direção perigosa

Pandemia reduz trânsito, mas mortes de motoristas e motociclistas em São Paulo aumentam

Apesar de São Paulo registrar pouco movimento nas ruas, mortes no trânsito tiveram uma redução quase insignificante no primeiro semestre deste ano

Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress
Embora haja queda no total, dados mostram que valor é pequeno e, na verdade, cresceu entre motoristas e motociclistas

São Paulo – Mesmo com redução do volume de veículos nas ruas de São Paulo devido à quarentena, o número de mortes de motoristas e motociclistas no trânsito continuou aumentando no primeiro semestre. Na comparação com igual período de 2019, as mortes em carros e motos tiveram alta de 15% e 10%, respectivamente. Os dados são do Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito do Estado de São Paulo (Infosiga).

O total de mortes no trânsito da capital paulista neste ano teve redução de 9% na comparação entre os dois períodos – foram 421 óbitos no primeiro semestre do ano passado e 385 em 2020. As ocorrências que contribuíram para a baixa se deram entre ciclistas e pedestres: quedas de 27% e 26%, respectivamente. Em todo o estado, houve redução de 17% nos acidentes e 11% nas mortes, sendo a maior parte dessa queda registrada nas rodovias.

A consultora de mobilidade urbana Aline Cavalcante considera que, embora toda morte evitada seja motivo de comemoração, os dados mostram que a cultura da velocidade, promovida pelo governo do ex-prefeito e atual governador João Doria e seu sucessor, Bruno Covas, ambos do PSDB, e a falta de fiscalização prevalecem na cidade. Ela destaca que os ativistas da mobilidade fizeram campanhas e procuraram chamar atenção da prefeitura para a situação do trânsito em meio à pandemia. “Não nos foi dado bola, ninguém retornou as nossas reivindicações e os resultados estão aí”, afirmou.

“É uma queda (do total de acidentes) pouco expressiva, se a gente considerar que o primeiro semestre de 2020 foi de quarentena. A gente está falando exatamente de 36 mortos a menos. Enquanto a gente teve o aumento de mortes de motociclistas e motoristas no trânsito de São Paulo. E isso está diretamente associado, sem dúvida nenhuma, ao aumento das velocidades e à imprudência, impulsionada por esse momento de pandemia, em que a gente teve muito menos fiscalização e multas”, avaliou Aline.

Sem freio

Segundo ela, as ruas mais vazias na capital não trouxeram tranquilidade e, sim, mais imprudência e impunidade. “Nesse semestre a gente recebeu inúmeros relatos, fotos e vídeos de ‘rachas’ nas avenidas de São Paulo, de imprudência, de motociclista furando farol, fazendo conversão proibida e muita alta velocidade. Os ciclistas entregadores, que permaneceram circulando na cidade por ser uma atividade essencial, relataram aumento da violência no trânsito nesse momento da pandemia.”

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Além disso, a queda de mortes no trânsito registrada não se deveu a políticas públicas de prevenção de acidentes e redução de tráfego, mas a uma menor circulação de pessoas. A capital paulista chegou a ficar 15 dias consecutivos registrando congestionamento zero, segundo monitoramento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O que indica que as mortes devem voltar a subir quando o tráfego se normalizar.

A situação é oposta à dos anos de 2015 e 2016, quando o governo de Fernando Haddad (PT) implementou ações de redução de velocidade, ampliação da fiscalização e de radares nas vias. O resultado, mesmo com o tráfego normal, foi redução de 20,6% nas mortes em 2015, e de 15,1% em 2016.

Para Aline, isso mostra o erro dos governos Doria e Covas de reduzir a fiscalização e as medidas de acalmamento de tráfego e fazer apenas campanhas educativas de trânsito. “Só a campanha educativa não faz nenhum efeito. Quando foi implementa a lei seca, houve uma campanha educativa enorme e vinculada com uma ação do governo de multar e fiscalizar motoristas alcoolizados. Sem um aumento na fiscalização e o esforço do governo de mapear esses problemas da velocidade e das imprudências no trânsito, as campanhas educativas são inócuas, não servem para absolutamente nada. É só gasto de dinheiro público mesmo”, disse.

Falta decisão

Aline lembrou ainda que a cidade de São Paulo é de uma política pública robusta, reconhecida e implementada internacionalmente, que é a Visão Zero, que considera que nenhuma morte no trânsito é aceitável. E poderia ter índices de redução das mortes e acidentes no trânsito muito melhores do que os apresentados. “Existe um plano de segurança viária com bases extremamente coerentes de ação e a prefeitura sabe, os técnicos engenheiros sabem, os tomadores de decisão sabem o que tem que ser feito”, destacou.

Entre as principais medidas do Visão Zero, está a redução de velocidades. “Todas as cidades do mundo que reduziram sua violência no trânsito, seus índices de mortes, começaram reduzindo as velocidades”, apontou a consultora. Além disso, o programa inclui medidas de ampliação de calçadas, aumento da fiscalização, aumento de radares, redesenho de vias, divisão do viário – como no caso das ciclofaixas –, entre outras ações.