Imprensa e vírus

Análise: Rede Globo ‘não sabe fazer jornalismo sem virar ator político’

Para linguista Letícia Sallorenzo, cobertura da pandemia do coronavírus pela Globo constrói narrativa sem esquerda nem movimentos. Discurso único é do PSDB

Rede Globo/Reprodução
Globo cria sob a opinião pública "um discurso único", alçando a voz dos tucanos "como a única narrativa ponderada e possível de ser ouvida" nesse momento, analisa linguista

São Paulo – Por trás da cobertura informativa com relação à pandemia de coronavírus e da crise inaugurada pelo governo Bolsonaro, a Rede Globo guarda interesses políticos para construir uma única realidade, em que estão legitimados apenas os discursos do PSDB.

É assim que a jornalista e linguista Letícia Sallorenzo analisa a recente mudança de tom da emissora, que até meses atrás apresentava um país em plena recuperação econômica, mas que desde a pandemia vem se opondo ao modo de condução da crise pelo governo. 

Em entrevista à apresentadora Talita Galli, do programa Bom para Todos, da TVT, a linguista destaca que a Globo “não saber mais fazer jornalismo sem virar um ator político também”.

“Ela constrói uma realidade na qual fazem parte o presidente do Senado e da Câmara, mas eles não falam em partido político. Todo e qualquer partido de esquerda desapareceu das edições da Globo, e não só. Nesse momento crucial, em que estamos com um problema seríssimo com trabalhadores impossibilitados de trabalhar e de receber dinheiro, não tem um sindicato e uma central sindical que apareça na cobertura”, observa Letícia. 

“O único ex-presidente a quem a Globo dá fala é o Fernando Henrique Cardoso. Mas e a Dilma (Rousseff)? Por que não? Qual é o problema?. Essa construção e autorização de atores políticos que a Globo está dando é uma coisa bem assustadora”, alerta. 

Na análise da linguista, enquanto alguns atores políticos perdem espaço, quem ganha o poder de voz na emissora são “basicamente os tucanos”, aponta. De acordo com Letícia, na prática, a Globo cria sob a opinião pública “um discurso único”, alçando a voz dos tucanos “como a única narrativa ponderada e possível de ser ouvida” nesse momento de crise. “Qualquer coisa além disso é polarização, radicalização”, avalia. 

Empreendedor, trabalhador 

A mudança de tom na cobertura global também vem acompanhada de um novo discurso em que não há mais espaço para eufemismos como “empreendedor”, em vez de “trabalhadores precários” – os mais vulneráveis diante desse crise ocasionada pela pandemia. 

O novo lugar ainda garante espaço para a importância da presença do Estado nesse momento, em contraposição ao Brasil que era retratado pela emissora em franca aspiração econômica com o modelo ultraliberal do ministro Paulo Guedes. 

A postura evidencia o interesse futuro da emissora: “tucanos no poder e toda a verba publicitária para a Globo”, sintetiza a linguista. Não à toa que, para ela, o governador paulista, João Doria (PSDB), ganha mais destaque do o chefe do Executivo estadual do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), apesar de ambos se oporem ao presidente Bolsonaro na adoção de medidas contra a pandemia. Governos do Nordeste não existem.

“A Globo constrói uma realidade em que ela está capitaneando pessoas sérias e compenetradas, que pensam o país e que levam o país de maneira séria e que levam em consideração os avisos da OMS (Organização Mundial da Saúde). O problema é quem são essas pessoas e quem não são essas pessoas”, adverte a linguista. 

Assista à entrevista da TVT na íntegra 


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