Direito à vida

OAB, ABI, SBPC e religiosos pedem vacinação geral e criticam Bolsonaro

“Perguntamos se o Brasil aguenta mais dois anos”, questiona bispo. “Que aqueles que estão incapacitados possam ser afastados dos seus cargos ou possam despertar”, diz monja

Marcelo Pinto/APlateia/Fotos Públicas
Idosos são 75% do total de mortos pela covid-19. Inicio da vacinação dessa população é urgente para reduzir ocorrências de internações e óbitos

São Paulo – O tema era “vacinação já”, mas o impeachment foi lembrado em alguns discursos, durante evento organizado nesta quinta-feira (21) pela seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por meio de sua Comissão de Direitos Humanos. De forma menos ou mais velada, representantes de religiões criticaram a ação (ou omissão) do governo, ao mesmo tempo em que defendiam o direito à vida. Segundo o presidente da OAB-SP, Caio Augusto Silva dos Santos, mais de 400 entidades que aderiram a manifesto que critica a falta de um plano efetivo de vacinação e defende a democracia e o estado de direito.

O presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, também criticou o ministro da Justiça, André Mendonça, por mandar investigar um advogado que fez declarações contra Bolsonaro. Para ele, o governo tem “dificuldade profunda” de separar público do privado, e o ministro “age como advogado do presidente da República”.

Responsabilidade por mortes

Santa Cruz afirmou que Jair Bolsonaro tem “parcela importante” de responsabilidade nas mortes em consequência da covid-19. Ele acusou o presidente de “esvaziar” o Ministério da Saúde. E chamou as ações do governo sobre vacinação de “Operação Brancaleone”, referência a um clássico filme italiano dos anos 1960.

Para o presidente da OAB, “não haveria um médico, com diploma, honrado”, que desempenhasse o papel de Eduardo Pazuello na pasta. O que demonstra, acrescentou, “falta de competência, de compromisso e de responsabilidade”. Ele também citou a crise humanitária no Amazonas, lembrando que na última segunda-feira (18) morreu o tesoureiro da OAB naquele estado, José Carlos Valim, devido a complicações da covid-19.

“Estamos clamando por uma campanha de vacinação. Já há 58 países vacinando na nossa frente, e nós não conseguimos vacinar nem os nossos médicos, os nossos idosos, e todos os dias perdemos amigos, familiares, colegas de trabalho.”

Politização e negacionismo

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jerônimo, o Pagê, lamentou que o país seja comandado por “um psicopata e um punhado de negacionistas incompetentes”. Ele lembrou que a entidade formalizou um pedido de impeachment de Pazuello. “A questão das vacinas no Brasil foi politizada de uma maneira repugnante. A saúde foi relegada a um terceiro plano”, afirmou, citando ainda declarações de Bolsonaro que ameaçam a democracia. “A nossa esperança não será achincalhada”, disse Pagê.

Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira lembrou que é obrigação dos governantes defender o direito à vida da população. Mas acrescentou que as ações ocorrem “sem planejamento adequado, com negacionismos em relação à ciência, desprezo pela vida das pessoas”. O que tem contribuído para as mortes, emendou.

“Perverso e delirante”

Dom Pedro Luiz Stringhini, presidente regional (Sul 1) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e representante católico no evento, falou em “desastre político e sanitário” no país. “Que se deve”, emendou, “a essa insensatez de um governo federal comandado por um presidente insensato, perverso e delirante. Por isso, perguntamos também se o Brasil aguenta mais dois anos uma situação desse porte, tão agravada por mais de 200 mil mortes”, afirmou o bispo. “Nós acreditamos no Deus da vida. (…) Pedimos que nos sustente na esperança e na ação.”

A iarolorixá Mãe Nilce, da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Reafro), pediu vacina gratuita e urgente. “Isso é direito humano”, lembrou. E a monja Coen Sensei, da comunidade budista, afirmou que o país está “desgovernado”.

Respeito perdido

“A falta de capacidade diplomática do nosso país é envergonhante. É lamentável que grande parte da população brasileira tenha escolhido uma pessoa não capacitada para essas funções”, disse ainda a monja. Ela disse orar para que essa pessoa “se capacite ou saia”.

“Podemos pensar de forma diferente, mas nos respeitamos. E aqui perdeu-se um pouco esse respeito. (…) Rogo que todos os Budas e bodhisattvas abençoem o nosso país, abençoem as nossas lideranças, para que aqueles que estão incapacitados possam ser afastados dos seus cargos ou possam despertar. E, despertando, agir de forma correta, adequada, justa, pela vida, pela ciência, pelo bem de todos os seres.”

Prática da maldade

Pela comunidade evangélica, o pastor Ariovaldo Ramos citou um provérbio bíblico: “Para o insensato, praticar a maldade é divertimento”. E comentou: “Não consigo descrever um texto que defina melhor o presidente da República Federativa do Brasil”.

Para ele, Bolsonaro é “no mínimo corresponsável” pelas mais de 210 mil mortes no país em consequência da covid-19. Ele considera o presidente um “cidadão que não soube honrar o cago para o qual foi eleito”. Encerrou sua fala de forma explícita: “Vacinação para todos já e impeachment já”.

E o rabino Rubens Sternschein, da Congregação Israelita Paulista, citou o mandamento que fala da escolha pela vida. “Nada é mais urgente, mais mandatório, do que cuidar da vida de todos. Ao cuidar da vida do outro, cuido da minha. Esse é o único imperativo, urgente, agora, e aqui.”

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