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Viver em São Paulo: maioria dos paulistanos é excluída da vida política

Pesquisa Rede Nossa São Paulo/Ibope mostra ainda que moradores da capital paulista avaliam que igreja é a instituição que mais contribui para a qualidade de vida

Reprodução Facebook/ Sâmia Bomfim
Audiências públicas para debater projetos importantes para a cidade acabam concentradas na região central

São Paulo – A aposentada Neuza Pedroso tem 75 anos. Moradora do Grajaú, no extremo sul da capital paulista, nunca participou de qualquer atividade para incidir nas decisões políticas da cidade. “Nunca fiquei nem sabendo de alguma reunião da prefeitura para falar de problemas do bairro”, afirmou ela. A aposentada faz parte da maioria da população paulistana que nunca participou de qualquer atividade para discutir sobre projetos de lei, obras ou programas da prefeitura de São Paulo. Segundo pesquisa Viver em São Paulo, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope, 57% dos paulistanos nunca participou de qualquer atividade voltada à vida política da cidade.

A subprefeitura mais próxima da casa de Neuza fica a seis quilômetros de distância e são necessárias duas conduções de transporte coletivo para chegar lá. “Nem sei quando tem alguma coisa. Aqui por perto nunca vi qualquer atividade para falar nada da cidade”, relata Neuza. Como ela, os moradores das zonas norte e leste também encontram dificuldades para participar desse tipo de atividade. As populações da região central e da zona oeste são os que mais conseguem participar da vida política da cidade.

Para Jorge Abrahão, coordenador da Rede Nossa São Paulo, o problema é a falta de canais de participação mais inclusivos e de uma política permanente de escuta da população. “Isso é resultado da falta de percepção do mundo político de que a população tem muito a contribuir para a solução dos problemas da cidade. Não é à toa que praticamente não avançamos em questões importantes. Os canais de participação existem, embora tenham sido reduzidos no governo de João Doria (PSDB). Mas ainda não se dá a devida importância a esses espaços”, avaliou.

Dentre os problemas, estão a concentração das atividades desse tipo em espaços distantes da moradia das pessoas, como as subprefeituras ou áreas mais centrais da cidade. Audiências públicas para debater projetos, obras ou leis raramente são realizados em escolas, associações de moradores ou outros espaços de fácil acesso, sobretudo à população das periferias. No caso de ações da Câmara Municipal, que fica no centro da capital paulista, a ausência dos paulistanos é ainda maior: 91% nunca participaram de qualquer atividade no parlamento paulistano.

“O fortalecimento e a permanência dessa política é que vai melhorar a participação dos cidadãos. Quando o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) instituiu as audiências públicas nas subprefeituras para discutir o Programa de Metas, houve 10 mil contribuições. Mantida no governo Doria, a prática teve como resultado 23 mil contribuições ao Programa de Metas seguinte. Além disso, é urgente descentralizar a política de participação, ampliar a atuação política das subprefeituras, que hoje estão focadas na zeladoria, fortalecer os conselhos participativos”, defendeu Abrahão.

Igreja na política

Outro dado de destaque da pesquisa Viver em São Paulo é que os paulistanos entendem as igrejas como instituição que mais contribui para a melhora da qualidade de vida na cidade. Em seguida vêm a prefeitura e as organizações não-governamentais. Também se confirma a rejeição dos paulistanos aos partidos políticos e aos parlamentares eleitos, que são considerados os que menos contribuem para melhorar a qualidade de vida da população.

Para Abrahão, esse é um dado que precisa ser analisado com atenção. “Isso aparece por uma razão simples: porque é verdade. As igrejas ocuparam um espaço que o Estado deveria ter ocupado. E isso não é bom para a democracia. Estamos vendo como algumas igrejas estão se envolvendo na política. Mas evidencia uma realidade, que elas tiveram uma estratégia eficiente de inserção e ocupação dos espaços que o Estado não chega”, explicou.

Viver em São Paulo

A pesquisa registrou aumento do número de paulistanos que declarou melhora na qualidade de vida nos últimos anos. Em 2017, 21% diziam ter tido melhora na qualidade de vida em relação ao ano anterior. Nesta pesquisa, com dados levantados em 2019, 31% indicaram melhora. Permaneceu estável o número dos que acham que a vida está igual. Apesar disso, 64% ainda declaram que deixariam a capital paulista se pudessem se mudar para outro local. Dentre os principais problemas que os paulistanos relatam estão a violência – que teve redução de 12 pontos percentuais nas menções –, a criminalidade, o trânsito e a desigualdade.

Já a avaliação da gestão de Bruno Covas (PSDB) na prefeitura de São Paulo registrou melhora na edição atual da pesquisa Viver em São Paulo. No último levantamento, 40% consideravam o tucano ruim ou péssimo. Agora são 35%. Já a avaliação positiva oscilou de 15% para 18%. A população paulistana também está mais satisfeita com a atuação das subprefeituras. Na última pesquisa, apenas 13% aprovavam a atuação das regionais, enquanto 42% reprovavam. Os dados agora são de 21% e 34%, respectivamente. A pesquisa completa pode ser acessada no site da Rede Nossa São Paulo.