Estratégia de guerra

Postura de Bolsonaro com a imprensa é ‘traço distintivo de governos autoritários’

"Ele não dialoga, não contra-argumenta, e isso não é porque ele é destemperado. É uma atitude calculada, a gente precisa começar a entender isso", destaca Renata Mielli 

Antonio Cruz/EBC
Em nova declaração, Bolsonaro disse que só voltará a dar entrevista, "se retirarem processo contra ele". Processo é, na verdade, inexistente. Em relatório, Fenaj aponta ataques do presidente à imprensa

São Paulo – Para a secretária-geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Renata Mielli, o comentário do presidente Jair Bolsonaro, citando processo inexistente para negar entrevistas aos jornalistas, “é mais um dos tristes episódios que estamos vivendo no país no campo da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa”.

Ontem, Bolsonaro postou em seu perfil no Twitter um vídeo no qual ignora jornalistas, se recusando a falar com a imprensa na saída do Palácio da Alvorada. “Eu quero falar com vocês, mas a Associação Nacional de Jornalistas diz que quando eu falo, eu agrido vocês. Então, como sou uma pessoa da paz, não vou dar entrevista”, disse no vídeo. O presidente ainda emendou, pedindo “manda retirar o processo que eu volto a conversar com vocês”.

A referência feita por Bolsonaro seria à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que divulgou um levantamento em 16 de janeiro mostrando que o presidente foi responsável por 121 das 208 ocorrências de ataques a jornalistas registrados pela entidade em 2019. Mas não há nenhuma medida judicial contra o presidente por parte da entidade.

Aos jornalistas Nahama Nunes e Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual, a coordenadora geral do FNDC avalia que a cena, no entanto, reitera o que tem sido a principal estratégia do governo Bolsonaro, a de se comunicar apenas com seus apoiadores. “A fala dele, o vídeo e a maneira como ele (Bolsonaro) se colocou, foi para se fazer de vítima para a sua base”, explica. “Ele mede exatamente as palavras. Porque suas palavras e atitudes são para alimentar a base de ultradireita que sustenta e apoia seu governo. Diante desse relatório, que teve repercussão, um trabalho muito bem desenvolvido pela Fenaj, ele se colocou como vítima dessa situação”.

O levantamento da Fenaj em questão, mostra o presidente como o responsável por 121 das 208 ocorrências de ataques a jornalistas registrados pela entidade em 2019, que representaram um aumento de 54,07% das agressões em relação a 2018.

Baseados apenas no Twitter, entrevistas e discursos oficiais, o relatório aponta que as agressões presidenciais ocorrem justamente quando Bolsonaro é questionado por investigações que o relacionam, ou quando os veículos de comunicação adotam o tom de crítica a atitudes e medidas de seu governo. Para esses casos, Bolsonaro encerra as entrevistas, ou promove ataques pessoais, quando não reduz a importância da imprensa, limitando-se a divulgar informações por seu Twitter.

“Isso é um traço distintivo de governos autoritários. Ele não dialoga, não contra-argumenta, e isso não é porque ele é destemperado. É uma atitude calculada, a gente precisa começar a entender isso”, ressalta Renata. “Porque ao fazer isso ele mina a credibilidade dos meios de comunicação, ele dialoga para a base dele se colocando como uma vítima e insuflando a sua base.”

À frente de duas entidades que atuam pela democratização dos meios de comunicação, Renata explica que os veículos da mídia tradicional não estão isentos de críticas, mas não é isso que o presidente faz, ao contrário, ele agride, sem qualquer contra-argumentação, para não ser questionado sobre as contrariedades que o cercam.

“(Bolsonaro) tem muito mais obrigações no sentido de garantir o que está estabelecido na Constituição, de ser rigoroso no cumprimento da legislação vigente, e é tudo isso que o governo não faz”, adverte.

Diante da ofensiva contra a liberdade de imprensa e de expressão, o Barão de Itararé, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), a Fenaj e diversas outras organizações assinaram um pedido de audiência junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos para pedir uma audiência temática sobre essas violações. As entidades aguardam agora pelo resultado.

Confira a entrevista na íntegra