Novos sem-teto

Comunidade na zona norte de São Paulo pode ser despejada durante a pandemia

Governo Covas pede reintegração de posse na favela do Jardim Julieta, formada há pouco mais de dois meses pelos “desabrigados da quarentena”. Cerca de 650 famílias vivem no local

TVT/Reprodução
Moradores afirmam que não têm para onde ir e pedem sensibilidade social ao poder público e à justiça

São Paulo – A crise sanitária e econômica provocada pelo novo coronavírus tem obrigado pessoas que perderam o emprego ou tiveram a renda reduzida a procurar abrigo em favelas e ocupações. Mas, nem bem estabelecidas, essas comunidades já enfrentam o risco da reintegração de posse. É o caso da favela do Jardim Julieta, no Parque Novo Mundo, zona norte de São Paulo. Formada há pouco mais de dois meses, a comunidade abriga as vítimas do desemprego na pandemia. Sem ter como custear um aluguel, elas se viram obrigadas a procurar um teto no terreno.

Ao menos 650 famílias vivem no local, segundo os próprios moradores, que contam o desembarque diário dos novos sem-teto na favela. Mas quem chega já se vê na iminência de um novo despejo. A prefeitura pediu a reintegração. E a Justiça deu até o início de agosto para que as pessoas saiam voluntariamente. Caso contrário, será executada a ordem de despejo. 

Na comunidade, os moradores temem ficar novamente sem lar. Luciene Guedes dos Santos e seu marido chegaram à favela do Jardim Julieta depois dos dois perderem o emprego. Seu companheiro é ajudante de pedreiro, mas fazia “bicos” como carpinteiro. O contrato de trabalho, no entanto, venceu e desde então ele não conseguiu outra atividade. Já Luciene trabalhava em um salão de cabeleireiro que foi fechado e ela acabou sendo demitida. “Estamos nos sentindo indefesos, porque para onde a vai? Muitos não têm para onde ir”, descreve ao repórter Jô Myiagui, do Seu Jornal, na TVT.

Defesa pede sensibilidade social

Os vizinhos de Luciene dividem histórias parecidas. Mas há também os que ainda trabalham, porém, tiveram a renda reduzida e com o salário não conseguem arcar com o aluguel, entre eles, motoristas de aplicativo e entregadores. A advogada que acompanha o caso, Fabiana Alves Rodrigues, pede à Justiça mais tempo e assistência para as famílias, mas até o momento os pedidos não foram apreciados. “O oficial já foi na área no dia 9 (de julho), avisando as famílias que elas têm um prazo de ocupação voluntária de 30 dias”, explica. 

A gestão Bruno Covas (PSDB) alega que o terreno será utilizado para a construção de conjuntos habitacionais, que serão destinado às pessoas da comunidade do Violão, próxima ao local. O acordo de prioridade, segundo a prefeitura, já estava selado com as famílias, que também vivem em situação de vulnerabilidade.

Os moradores, contudo, afirmam que a área estava abandonada, com lixo, mato, escorpiões, perigo de violência e servindo de estacionamento para caminhões. E pedem sensibilidade social ao poder público e à Justiça. “O que a gente pede no processo é esse tempo para eventual desocupação e que elas sejam colocadas em algum tipo de atendimento, pelo menos provisório, porque tem muita criança, idosos, pessoas com deficiência”, ressalta a advogada. 

Assista à reportagem do Seu Jornal