Entrevista

‘Somos uma sociedade cansada de levar eletrochoques permanentes’, diz Jacqueline Muniz

Para antropóloga, pandemia generalizou sentimento de incerteza vivido tradicionalmente pelos mais pobres. “O medo generalizado, quando instrumentalizado, nos destitui da capacidade de coesão, de encontrar o outro”

Fernando Frazão/Agência Brasil
Segurança é "poder circular pela cidade, e ter ela para si", afirma especialista

São Paulo – Para a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz, a pandemia levou o conjunto da sociedade a experimentar sensações de medo, incerteza e insegurança. E a “instrumentalização” do ódio reforça a ideia de que os indivíduos estão sozinhos. Mas esses sentimentos fazem parte, há muito tempo, do cotidiano das populações que vivem nas periferias.

É o terreno fértil para o crescimento de discursos autoritários e intolerantes, com a falsa promessa de libertação do indivíduo das forças sociais que o oprimem.

“Somos uma sociedade cansada de levar eletrochoques permanentes. De constantes ameaças. Estão nos empurrando para uma espécie de incerteza. Quando falo da insegurança e do medo generalizado, é porque ele, quando instrumentalizado, nos destitui da capacidade de coesão, de encontrar o outro”, afirmou Jacqueline, em entrevista a Marilu Cabañas, no Jornal Brasil Atual desta sexta-feira (18).

Ela é professora do departamento de Segurança Pública e do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalhou como diretora geral de pesquisa da secretaria de Segurança Pública, auxiliando na criação de órgãos como o Instituto de Segurança Pública e Corregedoria-Geral Unificada. Também atuou na Secretaria Nacional de Segurança Pública, auxiliando na criação de um sistema unificado de dados e estatísticas.

Para ela, segurança é ter expectativa e previsibilidade. “Falar de segurança é ter o amanhã. É sair daqui de casa para comprar uma comida e poder voltar. Segurança é mobilidade socio-espacial. É poder circular pela cidade, e ter ela para si.” Mas tudo isso é tirado da maior parte da população que vive nas periferias.

Língua do medo

Por outro lado, as inúmeras opressões a que estão submetidas essas populações transformam os moradores da periferia em verdadeiros “poliglotas”, segundo a especialista. “Poliglota é o cara da periferia, que tem que falar todas as línguas. A língua do patrão, da madame, do polícia. Está o tempo todo tendo que apresentar o passaporte, a ‘cidadania de carnê’ que tem que ser comprada a cada esquina. Tem que falar a língua do racista, do homofóbico, se o homofóbico for o patrão dele, por exemplo. Sempre de baixo para cima.”

Para a antropóloga, essa necessidade de se submeter às regras de socialização, somada à precariedade dos serviços públicos essenciais, leva ao aumento da incerteza e da sensação de cansaço emocional e existencial. A pandemia escancara o medo de morrer, segundo ela. Mas também há o medo de “sobrar”, por não ter abaixado a cabeça o suficiente para se adequar as normais sociais impostas.

“O medo de ter feito tudo certo, abaixado a cabeça, engolido sapo e, no final, ficar no desemprego, na pior, caído. O medo de sobrar e o medo de morrer, que antes parecia uma coisa exclusiva da pobreza, da periferia – daqueles aos quais a gente excluiu do cercado VIP – todo mundo está experimentando”, afirmou.

Sociedade do “deslike”

Sem coesão, a sociedade brasileira abandona o diálogo, a construção de vínculos e a pactuação. O “unitário”, de acordo com a especialista, toma o lugar do “comum”. “E, então, fazemos a política do “quem ama bloqueia”. É uma sociedade do ‘deslike’ e do cancelamento. Para saciar o apetite autoritário do “eu cancelo”, “eu posso”. Essa política aprendida em emoticons e emojis, e também no Big Brother. É uma política que não dialoga, que tem dificuldade em lidar com a diferença e com a diversidade.”

Assista à entrevista:

Redação: Tiago Pereira. Edição: Glauco Faria