Resistência das favelas

Na falta do Estado, costureiras de Paraisópolis produzem 1 milhão de máscaras para comunidades

Projeto Costurando Sonhos Brasil completa quatro anos, com papel fundamental na pandemia para mais de 300 comunidades do país

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As máscaras também são comercializadas pelo site do projeto. "Essas mulheres recebem a formação e a partir dela podem empreender, criar seu próprio ateliê e marca, e ganhar dinheiro"

São Paulo – Um ano após o primeiro caso de covid-19 que colocou de vez o Brasil na pandemia, as costureiras de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, já foram responsáveis pela confecção de 1,4 milhão de máscaras de tecido, distribuídas em mais 300 comunidades do país. Na ausência de políticas públicas por parte do Estado, são essas mulheres que têm se encarregado de proteger minimamente os mais pobres da covid-19. 

As costureiras fazem parte do projeto Costurando Sonhos Brasil, criado em 2017 para capacitar mulheres em situação de extrema vulnerabilidade social com cursos de corte e costura. Mas a iniciativa que surgiu da necessidade de empoderar, dar condições para a promoção de trabalho e renda e difundir as favelas por meio da moda se tornou fundamental também neste momento de crise sanitária, quando lideranças comunitárias ficaram sobrecarregadas pela distribuição de comida, álcool em gel e máscaras. 

Organizadas em home office, as costureiras de Paraisópolis então se reuniram dentro de suas casas para garantir às pessoas essa forma de proteção. Na comunidade, parte das máscaras produzidas foram distribuídas pelos chamados “presidentes de rua”, um movimento das lideranças locais em que, a cada 50 casas, um morador voluntário é responsável por conscientizar e monitorar 50 famílias. Presente também nas comunidades de Coroadinho, no Maranhão; Casa Amarela, em Pernambuco; Sol Nascente, no Distrito Federal; Baixada do Juruna, no Pará, e na Rocinha, Rio de Janeiro, o projeto Costurando Sonhos pouco a pouco conseguiu levar as máscaras a estes e outras centenas de locais. 

Realizando sonhos

Em paralelo, algumas peças também foram colocadas à venda on-line para garantir uma renda às costureiras em meio à crise que é também econômica. “Esse projeto é um exemplo de mobilização das mulheres pela proteção das pessoas. Mas é também um exemplo de mobilização para a geração de trabalho e renda porque estas mulheres recebem a formação e a partir dela podem empreender, criar seu próprio ateliê e marca, e ganhar dinheiro”, detalha o líder comunitário Gilson Rodrigues, coordenador nacional do G10 das Favelas, em entrevista a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual.

Nestes quatro anos de atuação, mais de 240 mulheres receberam pelo projeto capacitação e certificação em corte e costura do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Na quinta-feira (25), mais 10 costureiras foram formadas, entre elas Camila Prado. 

Camila também conversou com a Rádio Brasil Atual, onde contou que o Costurando Sonhos “mudou completamente sua vida”. E hoje é “uma fonte de renda muito importante, me ajuda muito e é algo que amo fazer”, comenta. Antes disso, a costureira trabalhava em casa e dependia da renda de seu companheiro. “Hoje faço de tudo um pouco, até minhas próprias roupas eu modelo e costuro, me sinto realizada”. 

A pandemia em Paraisópolis

Por conhecer de perto a realidade de Paraisópolis, ela aponta que se não fosse pelo projeto e outras ações criadas pelos próprios moradores de enfrentamento à covid-19 e à fome, a situação poderia ser muito pior. “Acredito que muitas vidas foram poupadas por meio dessas iniciativas”, observa. Rodrigues concorda e cita o descaso do poder público com as favelas. “Faltam políticas públicas e a água e o serviço de Samu não vêm. E a gente tem que optar se compra álcool em gel, máscara ou comida”, lamenta. 

De acordo com o líder comunitário, um ano depois da pandemia, o cenário ainda é desesperador mas vem sendo atenuado pelos movimentos sociais e pela rede proteção criada pelos presidentes de rua, as ambulâncias contratadas pela comunidade e as máscaras produzidas pelas costureiras.  De toda forma, segundo ele, a situação das favelas ainda é “lamentável por infelizmente não podermos contar com o governo”.

Sem presidente, com a comunidade

Além do descaso, o coordenador também contesta a postura do presidente Jair Bolsonaro que, nesta quinta, durante sua live semanal, criticou o uso de máscaras, mentindo sobre possíveis “efeitos colaterais” de seu uso. As inverdades ainda foram propagadas no mesmo dia em que o Brasil bateu recorde de mortes em decorrência da covid-19, com 1.541 vidas perdidas no período de 24 horas. 

“Nós temos na presidência da República um cidadão que joga contra o Brasil. Mas na ausência dele, podemos contar com um presidente para cada 50 famílias. O movimento do presidente de rua que tem sido um apoio para a população se proteger”, ressalta. 

Com iniciativas próprias, o bloco de líderes e empreendedores de impacto social das favelas trabalha também pela criação de um grande marketplace, um mercado virtual para que os produtos das comunidades sejam consumidos por mais pessoas. Um programa de distribuição também vem sendo construído para impedir a falta de acesso que separa algumas localidades. O intuito é romper inclusive com as fronteiras nacionais, alcançado vendas no exterior. 

Confira a entrevista na íntegra

Redação: Clara Assunção. Edição: Glauco Faria