Boicote virtual

Perfil do Twitter faz empresas retirarem anúncios em sites de ‘fake news’

Sleeping Giants já provocou a retratação de diversas empresas e a retirada de publicidade de sites extremistas

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Sleeping Giants já provocou a retratação de diversas empresas e a retirada de publicidade de sites extremistas

São Paulo – O movimento Sleeping Giants chegou Brasil está derrubando anúncios de empresas em sites que disseminam notícias falsas ou distorcidas. O perfil do Twitter conta com quase 200 mil seguidores e aponta para anunciantes a publicidade realizada em veículos extremistas.

Ao se definir como “uma luta coletiva de cidadãos contra o financiamento do discurso de ódio e fake news”, o perfil marca as empresas em postagens, alertando que seus anúncios contratados via Google AdSense estão aparecendo automaticamente em páginas relacionadas à desinformação.

A iniciativa tem como objetivo cortar o financiamento desses veículos, “desmonetizando” os acessos. A mobilização resultou em protestos na ala bolsonarista, como dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Eduardo (PSL-SP) e o vereador carioca Carlos (Republicanos), além da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) e do chefe da Comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten.

O pesquisador sobre redes sociais e comunicação política Fábio Malini afirma que a ação atinge em cheio o coração da unidade de negócio dos propagandistas da extrema-direita. Para ele, é necessário regular o modelo de negócios da Google.

“O ativismo digital, pensando em atacar as franjas do sistema de financiamento de micro propaganda, acabou atingindo o núcleo duro do sistema: o Google. Ou seja, passou da hora da gente regular, através de dispositivos legais, Google e cia limitada”, disse, em seu perfil no Twitter.

Site denunciado

O primeiro alvo da Sleeping Giants foi o site O Jornal da Cidade Online, que defende o governo Bolsonaro por meio da divulgação de notícias falsas. O site já foi condenado pela Justiça do Rio de Janeiro, em maio deste ano, a indenizar o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, por danos morais.

O portal possui acusações judiciais de publicar conteúdos com assinatura de autores que utilizavam identidades falsas, além de imagens de perfil retiradas de bancos de imagens e posteriormente adulteradas. O site está sendo investigado também pela CPI das Fake News.

Com uma linguagem direta e simples, o perfil Sleeping Giants alertou empresas como Samsung, Tim, Banco do Brasil, Dell, Fast Shop, Caixa, Philips, Claro, Mercado Livre, Telecine, entre outras. Algumas já se posicionaram e informaram a retirada de seus anúncios do veículo, como a Dell, Telecine, PicPay e Submarino.

“Obrigado por nos informar. Já pausamos a campanha, que funciona de maneira automática, e vamos analisar todos os portais que estão veiculando o anúncio. Somos totalmente contra a disseminação de fake news e precisamos, juntos, combatê-la”, publicou a Telecine.

Banco do Brasil

O Banco do Brasil também se posicionou contra a veiculação dos anúncios no site de fake news. Na quarta-feira (20), a instituição respondeu à publicação no Twitter dizendo que “os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado”.

Entretanto, horas depois, o vereador Carlos Bolsonaro saiu em defesa do Jornal da Cidade Online, afirmando que o Banco do Brasil “pisoteia em mídia alternativa que traz verdades omitidas”.

Depois de suspender seus anúncios, o BB informou nesta sexta-feira (22) que voltou atrás da decisão e desbloqueou a página, permitindo novamente o financiamento de notícias falsas.

O que é o Sleeping Giants?

O movimento Sleeping Giants é uma iniciativa criada pelo publicitário Matt Rivitz, em 2016, nos Estados Unidos. O objetivo é o mesmo do perfil brasileiro: derrubar o financiamento de sites que replicam notícias falsas e conteúdos preconceituosos.

Ele foi responsável pelo site de extrema direita Breitbart News perder mais de € 8 milhões. O ex-diretor do site Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e próximo da família Bolsonaro, é um dos críticos do perfil.

Ao El País, Matt explica que o perfil se tornou uma ferramenta muito poderosa para lutar contra a prática que desvirtua o mercado publicitário online. “As agências de mídia contratam espaços sem nenhum rigor, independentemente do tipo de conteúdo dos sites, e é um verdadeiro desastre. Essas empresas deveriam apoiar conteúdo de qualidade e não se reger apenar pelo número de visualizações”, afirmou.