contra as desigualdades

Economia de Francisco: jovens encontram papa para construir um outro mundo possível

Começa amanhã o encontro virtual entre o papa e jovens do mundo para construir alternativas definitivas ao neoliberalismo

VATICAN NEWS
A iniciativa 'Economia de Francisco' tem como objetivo criar um acordo para repensar a economia existente, e de humanizar a economia de amanhã

São Paulo – Começa nesta quinta-feira (19), o evento Economia de Francisco, um encontro entre Papa Francisco e jovens economistas, além de outras personalidades, para debater a construção de novos horizontes e modelos para a economia global. Até o sábado (21), o evento tem o objetivo de encontrar um modelo econômico mais justo, inclusivo e sustentável, colocando em xeque o neoliberalismo atual que pauta os modos de produção de riqueza. Ao todo, serão cerca de dois mil economistas e empreendedores com menos de 35 anos, de 115 países. O Brasil terá 30 representantes no encontro, que será realizado de maneira virtual, com transmissão em streaming.

Andrei Thomaz, da Pastoral da Educação, é um dos selecionados para o evento. “O papa Francisco tem apontado seus interesses sobre o mundo atual e economia é um deles. Quando ele convocou a juventude para falar sobre novas economias, não havia ainda a crise da pandemia. Então, a covid-19 trouxe outros problemas do mercado global que precisam ser revistos”, disse à TVT.

A iniciativa “Economia de Francisco” tem como ideia “trazer gente jovem, além de diferenças crenças e nacionalidades, para um acordo no sentido de repensar a economia existente, e de humanizar a economia de amanhã. O objetivo é repensar a função da economia na sociedade.

Encontro com o futuro

A jornalista Isabel Gnaccarini, doutoranda em ambiente e sociedade pela Unicamp, explica a ideia de reunir tantos jovens num movimento para “realmar” a economia global. “É uma ideia de olharmos para os mais vulneráveis e incluirmos essas pessoas na produção de riqueza. O papa está focando nos jovens pensando no futuro. Com a pandemia, o aumento da desigualdade foi amplificado e estamos vendo o aprofundamento do que já existia. No Brasil, pobres e pretos foram os mais atingidos, morrendo mais pela doença. Portanto, ela mostra os resultados do nosso modelo de sociedade”, afirmou à RBA.

Em outubro, Francisco retomou temas sociais e refletiu sobre um mundo atormentado pela pandemia do novo coronavírus em sua encíclica, com o título Fratelli tutti (Todos irmãos). Na carta, o pontífice pede o fim “do dogma neoliberal” e defende que a fraternidade seja praticada “com atos e não apenas com palavras”.

O combate à desigualdade social é um dos pontos de partida das abordagens durante o encontro. Para o papa, o desafio não é o de falta de recursos, já que o mundo produz, anualmente, 85 trilhões de reais em bens e serviços por ano, o que, razoavelmente distribuído, asseguraria 15 mil reais por mês por família de quatro pessoas, segundo estudos do economista Ladislaw Dowbor.

O papa Francisco fez um grande chamado à população do planeta, em 1º de maio do ano passado, quando pediu para discutir as bases da economia. “Há mais de 40 anos, com o avanço do neoliberalismo, vimos leis invisíveis transformarem a economia em negócios de mercado, ao contrário dos interesses da sociedade.”

Eduardo Brasileiro, da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC), lembra que, naquele 1º de maio de 2019, o líder religioso pediu orações para quem está sem trabalho e afirmou que o desemprego é uma “tragédia” mundial da atualidade. “O papa Francisco faz um grande chamado à população, em 1º de maio do ano passado, quando pediu para discutir as bases da economia. Há mais de 40 anos, com o avanço do neoliberalismo, vimos leis invisíveis transformarem a economia em negócios de mercado, ao contrário dos interesses da sociedade”, afirmou Eduardo.”

Diversidade de temas

O encontro abordará temas diversos: trabalho e cuidado; gestão e dom; finança e humanidade; agricultura e justiça; energia e pobreza; lucro e vocação; políticas para a felicidade; CO2 da desigualdade; negócios e paz; economia e mulher; empresas em transição; vida e estilos de vida.

O evento terá também a participação de especialistas convidados por Francisco, entre os quais, com presença já confirmada, o também economista e filósofo indiano, Prêmio Nobel de Economia 1998, Amartya Sen; o economista e ensaísta estadunidense, da Columbia University, Jeffrey Sachs; e o economista e banqueiro bengalês, Prêmio Nobel da Paz 2006, Muhammad Yunus, também conhecido como o banqueiro dos pobres.

“O papa Francisco não é um revolucionário, nem faz política partidária, mas faz acenos para líderes mundiais. Por trás dele está a figura de São Francisco de Assis. Seu papado que resgata a Igreja como um vetor de transformação das pessoas. É um papado humanista, que trata do povo, trabalho e justiça social. Por isso o lema dele é terra, teto e trabalho”, acrescenta Isabel.