Trevas em vez de luz

Legalismo de ultraconservadores destoa da tradição cristã

Caso de criança estuprada e grávida escancara face feia de fundamentalistas religiosos. Aborto, tema central na agenda conservadora, já foi defendido por lideranças evangélicas

Carlos Latuff ©
Legalismo desumano e anticristão: religiosos radicais consideram interrupção de gravidez de menina de 10 anos crime hediondo, mas não o estupro de que foi vítima por anos e marcou para sempre sua vida

O cartunista e ativista Carlos Latuff publicou nesta terça (18) uma charge em que um homem de gravata, com uma bíblia numa mão e um cartaz contra o aborto em outra, grita palavras de ódio que incendeiam uma fogueira onde está uma criança. A crítica tinha endereço certo: os fundamentalistas religiosos, em especial, católicos e evangélicos, que cercaram o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), em Recife, no último domingo (16). O grupo estava ali para hostilizar uma menina de 10 anos, estuprada e grávida, sua família e os profissionais de saúde que a atenderam no procedimento para a interrupção da gestação.

O triste episódio escancarou um legalismo desumano – e por que não dizer anticristão – de católicos e evangélicos fundamentalistas, assim como parlamentares e influenciadores digitais extremistas. Este últimos aproveitaram a tragédia para vitaminar suas bases eleitorais e suas redes sociais.

Tentar impedir aborto legal foi crime e nova violação à criança vítima de estupro

Enquanto a família tentava driblar as dezenas de manifestantes aglomerados diante do Cisam para acessar o hospital em segurança, parlamentares como os deputados estaduais pernambucanos Joel da Harpa (PP) e Clarissa Tércio (PSC), que formam a bancada evangélica, junto com lideranças do movimento Pró Vida e o grupo católico Porta Fidei, gravavam vídeos com suas performances para as redes sociais.

A agitação apenas dos dois parlamentares diante do hospital, por exemplo, rendeu mais de 215 mil acessos aos seus vídeos. Rendeu também um pedido, por parte da bancada psolista, da instauração de procedimento administrativo contra os parlamentares.

Na lei desde 1940, aborto legal não saiu do papel para mulheres pobres

“Casos como esse, com grande visibilidade e comoção nacional, têm a faísca da viralização embutida, o que necessariamente se reflete em mais visibilidade. Isso se dá também pelo potencial polarizador do tema: é difícil alguém ser ‘neutro’ nesse caso, o que alimenta ainda mais publicações, compartilhamento e engajamento”, explica Debora Albu, coordenadora de programas de Democracia e Tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS). Segundo ela, o resultado é uma potencialização da agenda desses grupos “reforçado por um contexto político de pautas morais e religiosas específicas que se alinham a estas ações”.

Sara Winter

É um dilema difícil de se resolver. Por mais absurdo que pareça ser um grupo ofender uma criança vítima de estupro, chamando-a até mesmo de assassina, cercando um hospital e tentando impedir um procedimento médico resguardado pela legislação e que salvaria a sua vida, a ação acaba capitalizando figuras abjetas, como da extremista Sara Winter.

A ativista ultraconservadora foi a primeira a divulgar o nome da criança bem, como do hospital onde a pequena passaria pelo procedimento para a interrupção da gravidez, gerada pelo crime de que foi vítima. “Do ponto de vista do funcionamento de algoritmos de interesse das redes sociais, quanto mais determinado termo é mencionado ou um link compartilhado, mais a máquina entende aquele ser um assunto prioritário para os usuários da rede”, diz Debora.

A especialista observa que mesmo que se evite citar o nome de parlamentares ou extremistas digitais nas redes, isso não diminui o alcance do discurso de ódio. “Esses grupos têm seu funcionamento baseado em diversos tipos de plataformas –  inclusive que não são estruturadas por algoritmos de interesse – e mesmo de ações fora da internet. Minimizar esse alcance pode ser feito pelas plataformas por meio da redução da distribuição desse conteúdo ou mesmo sua remoção e ações de contra narrativa, por parte da própria sociedade civil – organizada ou não – a fim de contrapor tais discursos.”

Para ela, neste caso, o Estado tem o dever de cumprir a Constituição no intuito de proteger essa vítima das múltiplas violências que foram cometidas, inclusive a negação de um direito.

Ultraconservadores

A questão ganhou ainda mais tensão com os pronunciamentos do arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, que afirmou ser “grave” o estupro e “gravíssimo” o aborto, e do presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, que em nota classificou a interrupção da gravidez fruto do estupro de “crime hediondo”.

Zeca: “Falas inaceitáveis”

Segundo a presidenta da ONG Católicas Pelo Direito de Decidir, a socióloga Maria José Rosado, a Zeca, as falas foram inaceitáveis, uma vez que não houve crime. “O feto não é uma criança, e até mesmo bispos sabem disso”, protesta, lembrando que “o procedimento salvou a vida de uma menina de 10 anos.”

Para Zeca, nenhuma declaração pode ser mais contundente quanto a de outro representante católico, Dom Mauro Morelli, bispo emérito de Duque de Caxias, no Rio. “Na mais antiga tradição católica ele mostra o que é fundamental, que é a compaixão”, disse, referindo-se à postagem em que o religioso escreve: “Quem pecou? Cada um examine a si mesmo. Certamente, à luz da Teologia Moral, aquela menina estuprada física, psicológica e espiritualmente, jamais pecou. E, dada a gravidade de sua tortura, penso que até perdeu a capacidade de pecar… bem como de ser mãe.”

Para o pastor Ariovaldo Ramos, coordenador nacional da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, os ultraconservadores causam ações, como as de domingo passado, porque possuem um ‘nicho muito radical’ que precisa ser alimentado a todo instante. “Os fundamentalistas precisam de um Deus duro, cruel. Um Deus que bata na mesa e coloque as coisas em ordem. Um Deus que age bravamente pelo poder e o poder não pode ser contrariado”.

Ariovaldo Ramos: “Deus dos fundamentalistas é cruel”

O que, para o pastor, não é o Deus apresentado no livro sagrado aos cristãos. “O Deus da Bíblia chora por causa do amigo morto. O Deus das Escrituras inspirou o livro de Oséias”, diz, referindo-se a um dos livros que compõem o Antigo Testamento da Bíblia. “Oséias é um livro em que Deus reconhece a traição do seu povo, tendo o profeta como parábola viva. Ele oferece perdão contínuo e fidelidade, mesmo quando seu povo mostra-se infiel. É um Deus oposto ao apresentado pelos fundamentalistas, que é duro, cruel e implacável. É um Deus perdoador, misericordioso, que insiste em dar ao ser humano tantas chances, quantas forem necessárias, para que eles encontrem a Deus e seus caminhos”.

‘Menina voltou a sorrir’, diz médico que fez aborto de criança estuprada e grávida

A Frente de Evangélicos publicou, em sua página de Facebook, uma nota se solidarizando à criança, vítima do estupro, e condenando o oportunismo dos fundamentalistas religiosos (leia a nota aqui: https://www.facebook.com/frentedeevangelicos/posts/1606835659479117).

Conforme a música

Em 2017, por encomenda das Católicas pelo Direito de Decidir, o Ibope Inteligência realizou pesquisa que revelou que 65% dos católicos e 58% dos evangélicos acreditavam que a decisão de interromper uma gravidez indesejada era unicamente da mulher. A maioria também opinou que nenhuma mulher deveria ser presa ao recorrer ao aborto.

Jacqueline Teixeira: igreja excomungou criança e médicos em caso de 2009

Entre as denominações evangélicas, a Igreja Universal do Reino de Deus sempre teve uma visão muito distinta em relação ao aborto induzido e sobre as políticas de descriminalização do aborto no Brasil. É o que explica a antropóloga Jacqueline Teixeira, doutora em antropologia social e pesquisadora do Núcleo de Marcadores Sociais da Diferença (Numas USP). “Já no final dos anos 90 o Edir Macedo já falava que o aborto, de alguma maneira, deveria ser liberado. Que, por uma série de questões, seria muito melhor que se permitisse que uma criança viesse ao mundo quando houvesse condições financeiras ou psicológicas”, explica.

A pesquisadora lembrou de um caso de 2009, quando uma menina de nove anos foi estuprada pelo padrasto, engravidou de gêmeos e recorreu ao aborto no mesmo Cisam. Na ocasião, o então arcebispo de Recife e Olinda, José Cardoso Sobrinho, considerou o aborto mais grave que o estupro e excomungou a criança e os médicos. A reação de Macedo foi imediata. “Ele dizia que era favorável ao aborto e citava um versículo bíblico, do livro de Eclesiastes (6:3), que dizia que de nada valeria um homem viver muitos anos, ter 100 filhos e no final de sua vida não ter onde recostar sua cabeça. Ele estabelecia uma relação entre o aborto, planejamento familiar e teologia da prosperidade.”

Segundo ela, a defesa explícita da descriminalização de qualquer tipo de interrupção de gravidez e na defesa dos direitos reprodutivos foi desaparecendo nas falas do bispo evangélico Edir Macedo e de outras importantes lideranças da Universal, conforme o cenário político foi mudando no país. “Na minha pesquisa, a gente vai percebendo um processo de desvinculação política. Não que ele defenda uma posição contrária, mas há um silenciamento em suas falas, pelo menos a partir de 2016.”

Edição: Fábio M. Michel


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