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Jardim Botânico: disputa envolve figuras de peso no PT e no governo

Publicado por Maurício Thuswohl, da Rede Brasil Atual
13:19
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Liszt Vieira, administrador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, já anunciou que fica no cargo até o fim do ano (©lisztvieira.com.br)

Rio de Janeiro – Chamado para uma reunião técnica em Brasília na segunda-feira (27), o presidente do Instituto Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), Liszt Vieira, acabou não se encontrando com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, para falar sobre sua decisão de deixar o cargo por discordar da proposta de regularização fundiária de 620 construções consideradas irregulares dentro de terras públicas do Jardim Botânico e do Horto Florestal. De volta ao Rio de Janeiro, Liszt afirmou ainda não saber ao certo como o episódio será concluído: “Fico, a princípio, até o fim do ano. A não ser que a ministra decida me substituir antes”, disse.

Ela afirma que sua intenção não é fazer pressão sobre o governo, mas admite estar cansado com a longa batalha e preocupado com os rumos que a questão começa a tomar: “Eu tento resolver esse problema da melhor forma há anos. Tento encontrar uma solução que represente uma possibilidade de moradia digna às pessoas, mas também impeça a privatização por uns poucos de uma área que é pública e deveria ser de uso comum. A preservação do parque é fundamental para que o Brasil desenvolva pesquisas e cumpra suas metas, assumidas na ONU, relativas à proteção da biodiversidade”, diz.

Adversário de Liszt na disputa política que envolve a questão fundiária do Jardim Botânico e do Horto Florestal, o deputado federal e ex-ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, afirma que a Regularização Fundiária de Interesse Social levada a cabo na área pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU) respeita as diretrizes da política habitacional dos governos do PT: “Por isso, a tese da remoção das 600 famílias está sendo derrotada”, diz. O parlamentar nasceu na comunidade do Horto e sua mãe e irmã, além de outros familiares, vivem até hoje no local.

Apesar das diferenças internamente debatidas, Liszt e Santos sempre mantiveram a polêmica sob alguma discrição. Isso começou a mudar nos últimos dias, com alfinetadas mútuas através do jornal O Estado de SP: “Liszt quer reviver as remoções da década de 1960, quando pobres eram retirados da Zona Sul”, disse o deputado. O presidente do JBRJ retrucou, afirmando que o colega de partido atua em interesse próprio: “A mãe e a irmã dele moram aqui. É a clientela eleitoral. Há um interesse eleitoral, sobretudo”.

Questão nacional

Mesmo tendo foco em uma questão local, a disputa entre petistas cariocas de peso como Liszt Vieira e Edson Santos a partir de órgãos federais mexe com figuras nacionais do partido e coloca involuntariamente em campos opostos aqueles que trabalham pelo desenvolvimento das políticas ambiental e habitacional do governo. Integrante da velha guarda petista, Liszt teria nos bastidores o apoio de figuras próximas à Dilma, como o secretário de Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Edson Santos, por sua vez, tem o apoio do grupo do partido que gravita em torno do governador Sérgio Cabral (PMDB) no Rio de Janeiro. Também conta com o apoio de figuras de destaque como o deputado Luiz Sérgio (ex-ministro de Dilma) e do ministro Aldo Rebelo (Esportes), este último colega dos tempos de PCdoB, partido onde Santos construiu sua militância até ingressar no PT em 1994, a convite de Benedita da Silva.

Nos ministérios mais diretamente ligados à polêmica, ainda prevalece a discrição. A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, que também é petista, não se manifestou oficialmente sobre o caso, apesar do apoio natural da casa às ações da SPU. Já no MMA, a ministra Izabella Teixeira, que não tem filiação partidária, vem se mantendo distante das discussões. Sobre a decisão de Liszt de deixar o cargo, a ministra se limitou a informar aos jornalistas que ainda não fora comunicada oficialmente. Afastado de Izabella desde o início do governo Dilma, o ex-ministro e atual secretário estadual do Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc, também tem evitado a questão.