Sem teto

Raquel Rolnik alerta: se nada mudar, São Paulo pode ter 50 mil moradores de rua em breve

Censo da prefeitura de São Paulo mostra que existem hoje 24.344 pessoas em situação de rua na capital paulista, mas número está subestimado, segundo organizações

Rovena Rosa/Agência Brasil
Morador situação de rua dorme na rua São Luís, região central

São Paulo – De acordo com a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Raquel Rolnik, os últimos números divulgados pelo Censo da População em Situação de Rua de São Paulo indicam que as pessoas nesta condição podem chegar a um contingente de 50 mil pessoas em breve, caso não sejam feitas mudanças e elaboradas políticas públicas para combater o problema.

“Quando nos referimos a rede de proteção capaz de acolher e apoiar os mais vulneráveis em momentos de crise, estamos falando da enorme falta que faz uma política pública, integrada e proativa nesta conjuntura”, diz, em seu blog. “As respostas que temos hoje: baseadas em ofertas de pacotes setoriais como são os abrigos ou a oferta de moradia em parcerias público-privadas que nada têm a ver com a demanda ou condição das pessoas; ou as políticas de saúde mental baseadas no internamento e reclusão já se mostraram ineficientes.”

O levantamento da prefeitura de São Paulo mostra que existem hoje 24.344 pessoas em situação de rua na capital paulista, um aumento de 60% no número de pessoas nessa situação, em quatro anos. Mas coordenadores de organizações que trabalham com a população de rua avaliam que o número está subestimado.

“A gente viu muitas irregularidades. Teve caso de, três horas antes do censo, acontecer ação de zeladoria da prefeitura, varrendo a população de rua para outros lugares para não ser recenseada. Fomos fazer o recenseamento na Cracolândia e horas antes teve ação da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Os dados não batem com as informações obtidas no Cadastro Único da própria prefeitura, que registra cerca de 30 mil pessoas em situação de rua”, aponta Anderson Lopes de Miranda, coordenador do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR).

Para Raquel Rolnik, apesar de não ser apontado como o principal fator na pesquisa para que as pessoas estejam na rua, a questão da habitação se relaciona aos outros fatores, já que muitas vezes alguém vai para rua por conta de um conflito familiar justamente por não ter outro lugar para morar. “O percentual daqueles que estão na rua e o caso envolve razões que tem a ver com a falta de moradia, ao se analisar os dados, parece ser bem maior do que aquilo que o censo indica, por volta de 13%”, pontua, em entrevista ao Jornal da USP. “Isso também está relacionado com as remoções e as perdas de moradia.”

“É um fenômeno mais amplo, estrutural”, destaca a professora. “E é absolutamente necessário elaborar uma política robusta para enfrentar essa questão.”

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