cuidado coletivo

Mulheres negras estão na liderança da maioria das comunidades na Baixada Santista

Elas respondem por 70% das 37 lideranças comunitárias em Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Peruíbe. A maioria (62%) atua há mais de 20 anos

José Cruz/Agência Brasil
José Cruz/Agência Brasil
Essas mulheres atuam no cuidado social e coletivo dos territórios, além do ambiente doméstico, sem remuneração

São Paulo – Mulheres negras estão na liderança de 70% das 37 comunidades dos municípios de Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Peruíbe, na Baixada Santista (SP). Em sua maioria (61%) têm mais de 50 anos e 96% não têm renda pessoal. Do total delas, 62% atuam há mais de 20 anos.

Os dados são do  estudo “Território e Comunidades da Baixada Santista”, conduzido pelo Instituto Elos, lançada esta semana. O objetivo foi traçar o panorama atual das lideranças, organizações e territórios da Baixada Santista pós pandemia. E também mapear o acesso aos bens e serviços públicos nos territórios, além das ações realizadas pelo fortalecimento comunitário na região.

As lideranças citaram os principais desafios na atuação junto às comunidades:

  • falta de acesso a recursos financeiros para manter associações comunitárias;
  • desmobilização e
  • falta de acesso às políticas públicas.

A pesquisa mostrou também que, de todo o universo da pesquisa, apenas 35% participam de conselhos ou de iniciativas de interlocução com o setor público.

“Existe uma dificuldade imensa de se manter e de manter esse trabalho social. E não só na pandemia, mas no pós-pandemia, porque ainda se enfrenta uma realidade de bastante vulnerabilidade social, com o agravamento da fome, da insegurança alimentar e quem está à frente dessas organizações são majoritariamente mulheres negras”, explicou a arquiteta e diretora de projetos do Instituto Elos, Natasha Gabriel.

Natasha destacou que essas mulheres à frente das organizações são aquelas que atuam no cuidado social e coletivo, nos territórios. E não só no ambiente doméstico e familiar.

“Por isso falamos do tema da educação não sexista. A base de tudo é a educação. Ou seja, quando entendemos que a maioria das pessoas que estão preocupadas com a nossa sociedade, com esse cuidado cotidiano coletivo são mulheres, entendemos que precisamos realmente trabalhar uma série de valores, como a diversidade, a solidariedade, a empatia, a cooperação”, disse a diretora. 

Na avaliação de Natasha, o resultado da pesquisa aponta para a necessidade de um novo arranjo social. Afinal, muitas dessas lideranças já atuam há mais de 20 anos e, além de exercerem essa função, são mulheres que muitas vezes têm um emprego formal e cuidam da casa e da família. Estão, portanto, em jornada tripla. Mas lembrou também que 96% das líderes comunitárias atuam sem remuneração. 

“Por que a sociedade não reconhece isso como um trabalho que mereça alguma remuneração, já que ele é tão importante e fundamental para a transformação socioambiental? O ideal é que seja minimamente viável, já que é tão importante”, ponderou.

Redação: Cida de Oliveira, com informações da Agência Brasil