Home Cidades Temor de presença de lixo radioativo em comboio irrita população do interior baiano

Temor de presença de lixo radioativo em comboio irrita população do interior baiano

Moradores de Caetité e de Guanambi querem se livrar de carga que seria levada a unidade de urânio e cobram transparência dos órgãos governamentais envolvidos na operação
Publicado por João Peres, da RBA
17:16
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São Paulo – A chegada de doze contêineres de conteúdo não informado colocou em polvorosa duas cidades do interior da Bahia. A população de Caetité, a 750 quilômetros de Salvador, recusou-se a receber a carga, que no domingo (15) migrou para a vizinha Guanambi, onde aportou sob igual desconfiança.

A movimentação teve início no meio da semana anterior, quando sindicatos de trabalhadores do Rio de Janeiro informaram que um comboio deixaria o interior de São Paulo com destino a Caetité, que abriga uma mina de urânio da Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A informação repassada aos moradores é de que os caminhões chegariam transportando lixo radioativo criado na década de 1990 em Poços de Caldas, no interior mineiro.

A INB garante que se trata de uma carga de concentrado de urânio doada pela Marinha para compensar a queda na produção em Caetité, que opera a única unidade ativa deste minério da América Latina. Em nota, a estatal informa que o material foi transferido da paulista Iperó para ser embalado e depois enviado ao exterior. 

“Os órgãos de fiscalização não haviam prestado nenhum esclarecimento ao público sobre o que se tratava”, relata Gilmar Santos, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT). “Dizem que a gente não tem evidências, mas ao mesmo tempo não conseguem comprovar que não tem lixo (contaminado) lá, não apresentam nenhum documento.”

A notícia de que o carregamento estava a caminho provocou alarme ainda maior porque, na memória dos moradores, a estatal vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia não é exatamente uma boa visitante. A INB chegou a Caetité em 1998 estimando haver uma reserva de 100 mil toneladas de urânio. O minério extraído ali é levado a Salvador e encaminhado à Europa, onde passa pelo processo de enriquecimento para abastecer as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2. Em 2008, um relatório do Greenpeace indicou que a água consumida a partir de alguns poços de Caetité está comprometida por contaminação radioativa. 

Desta vez, diante da informação de que os caminhões chegariam no domingo entre 19h e 21h, os moradores bloquearam a estrada e impediram que a carga passasse pelo interior da cidade, rumo ao distrito de Maniaçu, onde funciona a unidade de extração de urânio. O comboio recuou e rumou para a vizinha Guanambi, onde o caso foi registrado. 

“Pegou todo mundo aqui de surpresa. Amanheceram essas carretas carregadas não se sabe com o quê”, reclama o prefeito Charles Fernandes (PP) em entrevista à Rede Brasil Atual. Ele afirma ter cobrado do governo estadual uma retirada da carga suspeita em até 48 horas. Caso isso não ocorra, ele promete acionar o Ministério Público. “Nós não temos nada a ver sobre de onde vem essa carga. Aqui é que não pode ficar.”

Na vizinha Caetité, a prefeitura garante que também foi surpreendida. Sem saber se a carga se trata ou não de lixo radioativo, a administração municipal busca esclarecimentos a respeito. “Estamos agendando reuniões com os órgãos competentes em Brasília para a devida interrupção (do comboio)”, garantiu o prefeito José Barreira em um comunicado.

Outras desconfianças

Representantes de movimentos sociais locais enviaram carta aos ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia, ao governador Jaques Wagner (PT) e ao presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A todos, eles cobram transparência na condução do caso e questionam se Caetité é um dos municípios que aceitaram receber lixo atômico criado pelo Programa Nuclear Brasileiro em troca de benefícios econômicos. 

Uma reunião nesta segunda-feira (16) não foi suficiente para dissipar especulações. Vereadores de Guanambi e deputados estaduais afirmam ter entrado em contato com o governo estadual, mas a população continua desconfiada e a prefeitura quer se ver livre rapidamente dos contêineres. “Mais uma vez a empresa foi questionada sobre o teor do material, mas não chegou a informar do que se trata”, relata Gilmar Santos, da CPT. “Vamos permanecer em vigília. Se nenhuma medida clara for tomada, a população volta à rua.” 

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