VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA

Formação de policiais militares é ‘fábrica de monstros’, diz ex-tenente-coronel

Tese de doutorado aponta que PMs sofrem violências e humilhações em ritos de passagem

Fernanda Cruz/Agência Brasil
De acordo com levantamento da Ouvidoria de São Paulo, nos últimos 20 anos, o número de mortes de civis pela PM cresceu 46%

São Paulo – A militarização das polícias produz efeito psíquico grave aos profissionais, que passam por uma “fábrica de monstros” durante seu período na escola de formação. A afirmação é do tenente-coronel aposentado e doutor em Psicologia Adilson Paes de Souza, que publicou estudo apontando os motivos da letalidade de policiais militares, em São Paulo.

Em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), intitulada Policial que mata: estudo sobre a letalidade praticada por PM de São Paulo, Adilson apresenta um estudo com base em depoimentos de policiais que aceitaram falar sobre suas rotinas. Ele afirma que, apesar das indefensáveis atitudes dos agentes, é preciso de um debate mais amplo sobre a violência da Polícia Militar, pois o problema passa pela formação dos profissionais.

“Eles criam um novo ser, um guerreiro mesmo. O rito de passagem são atividades metódicas para violentar, humilhar e degradar o novo membro, para que se alinhe aos valores da instituição. É a morte do ‘eu civil’ para a criação do ‘eu militar'”, descreve o especialista a Marilu Cabañas, no Jornal Brasil Atual.

Durante as entrevistas realizadas, Adilson notou que as mesmas práticas pelas quais passou, durante sua formação na década de 1980, continuavam a ser adotadas 30 anos depois. “São as mesmas coisas aplicadas, com atividades físicas violentas, como a ingestão de gás lacrimogêneo, violência física, queimaduras, privação de sono e humilhações”, lamentou.

Onipotência e supremacia

Durante a escola de formação, os policiais são obrigados a exaltar sua onipotência e supremacia, privados de mostrar medo e chorar, de acordo com o tenente-coronel. Sem relativizar a violência praticada pelos policiais, ele explica que as ações são consequências da experiência. “A letalidade pode ser um mecanismo de defesa para lidar com essas tensões criadas pelas organizações. Ele tem consciência e age com dolo, mas a discussão é mais ampla. É uma fábrica de monstros”, afirmou.

De acordo com levantamento da Ouvidoria de São Paulo, nos últimos 20 anos o número de mortes de civis pelos policiais militares cresceu 46%. Outros dados mostram que a Rota foi responsável por 104 mortes de pessoas em 2019 – aumento de 98% na comparação com o ano anterior.

Militarização

Para o tenente-coronel aposentado, o pleito sobre a desmilitarização das polícias é importante. De acordo com ele, o Decreto de Lei 667, em 1969, foi o estopim para a transformação das bases policiais, que viraram pequenos exércitos.

Os relatos que ele colheu para o estudo mostram que, após a formação, o policial não concebe o criminoso como uma pessoa, mas como um “ser desprezível que precisa ser eliminado”.

“São traços de eugenia. Há um relato de um policial que diz que se tornou uma pessoa pior e insensível depois da escola de formação. Teve outra pessoa que relatou tortura física no rito de passagem”, acrescenta.