Memória paulistana

Vila Itororó, uma história viva do crescimento de São Paulo e suas transformações sociais

Conjunto arquitetônico erguido no início do século 20 no centro de São Paulo começa a ser restaurado

Norton Ficarelli (antigas) e Nelson Kon (novas)
Imagens da Vila Itororó antes e depois da primeira fase de restauração: conjunto arquitetônico é marco da cidade

São Paulo – Entre a Liberdade e a Bela Vista, o popular “Bixiga”, bairros tradicionais do centro paulistano, a Vila Itororó foi erguida a partir da década de 1910 e logo tornou-se marco das mudanças da cidade e sua arquitetura. A iniciativa foi de um comerciante descendente de portugueses, Francisco de Castro, nascido em Guaratinguetá, interior paulista. Uma vila urbana, a primeira de São Paulo, com 11 conjuntos e 37 casas, ligadas por uma praça, uma piscina particular, uma construção feita com materiais vindos do Teatro São José, importante casa das primeiras décadas do século 20, que ficava onde se localiza atualmente o Shopping Light, na praça Ramos de Azevedo, à beira do Viaduto do Chá. Tombada como patrimônio, a Vila Itororó passou por um período de abandono, foi ocupada e desapropriada pelo patrimônio municipal e estadual. Hoje, recebe atividades culturais. Iniciou-se um processo de restauração, em três fases, implementado a partir de 2015. A conclusão da primeira pôde ser vista na sexta-feira (20), quando pela primeira vez as casas já restauradas foram abertas para visitantes.

“Mascarões”, faces esculpidas, vindas do Teatro São José, podem ser vistas no alto de algumas edificações. Também se observam brasões dos estados brasileiros. A piscina não existe mais, mas a nascente continua ali, atrás de um abacateiro. Durante as obras, muitas descobertas: pinturas originais, ladrilhos, pisos e materiais reaproveitados. Um pouco da história da cidade corre ali, à beira do córrego que não se vê mais e dá nome ao local, na encosta do vale também chamado Itororó. Na virada do século 19 para o 20, São Paulo não tinha sequer 250 mil habitantes, mas crescia de forma acelerada, contam as professoras Sarah Feldman e Ana Castro no livro Vila Itororó – Uma história em três atos. Nos anos 1920, já eram aproximadamente 600 mil.

O processo foi longo e suscitou dúvidas sobre o futuro da vila, que conseguiu escapar da crescente especulação imobiliária, ainda mais em uma região tão central, a minutos do metrô e ao lado da Avenida 23 de Maio, que corta a cidade. Houve conflitos entre o poder público e os moradores que foram se seguindo, ainda mais depois da morte de Francisco de Castro, em 1932. Tombada em 2002 pelo Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp), e em 2005 pelo Condephaat, o conselho estadual, a vila – que nos primeiros anos foi chamada de “bizarra” e “surrealista” – foi decretada área de utilidade pública e desapropriada para fins culturais.

Reintegração de posse

Os moradores foram realocados para locais próximos, como o Bom Retiro e a Praça 14 Bis, uma mudança que não foi tranquila. “Entre 2011 e 2013, num processo pleno de conflitos, com notificações e ações de despejo antes da conclusão pelo CDHU das moradias destinadas aos ex-moradores, a Vila não foi poupada da truculência policial recorrente nas reintegrações de posse. As 71 famílias, afinal, foram alocadas em três conjuntos, dois localizados nas imediações da Vila e um terceiro no Bom Retiro”, anotam as autoras do livro, lançado em 2017 pelo Instituto Pedra.

Iniciada em 2015, a primeira fase incluiu restauro e intervenção nas casas de números 5, 6, 7 e 11, esta última, na verdade, um prédio com nove apartamentos. Teve patrocínio de BNDES, Camargo Corrêa, IBM e Itaú. A próxima atingirá as casas 2, 3, 4, 9 e 10, além de estabilização da estrutura mais conhecida do local, o Palacete, erguido em 1922. O projeto já foi aprovado com base na Lei Rouanet, de incentivo à cultura, mas ainda não tem patrocinadores confirmados. A área construída, no total, tem 6.828 metros quadrados.

O processo foi desenvolvido por meio de parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura e o Instituto Pedra, uma associação que desenvolve outros projetos de preservação, em São Paulo, em Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro. No início, a preocupação foi reformar o galpão, a área chamada de Canteiro Aberto, um espaço com atividades recreativas e culturais. Na entrada da Rua Pedroso, há várias instalações, locais para descanso e leitura, redes. Segundo a prefeitura, as casas 5 e 6 serão ocupadas pelo Museu da Cidade, enquanto a 7 terá o Fab Lab, uma rede de laboratórios públicos implementada pelo Instituto Tecnológico Social.

“Em vez de realizar uma obra de restauro a portas fechadas, para depois inaugurar um centro cultural pronto definido por poucas pessoas, o projeto de restauro da Vila Itororó propôs a abertura deste canteiro de obras, enquanto realizava o levantamento arquitetônico do conjunto, com o objetivo de compartilhar o conhecimento gerado no local e debater coletivamente os seus usos futuros”, diz Luiz Fernando de Almeida, diretor do Instituto Pedra e coordenador do projeto de restauração. As casas não estão abertas ao público. Não há previsão para o término das obras, neste pedaço da cidade que marca a passagem do tempo e as transformações sociais.