Escalada do autoritarismo

Repressão policial em São Paulo deixa claro que PM tem lado. E não é o dos democratas

Atuação das forças policiais nos atos anti-fascistas deste domingo comprova adesão da corporação ao fascismo representado pelo governo Bolsonaro, nos moldes do que foi o golpe de 1964. “Isso precisa ser colocado com certa urgência na agenda do debate político”, diz Vitor Marchetti

Globonews/Reprodução
PM aponta arma para jovem negro, desarmado, durante protesto contra o racismo no Rio de Janeiro

São Paulo – Os protestos convocados contra o governo Bolsonaro e pela democracia, por coletivos antifascistas e torcidas organizadas neste domingo (31), inauguram nova etapa dentro do conturbado processo político brasileiro. É o que avalia o cientista político e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Vitor Marchetti, em entrevista ao jornalista Glauco Faria, na edição da manhã desta segunda-feira (1º) do Jornal Brasil Atual

Depois de seguidos finais de semana marcados por manifestações antidemocráticas por apoiadores de Bolsonaro, pedindo inclusive o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF), os atos deste domingo mostraram “que a população brasileira não vai aceitar passivamente os movimentos autoritários desse governo”, avalia Marchetti. 

“Não precisamos ter o menor pudor em dizer que esses movimentos, claramente fascistas, vão encontrar uma resistência bastante significativa. O grande símbolo da eleição de Bolsonaro é a quebra do pacto democrático de 1988. Agora, os sinais que nós temos é que a sociedade brasileira não vai aceitar a ruptura desse pacto. Porque ela entende que, de fato, a democracia é a melhor condição possível para se ter desenvolvimento social e econômico”, acrescenta o analista. 

O bolsonarismo e o novo golpe 

Apesar de os atos em São Paulo e no Rio de Janeiro terem sido convocados para defender a liberdade e dar um verdadeiro “Basta!” ao fascismo representado pelo governo Bolsonaro, ambos roram marcados pela repressão policial, que jogou bombas de gás, spray de pimenta e balas de borracha contra os manifestantes. Para Marchetti, a contradição não é à toa e deixa claro que “a polícia tem lado nessa história. E não é o lado dos campos democráticos e anti-fascistas”. 

De acordo com o cientista político, parte do entulho autoritário e fascista da ditadura civil-militar (1964-1985) permanece presente nos quarteis policiais que hoje, em parte, se tornaram adeptas do bolsonarismo e se incluem como grande ameaça à democracia atual

“A gente tem olhado muito para o papel dos militares, das Forças Armadas no governo Bolsonaro, do Exército. Há sim, o risco de (volta de) uma ditadura militar. A possibilidade de um regime militar aos moldes do que foi 1964 me parece bastante distante, por uma série de questões da conjuntura nacional e internacional. Mas nós temos um problema gravíssimo, que está na base do sistema militar. E o problema da base do sistema militar inclui, fundamentalmente, as forças de segurança pública nos estados”, adverte o professor. 

“O que a periferia já sabe há décadas – de como agem as polícias, o desrespeito aos direitos individuais –, a gente está tendo agora exemplos muito claros e em escaladas bastante preocupantes. E isso precisa ser colocado com certa urgência na agenda do debate político. Nesse processo de redemocratização, nós não podemos tolerar mais que a polícia aja com esse espírito autoritário e antidemocrático como nós temos no Brasil”. 

Naturalização da morte

Na entrevista à Rádio Brasil Atual,Vitor Marchetti lembra que, além da PM autoritária, o país passa por um cenário em que a violência parece naturalizada. O tema #VidasNegrasImportam, também fez parte dos atos deste domingo, gritado em nome das várias crianças negras e moradoras de favelas e periferias assassinadas em operações policiais do Estado. 

Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde protestos por justiça para George Floyd – homem negro morto friamente por um policial branco – ganham apoio inclusive de outros policiais, não há no Brasil o mínimo reconhecimento do emprego excessivo e desproporcional da força e violência por parte da corporação. “As forças policiais apenas reproduzem as lógicas do racismo estrutural, reforçando essas barreiras do apartheid social”, lamenta o cientista político. 

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