agressivo

Bolsonaro foi o nome da explosão de agressões contra a imprensa em 2020

Presidente foi o grande responsável pelo crescimento de 167% de casos entre 2019 e 2020, segundo dados do Relatório Anual de Violações à Liberdade de Expressão, divulgado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão

Alan Santos/PR
Aumento de ataques à imprensa foi de 167,85%

São Paulo – O nome “Bolsonaro” esteve presente em 62 dos 94 casos a mais de ataques à imprensa registrados no ano passado em comparação com 2019. O aumento foi de 167,85%, ou de 56 para 150 episódios em um ano, de acordo com o Relatório Anual de Violações à Liberdade de Expressão, divulgado na terça (30) pela Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão).

O estudo divide os registros em dez categorias consideradas não letais, sendo a de Ofensas a que mais se repetiu. Foram 59, quase 40% dos total. É também a que mais envolve o nome Bolsonaro, via de regra o do presidente: são 40. Só em janeiro, nas primeiras duas semanas, foram três ofensas. Em fevereiro, Jair Bolsonaro disse sobre a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, que “ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”. E foi assim, de mês a mês, até literalmente o dia 31 de dezembro, sem descanso nem na véspera de Natal.

As categorias Agressões e Intimidações vêm logo a seguir, pela ordem, somando 64 casos. Aqui o nome Bolsonaro contribuiu em 16 oportunidades, sendo 5 e 11, respectivamente. As outras sete classificações do estudo são Ameaças (10), Roubos e Furtos (5), Atentados (4), Censuras (3), Ataques e Vandalismo (2), Detenções (2) e Sequestros (1).

‘Minions’ e pandemia

Quatro das cinco agressões partiram de manifestantes em atos promovidos por apoiadores do presidente. Nesse item, o relatório destaca que o aumento foi registrado mesmo em um ano no qual as pessoas deveriam estar circulando menos pelas ruas. Foram 15 a mais, quase 67,5%, com pelo menos 59 vítimas, quase o dobro do ano anterior. Em Minas, por exemplo, o cinegrafista Robson Panzera, da TV Integração, foi atacado com o tripé da câmera e teve o dedo fraturado por um empresário que tentou impedir reportagem sobre o aumento no número de militares com coronavírus.

Nas Intimidações, a Abert lembrou dos chamados “Guardiões do Crivella”, funcionários comissionados da prefeitura do Rio de Janeiro que tinham como função gritar e intimidar reportagens realizadas em frente a UPAs.

Morte e sequestro

Houve um caso de morte registrado pela Abert, do jornalista brasileiro Léo Veras, ocorrido em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia localizada na fronteira com a sul-mato-grossense Ponta Porã. Veras era responsável pelo site Ponta Porã News e publicava frequentemente denúncias contra milícias e o tráfico de drogas.

O relatório teve, ainda, pela primeira vez, um caso de sequestro. Romano dos Anjos foi levado por três homens e foi encontrado no dia seguinte com os pés e mãos amarrados, olhos vendados e ferimentos nos braços.

Ataques Virtuais

Claro que além dos ataques físicos, há os realizados em ambientes virtuais. Neles, apesar da queda de 9% entre 2019 e 2020, os números são expressivos. Foram 7.945 por dia, ou quase 6 por minuto.

“Mesmo diante do papel humanitário da imprensa na pandemia, que precisava trazer as melhores informações para a sociedade, os ataques continuaram sem trégua. A energia utilizada para enfrentar fake news poderia ter sido canalizada para ajudar ainda mais o País no combate à COVID-19. Os negacionistas não permitiram”, afirma Manoel Fernandes, diretor da Bites, empresa de análise de dados para decisões estratégicas.

Liberdade de impensa em queda

O comportamento agressivo de Bolsonaro com a imprensa reflete-se também em outro estudo, da organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF). O Brasil caiu cinco posições no ranking mundial da liberdade de imprensa, da 102ª colocação em 2018 para a 107ª em 2020, a pior do país desde que a lista foi criada, em 2002.

“Multifacetados, estes ataques à imprensa seguem uma estratégia cada vez mais bem estruturada de semear desconfiança no trabalho dos jornalistas, de destruir credibilidade e, gradualmente, construir a imagem de um inimigo comum. O objetivo implícito é evitar prestar contas à sociedade sobre o que as notícias trazem à tona, na tentativa de manter o controle do debate público”, afirma o diretor da RSF na América Latina, Emmanuel Colombié.


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