Estrutural

Coação da PM a tour da cultura negra é mais uma forma de racismo

No último sábado (24), Turistas que faziam passeio por pontos relacionados à cultura negra no centro de São Paulo foram vigiados por policiais militares

Reprodução/Black Bird
Segundo os organizadores, Caminhada São Paulo Negra revela história de uma cidade que foi "embranquecida"

São Paulo – A intimidação da Polícia Militar (PM), no último sábado (24) a um grupo de turistas que realizavam um passeio guiado, em São Paulo, a locais que contam a história de locais e personagens da cultura negra revela, mais uma vez, o racismo estrutural no país. Além disso, demonstra que a PM se sente a vontade para vigiar espaços onde acha que pode vir a ser criticada.

A tour realizada pela empresa de turismo e cultura negra Black Bird foi acompanhada de perto por policiais por cerca de três horas. Eles alegaram que foram avisados sobre uma manifestação do movimento negro e, por isso, faziam o monitoramento.

Sócio-fundador da Black Bird Guilherme Soares Dias classificou a situação como “uma violência psicológica muito forte”. A presença dos policiais interferiu diretamente no trabalho prestado, já que o guia chegou a esquecer parte das informações a serem prestadas para os turistas sobre os locais visitados.

“A gente se sentiu bastante coagidos e constrangidos com a presença deles. Estávamos com clientes e queríamos continuar com o nosso passeio. Era uma experiência cultural e turística. As pessoas pagaram por essa experiência, e queríamos que fosse a melhor possível”, afirmou Dias em entrevista à repórter Larissa Bohrer, para o Jornal Brasil Atual, nesta quarta-feira (28).

Ação premeditada

Para a integrante da Marcha de Mulheres Negras de São Paulo Maria José Menezes, não se pode ser ingênuo sobre a atitude dos policiais. A ação, segunda ela, foi premeditada, com o intuito de patrulhar e constranger as pessoas. O esforço dispensado na ação, como o tempo gasto pelos policiais, também revela que essa atuação contou com o respaldo do comando da polícia.

“Foi algo muito premeditado. Eles disponibilizaram todo o tempo para patrulhar, vigiar e constranger o grupo de pessoas negras que estavam fazendo o tour pela cidade. É um total desrespeito conosco, com todas as nossas ações. Inclusive com o nosso direito de transitar, nos informar e participar de uma atividade cultural”, denunciou.

Maria José destaca que o racismo está entranhado em todos os segmentos da sociedade brasileira. Ainda mais com os atuais representantes político, que incentivam condutas racistas. “O racismo é estrutural e estruturante. Está ali, entranhado em todos os segmentos da sociedade brasileira. É algo que atravessa a vida de toda a população. Isso já existia, sempre existiu. Mas agora temos um presidente que naturaliza e estimula isso na sociedade. Não só ele, mas também o Doria”, afirmou.

Opressão

Segundo o advogado do programa de Enfrentamento à Violência Institucional da ONG Conectas Direitos Humanos, Henrique Apolinario, um aspecto particular da gravidade do caso é o interesse dos policiais nas mensagens que estariam sendo transmitidas. “Demonstra que a PM se sente em liberdade de monitorar espaços onde ela acha que pode ser criticada. A gente vê isso crescendo em reuniões políticas e também nas redes sociais”, criticou.

Ele orienta que as pessoas que passarem por este tipo de situação devem procurar a Ouvidoria de Polícia e o Ministério Público. Caberá a esses órgãos exigir a apresentação de um relatório da ação policial, bem como monitorar seus eventuais desdobramentos.

Representação política

Para Guilherme Soares Dias, casos de racismo, como esse, só vão acabar ou diminuir quando a população negra conquistar espaços de representação na política. “Foi assim na África do Sul, que viveu o apartheid até 1994 e, hoje, tem maioria de políticos negros. Ter políticos negros no poder, fazendo leis com a nossa cara e com as nossas necessidades é primordial para ter uma mudança e acabar, de fato, com esse racismo estrutural. Não adianta ter apenas um. A gente precisa ter maioria no Congresso, além de prefeitos, governadores e presidentes negros e negras.”

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Redação: Tiago Pereira – Edição: Helder Lima