Mobilidade urbana

Ciclistas enfrentam barreiras nas cidades e insegurança é maior para as mulheres

Medo de compartilhamento das vias públicas e de colisão e atropelamento são alguns dos desafios para se pensar uma cidade compartilhada

TVT/Reprodução
Assassinato da cicloativista Marina Harkot, que completa um mês na próxima terça (8), comprova a violência no trânsito

São Paulo – Em meio às restrições impostas pela pandemia, o uso de bicicletas vem crescendo no Brasil. De acordo com a Abraciclo, entidade que representa as fabricantes desse tipo de veículo, no segundo semestre deste ano houve um salto de quase 40% na produção de bikes. Mas os ciclistas ainda enfrentam barreiras nas grandes cidades, principalmente as mulheres, como mostra reportagem da TVT

Na próxima terça-feira (8) completa-se um mês do assassinato da cicloativista e feminista Marina Harkot, de 28 anos. Atropelada e morta em São Paulo, na noite de 8 de novembro, enquanto praticava o ciclismo, o qual dedicava sua vida. O acusado pela morte, o motorista José Maria da Costa Júnior, de 34 anos, fugiu sem prestar socorro à vítima. Ele foi indiciado pela Polícia Civil por homicídio culposo – quando não há intenção de matar. 

Mas, a pedido do Ministério Público, a Justiça de São Paulo reclassificou o caso, na semana passada, para homicídio doloso. A Promotoria acusa José Maria de ter assumido o risco de matar a cicloativista por dirigir sob efeito de bebida alcoólica e em alta velocidade. Só no ano passado, ao menos 36 ciclistas morreram no trânsito paulistano.

Insegurança para as mulheres

E para as mulheres a insegurança é ainda maior, como já apontava, em 2016, Marina e integrantes da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade). Em uma pesquisa sobre Mobilidade por bicicleta e os desafios das Mulheres de São Paulo, as cicloativistas mostravam que os três maiores medos eram o de compartilhamento das vias públicas com carros, a colisão e o atropelamento. 

A pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) Letícia Lemos também lembra à repórter Dayane Ponte que a decisão sobre o uso do espaço público passa também pelo medo das mulheres em terem seus corpos violados. Entre as medidas que podem oferecer maior segurança aos ciclistas nas cidades estão as ciclofaixas e ciclovias. “A princípio isso oferece mais segurança contra os carros, atropelamentos, choque com qualquer veículo motorizado. Mas ela não necessariamente oferece proteção contra assaltos, assédios e problemas desse tipo que continuam existindo”, adverte Letícia. 

Em um “mundo ideal”, ressalta ainda o ciclousuário e professor da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva, “nem precisaria de tanta ciclovia porque haveria por parte dos motoristas um convívio e um respeito. Mas enquanto não houver, a ciclovia é, digamos, um processo de transição”, explica. 

Para especialistas, contudo, os acidentes e mortes de ciclistas podem ser evitados nas grandes cidades. “Que o ponto de partida sejam as relações humanas. E que possa ser um espaço de encontro, o andar junto, olho no olho, livre de disputa. Era essa a cidade que a Marina nos ajudava a sonhar”, destaca a coordenadora de pesquisa do Ciclocidade, Priscila Costa. 

Assista à reportagem da TVT