Memória brasileira

Remoção de monumentos: é preciso desconstruir mitos e uma visão distorcida da história

O arquiteto e urbanista Nabil Bonduki destaca que a contestação a homenagens feitas a escravocratas e genocidas é parte importante da luta antirracista e anticolonial. Mas propõe uma contextualização histórica. “As pessoas precisam participar dessa ressignificação”, defende

Divulgação
Caçador de indígena para escravização tem estátua de 10 metros de altura em São Paulo

São Paulo – A cena da estátua do traficante de escravos Edwad Colston sendo derrubada e jogada em rio que corta a cidade de Bristol, na Inglaterra, por manifestantes do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), se tornou uma das imagens mais icônicas dos protestos antirracistas que têm tomado o mundo. Não demorou para que outros monumentos em homenagem a genocidas, racistas e colaboradores dos horrores da escravidão caíssem de seus pedestais em diversas partes do mundo. 

Na Bélgica, por exemplo, a prefeitura de Antuérpia retirou a estátua do rei Leopoldo II após a intervenção dos manifestantes. O ex-monarca é especialmente lembrado por diversas homenagens pelo país por seu passado de colonização do Congo Belga (hoje República Democrática do Congo), onde exterminou milhões de congoleses. O mesmo fim também teve as estátuas do colonizador Cristovão Colombo e do militar estadunidense que defendia a manutenção da escravidão Jefferson Davis, ambas derrubadas em Richmond, na Virginia, nos Estados Unidos. 

Esta é uma das questões que também vem sendo discutida no âmbito dos protestos realizado no Brasil, um país onde há vários monumentos homenageando escravocratas, personalidades que colaboraram com o genocídio indígena e até torturadores e colaboracionistas da ditadura civil-militar. 

O Brasil escravocrata e genocida

Uma reportagem do jornal El País, em 2017, já advertia que, a despeito do debate internacional sobre a permanência ou não desses monumentos, o Brasil de uma forma geral estava distante da discussão. Dessa vez, contudo, não há mais tempo para adiá-la, como destaca o arquiteto, urbanista e professor universitário Nabil Bonduki.

“Na verdade já passou da hora de fazer essa discussão”, adverte. Em entrevista ao jornalista Glauco Faria, do Jornal Brasil Atual, o arquiteto e urbanista lembra de diversas homenagens, a começar pela estátua do bandeirante Borba Gato, em Santo Amaro, zona sul da cidade de São Paulo, que agora vive cercada por grades e por integrantes da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Mas defende um processo de contextualização histórica, em que as pessoas possam entender e participar da remoção desses monumentos.

“Proponho que a gente discuta essa questão caso a caso, para que cada um possa ter uma atitude diferente. No caso do Borba Gato, por exemplo, defendo que ele seja retirado e que a gente faça um outro monumento ali para o povo Guarani, que foi massacrado e que hoje ainda habita a cidade de São Paulo, muito minoritariamente, presente inclusive ali perto de Santo Amaro, em Parelheiros”, explica. 

Desconstruir falsos mitos

Nabil ressalta que “derrubar monumentos é desconstruir mitos e uma visão distorcida da história” que em São Paulo, por exemplo, fez dos bandeirantes heróis e símbolo de uma identidade para o estado. Tanto que Manuel de Borba Gato, que no século 18, foi responsável por caçar indígenas e escravizá-los utilizando todo tipo de terror, está esculpido em uma estátua de 10 metros de altura. Assim como a sede do governo estadual leva o nome de Palácio dos Bandeirantes e rodovias são nomeadas remetendo a bandeirantes como Fernão Dias, Raposo Tavares, entre outras. 

“É muito triste por exemplo, os indígenas Guarani, que moram ali no Jaraguá, terem de utilizar a rodovia Anhanguera, também um bandeirante genocida, para chegar na sua aldeia”, destaca. “Não acho que a gente tem que simplesmente trocar o nome, porque assim ninguém sabe porque trocou o nome. Vamos fazer da troca parte da luta antirracista e anticolonial do Brasil.”

As possíveis alterações também seriam uma oportunidade para resgatar a elaboração de ações inclusivas. “Vamos aproveitar esse momento para fazer e discutir muito como nós podemos de alguma maneira criar ações afirmativas e reafirmar a importância dos povos originários do Brasil. E o quanto eles foram massacrados num momento em que o país passa por um governo que continua a fazer a mesma coisa”, alerta Nabil. 

“O próprio Bolsonaro e o anti-ministro do Meio Ambiente (Ricardo) Salles estão querendo dar continuidade ao que os bandeirantes fizeram no século 16, 17 e 18. É uma discussão muito atual e presente.”

Participação e reflexão sobre os monumentos

Uma das principais polêmicas se refere ao Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, zona sul da capital paulista. Alvo de diversas intervenções com tintas em vermelho para lembrar o sangue derramado dos indígenas e escravos pelos bandeirantes, o governo considera a prática como vandalismo. A questão também divide mesmo apoiadores do movimento pela reparação histórica, pela remoção ou não. 

O arquiteto e urbanista defende, por exemplo, que a obra seja mantida, mas ressignificada para uma reflexão educacional e cultural sobre todo esse processo histórico de opressão. 

“Ali o que deveria ser feito é problematizar aquela estátua e imagem, que mostra os índios e negros escravizados, fazendo um trabalho braçal, empurrando um barco, enquanto que os bandeirantes estão em cima de cavalos, de maneira soberba e com ar de dominadores. Essa imagem seria um excelente lugar para se fazer toda uma reflexão e um trabalho cultural para se entender o que estava querendo ser mostrado ali, romper essa perspectiva de um “monumento às bandeiras” para fazer ali uma reflexão”, propõe Nabil Bonduki.