indefinição

Para analistas, Covas erra de novo ao suspender novo rodízio em São Paulo

Conselheiros de Transporte consideram que o prefeito poderia ter aproveitado o modelo para avançar em estratégias de restrição de viagens, contribuindo para o distanciamento social

CC 2.0 - Marcos Paulo Dias
Rodízio de veículos em São Paulo ficou mais amplo, mas foi ineficiente. No entanto, acabar com a medida também não resolve o problema

São Paulo – O novo recuo do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), acabando com o rodízio de placas pares e ímpares e retomando o rodízio regular (com duas placas por dia), a partir desta segunda-feira (18), é visto como mais um erro do governo paulistano na tentativa de aumentar a adesão da população ao isolamento social para reduzir a disseminação do coronavírus. Membros do Conselho Municipal de Transportes e Trânsito (CMTT) consideram que a prefeitura poderia aproveitar a medida que estava em vigor para restringir de vez as viagens não essenciais e garantir que quem precisa realmente se deslocar o faça com segurança.

O governo Covas desistiu da medida por que não houve mudança na adesão ao isolamento social. Embora o novo rodízio tenha conseguido reduzir a circulação de carros em 40% – cerca de 1,5 milhão de veículos a menos –, houve aumento de aproximadamente 100 mil usuários no transporte coletivo, que segue com a oferta reduzida. O isolamento social teve aumento de apenas dois pontos percentuais, de 47% para 49% da população.

“Voltar atrás no rodízio, sem tentar de alguma outra maneira cercar as viagens não essenciais, acaba sendo mais um erro. A gente coloca aqui que se a ideia é desestimular o uso do carro, teriam outras maneiras de fazer isso. Por exemplo, diminuindo o espaço do carro nas avenidas. Ao invés de fazer aquela tranca que eles fizeram, que para operar, sinalizar, demanda muita gente. Expandir calçadas em avenidas ou dobrar a faixa de ônibus em alguns lugares. São maneiras que você acabaria desestimulando”, comentou a conselheira do CMTT e diretora da Associação Cidadeapé Ana Carolina Nunes.

Para ela, o foco deveria ser ampliar as opções e o espaço para que as pessoas conseguissem se deslocar de transporte público, a pé, de bicicleta. E restringir definitivamente as viagens não essenciais, ampliando a oferta de transporte coletivo, para que quem precisa, possa utilizar em segurança. No entanto, a prefeitura não tem dialogado com o CMTT, que já havia apontado que o rodízio de placas pares e ímpares, por si só, não seria eficiente.

Lockdown

“O que fica evidente é que a prefeitura está tentando encontrar meios alternativos para suprimir as viagens não essenciais sem atacar diretamente, vamos dizer, a liberdade individual e a das empresas. Seja reduzindo a frota, seja com rodízio. A gente entende que seriam medidas mais eficientes para aumentar o isolamento social, o fechamento de outros tipos de atividades e comércio que não deveriam estar funcionando agora por não serem essenciais (o chamado lockdown)”, disse Ana.

Também conselheiro do CMTT, o especialista em mobilidade urbana do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) Rafael Calabria avalia que a prefeitura também erra em manter a redução da oferta do transporte coletivo. “Independente do rodízio, a SPTrans tem falhado em ajustar a oferta de transporte. Por que a SPTrans não está usando com qualidade os dados que ela tem de rastreio das pessoas? Teve 100 mil passageiros a mais, mas se tivesse cuidado no planejamento, não ia ser problema”, avaliou.

Calabria também considera que a decisão de simplesmente acabar com o novo rodízio é mais um erro do governo Covas. “Quando joga a divisão em placa você confunde, tira o foco. Quem tem placa assim, vai achar que pode se deslocar. Tem que focar na essencialidade da viagem. Mas poderia aproveitar esse caminho para ir para esse lado de focar nas viagens essenciais. Dava para ter corrigido a proposta e ele recua, por pressão política. Esse rodízio é o da cidade normal e a cidade está longe de estar normal. Então é um recuo errado”, afirmou.