sem respostas

Assassinato de catador completa três anos com impunidade de policiais

PMs foram denunciados pelo Ministério Público,em 2019, mas ainda não foram julgados

/Facebook/ Maria Celia Giudicissi
'Ricardo tinha uma relação com os moradores e, pela primeira, muitas pessoas assistiram uma execução ao vivo', afirma Mundano

São Paulo – O catador Ricardo Silva Nascimento, conhecido como Negão, foi assassinado, em 2017, com três tiros à queima roupa disparados por policiais militares. O crime completou três anos no último domingo (12), e nenhum dos dois PMs foram julgados.

O ex-ouvidor das polícias de São Paulo Fermino Fecchio afirma que a impunidade incentiva novas ações policiais. “Esse caso ainda tem peculiaridades, pois foi um assassinato com testemunhas, numa rua importante de um bairro nobre. É uma cultura que faz parte da Polícia Militar, desde os anos 60. É uma herança autoritária e militar”, criticou à jornalista Marilu Cabañas, no Jornal Brasil Atual.

Em 2019, o Ministério Público denunciou os dois policiais militares envolvidos no assassinato do catador de material reciclável. O promotor Hidejalma Muccio afirmou que os agentes estavam em superioridade numérica e poderiam ter optado por usar bastões ou gás de pimenta. Entretanto, o caso ainda não foi julgado.

Mundano, grafiteiro, ativista e integrante do movimento Pimp my Carroça, afirma que o caso teve uma repercussão maior por ter ocorrido em Pinheiros, bairro nobre da capital paulista. “Foi uma execução policial, que nunca foi novidade nas periferias, mas, dessa vez, foi feito numa região elitizada. O Ricardo tinha uma relação com os moradores e, pela primeira, muitas pessoas assistiram uma execução ao vivo”, relatou.

Homenagens ao catador

O catador estava parado com um pedaço de pau, em uma das mãos na esquina das ruas Mourato Coelho e Navarro de Andrade, por volta das 18h. Um policial militar, ao pedir para largar o objeto, atirou à queima roupa em seu peito. Testemunhas afirmaram, na época, que Ricardo não representava ameaça à vida do policial.

Mundano e os moradores do bairro tentaram homenagear Ricardo, mas foram proibidos pela prefeitura. “Tentamos simbolizar sua morte. Peguei a carroça dele e pintei de branco para que as pessoas colocassem flores, mas ela foi removida do local. Isso é uma injustiça, pois não deixaram eternizar o local do Ricardo. Depois, fizemos uma miniatura e colocamos no poste, onde está até hoje”, conta.

Entretanto, a ideia é ampliar a homenagem e poder criar um monumento público para Ricardo e também para todos os catadores de São Paulo. “Já conseguimos a aprovação do Departamento Histórico. Queremos representar esses heróis invisíveis que prestam serviço para a cidade. O Ricardo, por exemplo, fazia coleta seletiva, limpeza das ruas e logística reversa das empresas. Os catadores são importantes para a cidade”, finaliza Mudano.


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