Inimigo da verdade

Ataques a jornalistas tiram da população direito a boa informação sobre covid-19

Mesmo em meio à covid-19, crescem agressões verbais e físicas contra jornalistas, aponta estudo da Artigo 19. Maior parte delas é do próprio Bolsonaro, imitado por seus seguidores

Reprodução/Twitter
Artigo 19: "Postura da Presidência da República é incompatível com a demanda urgente de melhoria da condição brasileira frente às crises agravadas pela pandemia, e pode ter intensificado a escalada de mortes evitáveis"

São Paulo – Desde o início da pandemia de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, o Brasil registrou pelo menos 82 ataques diretos contra jornalistas, comunicadores e profissionais do setor. A informação é da organização internacional Artigo 19, que monitora o direito e o acesso à informação no mundo. O dado chama atenção por dois fatores: primeiro porque, em tempos de crise como a atual, cresce a importância da atividade jornalística como provedora de informação de qualidade sobre a doença. Além disso, das violações contra a função social da imprensa no Brasil neste período, 72% delas vieram do presidente Jair Bolsonaro, ou de seu círculo mais próximo.

A Artigo 19 ressalta, em estudo recente, que os ataques contra a imprensa prejudicam o direito fundamental ao livre acesso à informação. “O ataque aos comunicadores e aos veículos de comunicação importa na vulnerabilização da população brasileira frente à conjuntura, criando um sentimento de desconfiança ao redor do trabalho informativo. Assim, a postura da Presidência da República é incompatível com a demanda urgente de melhoria da condição brasileira frente às crises agravadas pela pandemia, e pode ter intensificado a escalada de mortes evitáveis”, diz a entidade.

O estudo ressalta o papel da atividade jornalística em meio à mais grave crise sanitária e de saúde pública da história brasileira. “É inegável que o jornalismo tem um papel essencial no contexto da pandemia de covid-19, informando sobre as estatísticas federais e regionais de contaminação e óbitos e sobre as medidas de contenção da disseminação do vírus propostas pelas organizações nacionais e internacionais de saúde (…) No contexto da pandemia, mais do que nunca, é preciso garantir o acesso a informações e cobrar do poder público que cumpra com seus deveres perante a população.”

Conjuntura

Agressões contra jornalistas passam por sites e perfis em redes sociais de fake news, que atuam para descredibilizar a informação apurada. Mas o bolsonarismo eleva o tom e baixa o nível. Entre os episódios de ofensas ao trabalho da imprensa, o presidente chegou a ameaçar – fisicamente e em público – um jornalista no fim do mês passado. Bolsonaro foi questionado sobre por que a primeira-dama, Michele Bolsonaro, recebeu R$ 89 mil reais do ex-assessor parlamentar Fabricio Queiroz. A resposta do presidente foi de desejo de dar “porrada” no profissional que estava legitimamente exercendo seu trabalho.

Mesmo após a repercussão do episódio, Bolsonaro seguiu no ataque aos profissionais da imprensa. Afirmou que jornalistas são “bundões” e que “morrem mais de covid-19” por este motivo. Ele usou, como comparação, o seu “histórico de atleta”, que teria desenvolvido quando serviu ao Exército, de onde foi expulso por mau comportamento.

Descrédito

A estratégia bolsonarista de afronta aos profissionais de imprensa mantém estreita ligação com uma ampla rede de fake news e desinformação. A CPMI das Fake News já denunciou essa onda que tem como inimigo o jornalismo sério. “O  cenário é de descrédito da informação, do trabalho da imprensa. As agressões contra jornalistas são abertamente incentivadas por membros do atual mandato”, afirma a Artigo 19, referindo-se também a membros do governo e políticos associados.

“Os ataques não calam a imprensa. Mas deterioram o ambiente para o exercício profissional num país já marcado por crimes graves contra jornalistas e comunicadores”, argumenta Denise Dora, diretora-executiva da organização.

A política hostil a comunicadores leva ao aumento de casos de agressões verbais e físicas a profissionais por seguidores de Bolsonaro. “Quase 10% dos ataques ocorreram durante coberturas em hospitais e comércios que permaneceram abertos. Eles contrariam decretos municipais e estaduais, e políticas de prevenção contra o vírus no período. As coberturas nesses casos foram interrompidas, por vezes contando com agressões físicas e verbais. Isso coloca em risco a segurança dos jornalistas ali presentes e prejudicando o direito da população à informação”, completa a Artigo 19.

Edição: Fábio M. Michel