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PM cerca protesto por um ano do massacre de Paraisópolis e Doria não recebe famílias das vítimas

Presidente do Condepe denuncia forte aparato policial e agentes à paisana monitorando manifestantes em ato, em frente à sede do governo

Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio
Governador de São Paulo não aceitou pedido por uma nova reunião com os familiares que há um ano ainda aguardam justiça pelo massacre

São Paulo – O governador João Doria (PSDB) não aceitou receber os familiares das nove vítimas do massacre de Paraisópolis que protestaram, nesta terça-feira (1º), em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo, localizada no Morumbi, zona sul da capital paulista. Os familiares convocaram ato por justiça e memória aos jovens mortos, mas foram recebidos com ruas fechadas, forte aparato policial e vários agentes à paisana monitorando os manifestantes. 

A denúncia é do advogado e presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Estado de São Paulo (Condepe), Dimitri Sales. “É impressionante a operação policial que o governador João Doria montou na Porta do Palácio dos Bandeirantes”, descreveu pelo Twitter. “Há muitos policiais militares e agentes disfarçados, espalhados por todos os cantos, fotografando manifestantes”, apontou. 

Integrantes da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, uma das entidades que apoiou o ato, divulgaram por meio de vídeos em suas redes sociais o cerco da PM ao ato pelo massacre de Paraisópolis. O tio da jovem Luara Victoria de Oliveira, 18 anos, uma das vítimas, identificado como Vagner, criticou a ofensiva do governo contra os familiares que iniciavam o ato pacífico. “Não há necessidade disso. Tem mais polícia do que manifestante. Tem a polícia, infiltrados no meio da gente batendo foto, todos nós somos eleitores”. 

Um ano do massacre

Há exatamente um ano, além de Luara, os jovens Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos; Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos; Eduardo Silva, 21 anos; Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos; Mateus dos Santos Costa, 23 anos; Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16 anos; Gustavo Cruz Xavier, 14 anos; e Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos, perdiam suas vidas em decorrência de uma operação policial que provocou um tumulto generalizado entre as mais de cinco mil pessoas que participavam do Baile da Dz7, em Paraisópolis. 

Policiais militares foram filmados por moradores e frequentadores encurralando os jovens em um beco da comunidade. Em alguns vídeos, os agentes também foram flagrados batendo violentamente com cassetetes e chutes nos que conseguiam sair da viela. Outras 12 pessoas foram feridas, mas sobreviveram. As vítimas, no entanto, que eram de outras regiões de São Paulo, não conseguiram se dispersar e foram sufocadas quando encurraladas. O laudo pericial confirmou que oito delas morreram asfixiadas. Já Mateus foi morto por traumatismo. 

Investigação

À época, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) apontou que 38 policiais estavam envolvidos na operação. A corporação, no entanto, acabou afastando 31 agentes que seguem, até hoje, sem exercer serviço nas ruas. Nenhum deles, contudo, foi indiciado pelas mortes. As investigações também seguem sem desfecho. 

Em março deste ano, relatório final da Corregedoria da PM, que investiga o caso, admitiu a responsabilidade dos policiais. Mas apontou “legítima defesa” para pedir a absolvição dos PMs envolvidos. 

Um outro inquérito é apurado pela Polícia Civil por meio da equipe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Porém, conforme reportagem do Brasil de Fato, por conta de um mecanismo aprovado no Pacote Anticrime, elaborado pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro, a investigação foi travada e ainda não pôde ser concluída. Fontes do DHPP e do Ministério Público confirmam que o processo está em fase final e deve ter um desfecho até o final deste ano. 

A luta por justiça

O sentimento com o massacre de Paraisópolis é de injustiça, como destaca o tio de Luara. “O que mais deixa a gente indignado é que o nosso governador fala que tem a melhor polícia do país. Mas é a que é mais mal paga, pior escolhida e a que mais mata”, criticou. 

Durante o ato, as mães do jovens mortos reforçavam que “o mínimo” que o governador poderia fazer “era nos receber”. Entre os familiares das vítimas, a busca por justiça se mistura aos relatos de dor e saudade. 

“Vivi 41 anos achando que eu tinha a polícia para proteger minha família. E essa mesma polícia que eu admirava tirou a vida do meu filho, tirou ele de mim. De uma forma cruel e covarde”, desabafou Maria Cristina Quirino Portugal, mãe de Denys Henrique, à repórter Lu Sudré do Brasil de Fato.

Homenagens

Além do ato de protesto, os familiares, sobreviventes e moradores também prestaram uma homenagem às vítimas no beco onde eles perderam a vida. No local foi pintado um mural com fotos dos jovens e flores. E balões com as palavras paz, justiça e amor foram soltos. Os manifestantes evocaram gritos de justiça. 

A Defensoria Pública de São Paulo entrou também com um pedido para que o governo de João Doria indenize financeiramente as famílias das vítimas. A indenização era uma promessa do governador, mas até hoje ela não saiu do papel.

Redação: Clara Assunção – Edição: Helder Lima