupção como adversário, como inimigo. Tem a vinculação de ética? Pode ser, mas tem o Tite que é o anti-Dunga e do Dunga ninguém gostava. E mais, tem o acréscimo de tecnologia e não dá mais pra fingir. Se você fingir a câmera vai pegar e você leva cartão. Ela te dá menos espaço para burlar a regra.

O Wisnik, em seu livro, também cita um comentarista francês, Pascal Boniface, que dizia que entre as superpotências dos diversos campos, o Brasil no futebol, seguia sendo o único amado, que fazia as pessoas torcerem por ele. Hoje, isso parece que mudou. Nas redes sociais, pessoas de outros países torcem mais contra do que a favor. Por que será?

Saiu uma enquete que, os países que não tem representante na Copa, ainda torcem para o Brasil. Talvez nos outros países, aí vou dar um palpite, estejam tomados pela lógica torcedora. O Brasil é um adversário no jogo. Apesar de eu torcer sempre contra os Estados Unidos, era e é maravilhoso ver o time de basquete deles jogando. E não sei se hoje a gente tem um jogo tão bonito e tão diferente quanto a gente tinha antes. Todos esses torcedores continuam amando o futebol do Ronaldinho Gaúcho, o drible, a brincadeira. O problema pode ser estético. O jogo do Brasil hoje não é bonito, nosso time joga muito parecido com times europeus, até porque todos os jogadores brasileiros jogam na Europa. Hoje, entre os 11 titulares, só o Fagner não joga na Europa, mas já jogou. Antes, ninguém fazia o que o Ronaldinho fazia. Tem a ver também como o Brasil como produto de exportação. Era muito fácil gostar desses queridos que, quando jogam futebol até ganham, mas não entram em outros lugares. E o Brasil, bem ou mal, esteve como sexta economia do mundo (não está mais), pleiteou uma cadeira na ONU, tentou se colocar como um país grande. Talvez a seleção brasileira pudesse ser entendida como um produto de exportação, como a gente diz, pra gringo ver, como um produto de venda. Hoje nosso produto é igual ao dos outros.

Tu pesquisas a questão da masculinidade no futebol. Agora, na Copa, a gente viu os episódios de assédio, alguns protagonizados por brasileiros e sendo relativizados. No meio do ano, a seleção feminina ganhou o heptacampeonato e teve pouca repercussão na mídia e entre a torcida. Por que o futebol é um ambiente masculino?

A seleção feminina jogou a Copa do Mundo no Canadá e a Marta colocou seus joelhos em gramado sintético. Duvido que o Messi, Cristiano Ronaldo ou Neymar aceitassem isso. O SporTV, que transmite a Copa do Mundo, transmitia a Copa do Mundo de mulheres no SporTV2, porque no 1 passava a série B do Campeonato brasileiro, de futebol masculino. Todo esporte é masculino. Pierre de Coubertin, quando criou os jogos olímpicos modernos, ele fez uma atividade para homens e o esporte como um todo constrói valores de masculinidade. Os homens que jogam futebol podem se querer mais homens por isso. Se você não sabe jogar futebol, se você não gosta de jogar futebol, você tem algum problema de masculinidade. As mulheres, quando jogam, tendem a ser chamadas de “menos mulheres”. Em cada cultura, quando o esporte é importante para ela, é um esporte de homens.

Com isso a gente tem o jogo jogado por homens, a imprensa esportiva que é masculina, os torcedores que são homens (ainda que tenha um aumento das mulheres e isso é uma grande conquista). Num ambiente 100% masculino, comportamento mais brutos, mais viris, são autorizados, os homens se dão esse direito. Se um homem diz que gosta de futebol, outro diz pra ele: “que bom, qual teu time”. Se uma mulher diz que gosta, perguntam qual a regra do impedimento, a escalação de 1923 do Juventus da Moca no returno, porque a mulher precisa provar. Quando os torcedores dizem que é uma brincadeira, que não é violência, o mais grave é que eles não estão necessariamente mentindo. Eles aprenderam assim. O machismo, que não é exclusividade do futebol, é da sociedade, nos autoriza a insultar mulheres, a fazer piadas, provocações inadequadas.

Por mais que a gente esteja vendo esses fenômenos horríveis, posso olhar pra isso como “copo meio cheio” também. Posso dizer que em 2014, 2010, 2006 aconteceu também e a gente nem reportava isso, porque as mulheres também entendiam que era assim mesmo e aceitavam. A gente tem que pensar que o futebol está dentro de uma cultura machista, tem um reforço porque é entendido como um ambiente exclusivo masculino, que faz com que essas manifestações sejam autorizadas, como em outros lugares não seriam. O que os brasileiros disseram na Rússia, não posso dizer num ambiente de trabalho.

E as consequências disso? Uma pesquisa recente mostrou que o número de ligações ao 180 (número para denunciar casos de violência contra mulher) aumenta em dias de jogo de futebol, por exemplo.

É isso, é um país violentíssimo, onde a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. Quando você naturaliza o machismo, em qualquer contexto, o futebol não é o único, mas é um importante, entra junto nesse contexto e naturaliza porque “é brincadeira”. Mesmo que você “esteja só brincando”, você está dizendo que pode estuprar uma mulher, que ela é uma cadela, uma vagabunda, que ela não pode reclamar. Para esse ministro, que é um imbecil, talvez dignidade seja para seres humanos e talvez pra ele mulheres ainda não sejam humanas (o ministro do Turismo, Vinicius Lummertz, disse que episódios de assedio na Copa foram exagerados porque “ninguém foi assassinado”). Porque, sempre que a gente está discutindo homofobia, racismo, machismo, nós estamos falando de direitos humanos e não há no mundo, ninguém, que seja contra os direitos humanos.

O problema dos reacionários é quem eles entendem como humanos. Conversando com os torcedores, se isso era xingamento ou brincadeira – eu parto da hipótese de que é o primeiro, eles, o segundo – o que acontece é que, mesmo quem está acompanhando, está entendendo que existe uma diferença muito importante entre homens e mulheres, entre homens brancos e homens não-brancos, entre heterossexuais e não-heteros. Mesmo que seja brincadeira, você está ensinando que as mulheres são menos, que elas não são sujeitos, que eles podem ter propriedade sobre seus corpos. Quando você faz piada sobre mulheres, você diminui as mulheres e ensina isso às crianças. O exemplo mais clássico que existe é quando uma mulher é abordada de forma inadequada numa festa e o sujeito que fez a abordagem, quando vê que ela está acompanhada, pede desculpa ao acompanhante.

A questão do racismo também está nessa Copa. Entre todos os técnicos, há apenas um negro (do Senegal), os narradores seguem se referindo às seleções africanas como “fisicamente fortes”, “futebol tático fraco”.

Físicas, ingênuas, violentas. Todos os jogadores africanos jogam na Europa. A Copa é um confronto entre as confederações, até acaba suscitando discursos éticos, mas se parar para olhar, nos Jogos Olímpicos, isso também acontece. Sempre tem alguém pra dizer que os negros correm mais a curta distância. Só que a competição não é entre negros e brancos, mas entre atletas de alto rendimento. Isso está dentro das ideias pré-concebidas. Num confronto entre duas equipes , o futebol autoriza isso, ler o confronto sempre de A contra B, ver que joga contra, nunca com, analisar os dois times de forma separada, não pelo enfrentamento. Nessa diferenciação, se tem uma seleção europeia e uma africana, onde a gente vai buscar os elementos para descrevê-las? Na cultura. Não vamos buscar no que eles estão jogando. É o que gente fala nas violências do futebol. Eu tive a oportunidade, durante a pesquisa, de acompanhar duas vezes a torcida do Grêmio brigando com a arbitragem. Uma vez com uma árbitra assistente, que marcou corretamente um escanteio contra o Grêmio, num jogo contra o Vitória da Bahia, e ela virou “puta”, “vagabunda”, “vadia”. No mesmo campeonato, o Grêmio jogou contra o Cruzeiro e um bandeirinha homem, corretamente, marcou um pênalti contra o Grêmio, porque a bola bateu no braço do zagueiro e o juiz não tinha visto. Ele virou “viado”. Digamos que seja “só brincadeira”, por que eles não foram xingados de “ladrão”, “burro”, “idiotas”? A gente busca elementos que estão de fora.

No Brasil, os debates de maior repercussão que a gente teve sobre racismo, nos últimos anos, estiveram ligados ao futebol. O que faz com que ele consiga isso?

O futebol no Brasil é muito importante. Não sei se deveria ser tanto, pra mim é, mas eu quero que as pessoas que não dão bola para ele tenham direito de não achar isso. É a única prática cultural em que o Brasil é o melhor do mundo, indiscutivelmente, então tem esse tamanho e muito espaço de mídia. Tem muita televisão, câmera, holofote, todo mundo grande olha para um estádio de futebol. Mesmo assim, alguns podem achar que a gente começou a ter problemas de racismo em 2014. Não é verdade, em 2014, a gente começou a dizer que não poderia mais acontecer. Eu vou a estádio desde o final da década de 1980 e sempre aconteceu. Eu tendo a ser um otimista, posso imaginar que essa série de violências que a gente tem visto agora, podem ser, nesse primeiro momento, uma novidade positiva, porque a gente está vendo práticas naturalizadas e dizendo que elas não podem continuar assim.

Todas as questões que falamos até agora são de fora do campo. O que dentro dele explica que o futebol tenha tudo isso catalisado?

Tem sociólogos, que usam uma justificativa que eu acho um pouco conservadora, que falam da simplicidade do jogo. É um jogo fácil, você adapta ele de qualquer maneira, qualquer um pode jogar, porque, por exemplo, bola no chão é só chutar, mesmo que você seja muito ruim, é um movimento um pouco mais natural. Mas eu tenho uma hipótese, um pouco diferente do que eu ouço majoritariamente, que o futebol produz uma coisa que os outros esportes não produzem,que é o torcedor de futebol. Isso me parece fundamental. Os diálogos sobre futebol nivelam pessoas e aproximam. Essa figura do torcedor faz com que ele procure o jogo, acompanhe seu time, ele é fiel, permanente. Assistir alguns jogos do Grêmio é de um sofrimento estético…Eu não esqueço um Gre-Nal, que foi 0 a 0, eu estava fora do país na época, terminou o jogo e eu pensei “quem vai devolver essas duas horas que eu perdi?”, porque foi horrível. A gente se mobiliza e não tem nenhuma garantia e continuamos seguindo. O torcedor de futebol é uma figura sui generis, não só entre esportes, mas inclusive, na vinculação com outros elementos culturais, outros espetáculos. É o torcedor de futebol que dá a permanência. O Renato Gaúcho, maior ídolo do Grêmio, somando os anos de jogador e técnico deve ter uns dez anos de clube. O Grêmio tem 115 anos de existência, eu tenho 35 anos de Grêmio, meu pai tem 65 anos de Grêmio. Quem faz isso continuar é o torcedor. Acho que essa figura ajuda a explicar porque o futebol é um fenômeno tão diferente.

Ano passado, um apresentador de TV, Tiago Leifert, fez um texto na revista GQ criticando os jogadores de futebol americano que se ajoelhavam durante o Hino dos Estados Unidos em protestos contra Donald Trump, dizendo que “evento esportivo não era lugar de manifestação política”. O que tu achas disso? 

Tiago Leifert faz entretenimento, não jornalismo esportivo e não tem problema nenhum nisso. Só que tem uma coisa que a gente aprende logo quando começa a se envolver com política. A gente aprende que só não acredita que política existe aquele que está confortável com a situação da forma como está. Quando o Tiago Leifert diz isso, o texto dele é extremamente político, porque não há ambiente sem política. Só que é uma política hegemônica, de uma cara que é apresentador de entretenimento no maior canal de televisão do país, que tem uma hegemonia que a gente nem sabe quanto nos custa, e como ele está bem adaptado, tudo bem. Quem acredita de verdade que não existe machismo? Homens. Quem acredita de verdade que não existe racismo? Brancos. Quem acredita de verdade que não existe homofobia? Heterossexuais. Como para eles é tudo tão naturalizado, eles são a norma. Quero terminar otimista essa conversa, sempre se dizia que futebol e política não se misturavam. Apesar de ela sempre ter estado presente, sempre se disfarçava com essa frase. Quando a gente começa a dizer que algo não está bom, é porque a gente está mexendo com o futebol e eu não sei o que vai acontecer. Sendo parte dessa geração iludida com a constante progressão do desenvolvimento, eu não posso mais ser ingênuo, de achar que essas coisas vão ser sempre pra melhor. Acho que a gente colocou uma bola no meio de campo e tem que jogar esse jogo.

Alguns jogadores de futebol já se manifestam no campo da política partidária. Ronaldo apoiou Aécio Neves (PSDB), Ronaldinho Gaúcho declarou simpatia a Jair Bolsonaro (PSL) e se filou ao seu partido. A Copa muda algo? Qual será a marca deixada por ela?

Acho que o resultado dentro de campo não. O professor Arlei Damo, da Antropologia da UFRGS, escreveu um texto, “Que venha a Copa”, porque qual era o entendimento dele? Nós estamos vivendo um cenário de polaridades muito pesadas no país, com interrupção de diálogo, onde a gente está transformando pequenas diferenças em desigualdades irreconciliáveis. A gente não está ouvindo, está só falando para os mesmos, sem nenhuma possibilidade de conversa. Eu ainda acho que a maioria das pessoas está em silêncio, que estaria disposta a conversar, mas não encontra onde. A Copa do Mundo poderia ser boa nesse sentido, porque a gente está um pouco extasiado e vamos ganhar 30 dias. Com a Copa, a gente ganhou 30 dias mais perto da eleição, porque em algum momento, eu temi que a gente não chegasse ao cenário eleitoral e agora isso fica mais difícil de acontecer. Outra coisa, a Copa é uma diversão. Os coxinhas e petralhas, amarelos e vermelhos, não podem nos roubar a alegria. Vamos gritar gol sim e nos abraçar com as pessoas que a gente costumava abraçar, porque daqui a pouco, nessa dicotomia política, a gente não vai poder mais. Ser feliz também é um ato de resistência. Tomara que a Copa do Mundo nos dê 15 dias de felicidade.