mapa de desigualdade

Criança da periferia de São Paulo tem 23 vezes mais risco de morrer antes de 1 ano

Índice de mortalidade infantil revela um abismo de desigualdade na maior cidade do país. 26 distritos paulistanos têm taxa maior que a nacional

Arquivo/EBC
Desigualdades no acesso à saúde, no saneamento básico e nas condições socioeconômicas impactam a vida das crianças da periferia

São Paulo – Na maior cidade do país, uma criança nascida em Marsilac, no extremo sul, tem 23 vezes mais chance de morrer antes de completar um ano de idade do que uma nascida em Perdizes, bairro rico da zona oeste. Em 26 distritos da capital paulista, onde vivem 3,4 milhões de pessoas, a taxa de mortalidade infantil é superior à nacional, atualmente em 12,4 óbitos para cada mil nascidos vivos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera um nível “aceitável” até 10 mortes para cada mil nascimentos. Os dados foram revelados pelo Mapa da Desigualdade da Primeira Infância, organizado pela Rede Nossa São Paulo e divulgado nesta quarta-feira (12).

A pior situação está na zona leste, onde 12 distritos apresentam taxas de mortalidade infantil superiores à nacional. Pari, São Lucas, Iguatemi, São Mateus, Jardim Helena, José Bonifácio, Parque do Carmo, Itaim Paulista, Ponte Rasa, Lajeado, Vila Jacuí e Cidade Tiradentes. Na zona sul, foram quatro: Pedreira, Capão Redondo, Socorro e Marsilac. Outros três estão na zona norte: Brasilândia, Vila Medeiros e Jaçanã, e dois na zona oeste: Rio Pequeno e Vila Sônia. Fecham a lista o distrito do Jaguará, na região nordeste; Vila Prudente e Sapopemba, na região sudeste, e Bom Retiro e República, no centro.

Considerando o índice preconizado pela OMS, 53 distritos estão acima da taxa de mortalidade infantil considerada aceitável. Do outro lado da tabela, distritos que apresentam taxas de mortalidade infantil comparáveis a de países ricos, embora estejam na mesma cidade. Perdizes, na zona oeste, com 1,1 morte a cada mil nascimentos, lidera o ranking. Na sequência, estão Itaim Bibi, Santo Amaro e Moema (zona sul); Lapa e Pinheiros (zona oeste); Bela Vista, Consolação e Santa Cecília (centro); e Tucuruvi (zona norte).

A pesquisa também revelou que os dados de mortalidade infantil coincidem geograficamente com os dados de gravidez na adolescência e de pré-natal insuficiente – quando o número de consultas de acompanhamento da gestação é inferior a sete. Os piores índices se concentram em bairros dos extremos leste e sul, além de parte da zona norte.

O Mapa da Desigualdade já havia mostrado que os paulistanos que vivem em Moema, região centro-sul da cidade, têm expectativa de chegar aos 80 anos de idade. Já os moradores de Cidade Tiradentes, no extremo leste, têm expectativa de 57 anos. Uma diferença de 23 anos na mesma cidade. Segundo o Mapa, os moradores da região mais rica da cidade vivem mais, com expectativa que varia entre 69 e 81 anos. Já os moradores dos extremos leste, norte e sul têm expectativa muito menor: entre 57 e 63 anos.

Para o coordenador da Rede Nossa São Paulo, Jorge Abrahão, o dado da mortalidade infantil confirma a desigualdade sistêmica existente na capital paulista, que atinge questões muito básicas como o atendimento pré-natal, o acompanhamento pediátrico, o saneamento básico, entre outros. “Olhar para a primeira infância é o tema mais importante pois é o que marca o futuro da cidade e do país. Essa situação confirma a existência de uma desigualdade muito grave na cidade, nas condições de vida, de atenção à saúde da população. E que aparece em questões dramáticas como a mortalidade infantil”, explicou.

O ex-ministro da Saúde e atual deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) avalia que o enfrentamento à mortalidade infantil depende de ações em várias áreas como acesso a moradia, segurança alimentar, proteção social do núcleo familiar. “O dado da mortalidade infantil deixa muito claro que a desigualdade na cidade de São Paulo não é uma abstração. Ela tem choro, tem lugar, tem cara e, infelizmente, muitas vezes tem morte. O indicador de mortalidade infantil é um indicador extremamente sensível na saúde pública, não só para apontar possíveis erros no acesso ao pré-natal, na assistência ao parto e o desenvolvimento da criança no primeiro ano, mas sobretudo da qualidade de vida das pessoas desses núcleos familiares”, disse.

No dado global, houve uma pequena melhora nos índices de mortalidade na capital paulista. A taxa caiu de  11,14, em 2017, para 11. No entanto, tinha chegado a 10,84, em 2015, na administração de Fernando Haddad (PT), na qual Padilha foi secretário da Saúde. “Durante a nossa gestão, nós reduzimos a mortalidade infantil nas áreas onde esses indicadores eram mais elevados. Exatamente o extremo da zona sul e o extremo da zona leste, porque o conjunto das ações foram voltadas para essa área: Mais Médicos, mudança no padrão da alimentação escolar. A prefeitura precisa reduzir a distância entre os muito ricos e a maioria da população”, afirmou.