Fora de campo

Polêmica no Maracanã: jornalista que dá nome ao estádio detalhou racismo no futebol

Projeto que defende mudança de nome causa controvérsia e lembra histórias do mundo do esporte

Reprodução/Montagem RBA
Construído para a Copa de 1950, o Maracanã foi 'remodelado' para a de 2014

São Paulo – Está na mesa do governador em exercício do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PSC), o projeto que vem causando muita dividida e bola espirrada. Aprovado no último dia 9 na Assembleia Legislativa fluminense, o PL 3.489 provocou reações negativas, a ponto de o Ministério Público do Rio, por exemplo, pedir ao chefe do Executivo que vete o texto. Se isso acontecer, o Legislativo ainda poderia derrubar o veto.

Assinado pelo deputado André Ceciliano (PT) e outros seis, de diversos partidos, o PL altera o nome oficial do estádio do Maracanã. De “Jornalista Mario Filho”, passaria a se chamar “Edson Arantes do Nascimento – Rei Pelé”. O jornalista e escritor pernambucano (chegou ao Rio com 8 anos), morto em 1966, aos 58 anos, continuaria batizando o complexo esportivo, que inclui o ginásio do Maracanãzinho e um estádio de atletismo.

As flores em vida

Para os autores, trata-se de uma homenagem em vida ao maior jogador de todos os tempos, que completou 80 anos em 2020. Para o MP, é uma “violação ao patrimônio imaterial dos torcedores-consumidores, destacando que o esporte é um direito fundamental social e que o nome do estádio integra a identidade cultural carioca”. A chiadeira na arquibancada foi grande. Até ex-companheiros do “rei”, como o ex-jogador Gérson, se manifestaram contra a mudança.

Nada contra Pelé, que em 1969 marcou seu milésimo gol justamente no Maracanã, em uma partida do Santos contra o Vasco. Ele, por sinal, já dá nome a estádio em Maceió. A questão, no caso, é preservar a homenagem àquele que foi um dos defensores da construção do Maracanã, inaugurado em 16 de junho de 1950. Irmão de Nelson Rodrigues (que defendeu que Mario fosse enterrado no local) e criador do tradicional Jornal dos Sports, Mario Filho também é autor de vários livros, com destaque para O Negro no Futebol Brasileiro, lançado em 1947, com prefácio de Gilberto Freyre.

Bodes expiatórios

Na segunda edição da obra, lançada em 1964, o autor observa que a questão do racismo piorou depois da Copa de 1950, quando o Brasil perdeu a decisão para o Uruguai – no Maracanã. A prova estaria naqueles bodes expiatórios, escolhidos a dedo, e por coincidência todos pretos: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os brancos do escrete brasileiro não foram acusados de nada, escreveu.

Foi a tragédia intitulada de Maracanazzo, no estádio recém construído, às pressas, justamente para abrigar a Copa. Prestes a completar 10 anos, o menino Edson, que depois viraria Pelé, viu o pai, seu Dondinho, chorar enquanto escutava a narração da partida. Em 1958, o menino de 17 anos ajudaria a seleção a conquistar seu primeiro título mundial.

Os “pó de arroz”

O jogador do Fluminense Carlos Alberto

O livro narra as transformações sociais que atingiram também o mundo do futebol no Brasil. Mas, no começo, era coisa de branco. Mario Filho conta a história de um atleta do então aristocrático Fluminense, Carlos Alberto, negro. Como fazer? Encher o rosto de pó de arroz – o que deu origem a um apelido do time.

Ou o caso de Arthur Friedenreich, o Pelé do início do século passado, de pai alemão e mãe brasileira, que fez carreira no Paulistano e chegou a jogar no São Paulo. Autor do gol que em 1919 deu o primeiro título sul-americano ao Brasil. Que até resultou em choro de Pixinguinha e Benedito Lacerda (1 a 0).

“Amansando o cabelo”

Friedenreidh, de olhos verdes, um leve tom de azeitona no rosto moreno, podia passar (por branco) se não fosse o cabelo, descreve Mario Filho. O cabelo farto, mas duro, rebelde. Friedenreich levava, pelo menos, meia hora amansando o cabelo. (….) O pente, a mão não bastavam. Era preciso amarrar a cabeça com uma toalha, fazer da toalha um turbante e enterrá-lo na cabeça. E ficar esperando que o cabelo assentasse. (…) Era sempre o último a entrar em campo.

O sul-americano vencido pelo Brasil foi disputado no Rio. Para a mesma competição, mas em Buenos Aires, a CBD, confederação precursora da CBF, só enviou brancos, à exceção de Fried.

Quase todos pretos

Na Copa Rio Branco (um torneio entre Brasil e Uruguai) de 1932, a situação era outra. Os pretos estavam por cima. (…) Nunca a CBD mandara um escrete para fora com tantos pretos. (…) Diga-se de passagem, fez tudo para embranquecer o escrete. Os dois destaques daquela seleção, vitoriosa em Montevidéu, foram os negros Domingos da Guia e Leônidas da Silva. No ano seguinte, foi disputado o primeiro campeonato carioca sob o profissionalismo. E o campeão foi o Bangu, clube operário, do subúrbio. E um time quase inteiramente de pretos.

A própria popularidade do Flamengo, por exemplo, começou a nascer daí, anota o autor. Queria ser o clube mais popular, mais querido do Brasil, não podia deixar o preto de fora. (…) Virou clube do povo quando acabou com a estória de só branco no time. Abrindo as portas da Gávea para os pretos.

Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”

Um deles foi Leônidas, destaque da Copa de 1938 e que depois, em 1942, iria para o São Paulo. Ele ainda ganharia o apelido de Diamante Negro, mais tarde uma famosa marca de chocolate. Virou, talvez, a primeira estrela do futebol profissional. Uma década e meia depois, outro negro, o menino Pelé, dava os primeiros passos, chutes e dribles para ser chamado de “rei”. Alguns o chamavam, simplesmente, de “crioulo”.

Para a controvérsia dos nomes, uma sugestão nasceu das redes sociais. Substituir os nomes da avenida e da praça que homenageiam os ex-presidentes militares Castello Branco e Garrastazu Médici. Passariam a se chamar Pelé e Garrincha. Os logradouros ficam ao lado do Maracanã, estádio hoje bastante diferente do original, devido à reforma para a Copa de 2014 (desta vez, sem o Brasil na final). Com isso, sairiam os ditadores e entraria a dupla que, enquanto atuou junta, garantiu a invencibilidade da seleção.