Ao ministro

É a LGBTfobia que é resultado de família desajustada, rebate Symmy Larrat

Ministro da Educação atribui homossexualidade a “famílias desajustadas” e líder LGBT rechaça afirmação: “Uma família que expulsa, agride, faz terror psicológico é uma família adoecida”

Marcello Casal Jr - ABr / Isac Nóbrega - PR
Symmy Larrat e Milton Ribeiro: "Uma família que expulsa, agride, faz terror psicológico, é uma família, como eu costumo dizer, que está adoecida", diz Symmy

São Paulo – Entrevista do ministro da Educação, Milton Ribeiro, publicada pelo Estadão na quinta-feira (24) não deixa dúvidas de que o ministro reforça a LGBTfobia. Segundo Ribeiro, entre outras pérolas que disse, é a homossexualidade que seria fruto de “famílias desajustadas”. O que soa, no mínimo, como uma ironia para a presidenta da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), Symmy Larrat.

Em entrevista à RBA, ela destaca que é “por conta dessa narrativa moral que se estereotipa a população LGBTQIA+”. “Eu não digo nem a família Bolsonaro, mas falando da Flordelis. Isso para o ministro é um conceito de família ajustada?”, questiona.

A história da família que foi parar nas páginas policiais, após a deputada federal Flordelis dos Santos ser acusada como mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, tem todos os elementos para ser uma obra de ficção. O crime, cometido “para não escandalizar o nome de Deus” com uma separação, envolveu, segundo os investigadores, 20% dos membros familiares.

“A LGBTfobia é resultado de famílias desajustadas, o preconceito é resultado de uma família desajustada. Uma família que expulsa, agride, faz terror psicológico, é uma família, como eu costumo dizer, que está adoecida. Elas exploram, oprimem, violentam porque estão adoecidas por esse tipo de conceito”, explica. 

LGBTs na pandemia

Acostumada a resistir a esse tipo de ataque, Symmy abraça os diferentes desafios que aparecem. Primeira mulher trans a presidir a ABGLT, ela agora assume a gestão da Casa LGBTI+ Neon Cunha, em São Bernardo do Campo, ABC Paulista. Inaugurada em 2018, homenageando a ativista da Marcha das Mulheres Negras e uma das maiores vozes na luta pela despatologização da identidade de pessoas trans, Neon Cunha, a Casa, é um mais um espaço de promoção e inclusão da diversidade que vem se fortalecendo na luta pelos direitos dessa população. 

Quem está na linha de frente, como Symmy, sabe os efeitos que o discurso de ódio provoca. Ela, que já acompanhava o projeto de longe, começou a observar junto a outros ativistas envolvidos na ação, que a pandemia da covid-19 está agravando problemas que já eram anteriores. “A falta de emprego e renda, a necessidade de moradias e certas violações, inclusive físicas”, elenca a nova diretora da entidade. 

“Sem emprego e renda, as pessoas acabam recorrendo à informalidade e isso as expõe a uma violência maior, mas não porque elas motivem (a violência). A minha vinda acaba ocorrendo exatamente para ser um reforço na organização do projeto”, descreve. 

A Casa Neon Cunha

Desde o início da pandemia a Casa Neon Cunha vem atuando para minimizar os impactos da crise sanitária e econômica na população LGBTI+ e seus familiares em situação de vulnerabilidade. Entre 150 a 200 pessoas, de acordo com a gestora, são acompanhadas pela entidade que atua principalmente no campo da segurança alimentar e na distribuição de materiais de higiene e prevenção ao novo coronavírus. Até o início de julho, mais de 700 cestas foram entregues. De lá para cá, outras 300 também foram destinadas às pessoas LGBTs. 

O projeto vem recebendo apoio de empresas, parceiros e pessoas da região do ABC. “A pandemia nos trouxe problemas, mas também nos trouxe muita solidariedade. A gente acredita que é esse sentimento de solidariedade que tem também intensificado o projeto na pandemia e que vai nos ajudar a implementar a Casa ainda neste ano”, avalia Symmy.

Apoio para um novo espaço 

“É esse apoio que nunca deixa a gente só. Eu sou a gestora, vou cumprir um papel, mas tem muita gente bacana no projeto, nunca estamos sozinhas”, diz. O apoio da sociedade motiva a nova diretora para viabilizar a abertura de um espaço físico na Casa Neon Cunha. O objetivo é que, até o final do ano, seja criado um ponto de abrigo de passagem, com capacidade para acolher até 32 pessoas LGBTQIA+ expulsas de casa por conta de sua orientação sexual e identidade de gênero.

De acordo com Symmy, a proposta é também promover um espaço em que se possa ter atividades culturais, de capacitação profissional, assim como grupos de leitura e de terapia. “Quando a gente fala de acolhimento, sociabilidade, convivência, estamos falando de oficinas, de cursos que ajudem essas pessoas a ter autonomia, mas também estamos falando de afeto”. O projeto, contudo, ainda precisa de mais incentivos financeiros e doações para sair do papel. “Contamos com a ajuda das pessoas para nos apoiar”, explica a gestora.  (Saiba como participar, clicando aqui).

Efeitos do discurso de ódio

Symmy que já foi coordenadora nacional LGBT no governo Dilma Rousseff e coordenadora na implementação do programa Transcidadania da prefeitura de São Paulo, na gestão de Fernando Haddad, ressalta que a necessidade de todos esses projetos para atender as demandas específicas da população LGBT só acontece, justamente, por conta de discursos preconceituosos, como foi considerado o do ministro da Educação. 

Ao contrário de Ribeiro, segundo ela, muitas pessoas ainda repetem esses estigmas por ignorância. “Quando a gente fala de ter debate na escola estamos falando disso, de informar, não é transformar ninguém em nada. É que a informação pode vencer essa ignorância e aí diminuir o preconceito. Nós precisamos ter outras informações para além desse discurso que nós somos o pecado, a vergonha, isso ou aquilo. A convivência, a informação e a visibilidade naturalizam relações. É por isso que a gente bate tanto na tecla da visibilidade. É visibilidade trans, bissexual, lésbica, porque a gente quer visibilizar essas existências. Quanto mais a gente conhece, mais a gente vê, convive, é melhor”, garante. 

Mas esse não é, no entanto, o caso do ministro do governo Bolsonaro. “É uma pessoa que sabe o que está falando e sabe o porquê de falar aquilo. Ele quer atingir”, alerta, sobre a fala de Ribeiro nesta quinta-feira (24). Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o chefe da Educação ainda disse ver “com reservas” a presença de um professor transgênero em sala de aula.

Acionando a PGR contra o ministro

Com base no entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) que, em junho de 2019, equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo, diversas entidades, entre elas, a ABGLT, pedem à Corte e à Procuradoria-Geral da República uma investigação contra o ministro. A ativista pelos Direitos Humanos e pré-candidata a vereadora pelo Psol, em São Paulo, Erika Hilton também protocolou nesta quinta um pedido de impeachment na PGR. Nas redes sociais, a mobilização, no entanto, causou descrença em quem já atribuiu ao procurador-geral Augusto Aras a pecha de “engavetador”. Symmy rebate. 

“A recusa dele também mostra que a PGR está do lado. Mas a gente vai em cima, é assim que se faz, não pode ficar calada. Tem que mostrar para eles que não estamos caladas. Historicamente a gente resiste. Vamos na PGR, já perdemos e ganhamos até conseguir o que temos. Não dá para voltarmos atrás, não tem mais caminho de volta”, afirma a presidenta da ABGLT.