Racismo

Jovens negros são agredidos em bar na Pedra do Sal, no Rio de Janeiro

Segundo as vítimas de espancamento, jovens brancos também usavam o banheiro do bar, mas os negros foram impedidos e atacados; agressão racista repercutiu nas redes

Reprodução Notícia Preta
Jovens passaram o sábado no Hospital Souza Aguiar: agressores devem ser punidos para que não façam isso com outras pessoas, cobram

São Paulo – Socos, pontapés, golpes de barra de ferro e de taco de beisebol. Foi assim que um grupo de amigos foi atacado por tentar usar o banheiro de um bar na Pedra do Sal, zona portuária do Rio de Janeiro. As três mulheres e os dois homens do grupo agredido eram jovens negros entre 19 e 21 anos.

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Em entrevista ao Notícia Preta, a poeta e MC Andrea Bak conta que tudo começou quando uma amiga procurava um banheiro. “A Wakanda me disse que estava apertada e aí fui procurar um banheiro para ela. Vou à Pedra do Sal com frequência e já tinha visto esse bar aberto algumas vezes”, relata Andrea. “Quando cheguei lá, três meninas brancas estavam na minha frente dançando e eu perguntei onde era o banheiro. Elas me levaram e, de repente, senti alguém me cutucando.”

Era o barman do local, que também é dono do estabelecimento, segundo informado pelo Notícia Preta. “Ele me perguntou quem tinha me deixado entrar. Nisso, meus amigos e Wakanda chegaram e respondi que vi as meninas brancas entrando e achei que pudesse entrar também. Só que o cara se exaltou, começou a gritar que era uma festa reservada e a gente falou que tudo bem. Estávamos indo embora procurar outro banheiro, mas o segurança nos parou e começou a botar o dedo na nossa cara”, lembra a jovem. “A gente argumentou que só queria usar o banheiro, nada demais.”

Agressões

Andrea conta que começou uma discussão entre o dono do bar que reclamava com o segurança, um jovem também negro de 20 anos. “Ficou uma gritaria e aí o segurança deu um soco no meu olho. Eu leve vários socos depois. Ao amigos vieram me defender e aí o segurança começou a puxar meu cabelo, me enforcou e me bateu mais ainda.”

A jovem conseguiu se desvencilhar e tentou fugir, mas os dois agressores continuavam a persegui-la. Quando percebeu, seus amigos tinham sido cercados por várias outras pessoas e estavam sendo linchados.

“Ninguém estava entendendo o que estava acontecendo. Lembro de ver o dono do bar caminhando na minha direção com uma barra de ferro e bater na minha cabeça. Lembro que alguns ambulantes viram e começaram a gritar e um homem preto, ambulante também, se meteu na minha frente para me defender e acabou apanhando junto. Eram mais de 10 pessoas batendo em nós cinco. Quando esse ambulante se meteu, consegui fugir de novo. Corri e só fui conseguir encontrar meus amigos lá na frente, já bem longe da confusão. Se aquele ambulante não tivesse se metido, eu provavelmente não sairia dali com vida”, afirma a jovem que avisa. “Os agressores vão responder por isso.”

Segundo o Notícia Preta, muito machucados os amigos caminharam até a delegacia, mas foram informados de que deveriam ir ao hospital primeiro. Passaram pelo Souza Aguiar, onde chegaram às 4h do sábado (11) e só saíram às 21h. Exaustos, foram para casa  e são aguardados para prestar depoimento na 4ª DP.

Em fotos divulgadas pela rede social, Andrea aparece com o olho roxo e inchado por causa do soco do segurança. A mão de outra das vítimas aparece inchada, quebrada por um golpe de taco de baseball. Um dos jovens quebrou um braço.

“Só chegamos em casa à noite e tudo que fizemos foi tentar descansar. Já tenho os dados do barman e do segurança, que é um MC, um garoto que eu já tinha visto por ali antes.”

Repercussão

Andrea faz parte do coletivo Slam das Minas – competição entre poetas – e o ataque que ela e os amigos sofreram está repercutindo nas redes sociais. A cantora Tereza Cristina postou vídeo, assim como Rejane Barcelos, também do Slam. A deputada estadual Dani Monteiro e Talíria Petrone, deputada federal, ambas do PSOL do Rio de Janeiro, também se manifestaram contra o ataque racista. A viúva da vereadora Marielle Franco (PSOL), a arquiteta Mônica Benício, compartilhou o relato em suas redes sociais com as legendas “racistas não passarão” e “vidas negras importam.”

Na página do coletivo Slam da Minas, outra vítima postou sua denúncia.

“Na madrugada do dia 11 de janeiro de 2020 nós, cinco jovens negros estudantes fomos covardemente linchados pelos seguranças e donos do primeiro bar após a Pedra do Sal. A agressão foi após um ato de racismo no qual fomos impedidos de usar o mesmo banheiro que frequentadores brancos. Os criminosos usaram barra de ferro, taco de beisebol, socos e ameaça com arma de fogo contra 3 meninas e 2 rapazes desarmados. A confusão atraiu linchadores que nos bateram enquanto pedíamos socorro. Foi uma agressão gratuita ao nosso grupo e só queremos justiça e que esses homens não façam isso com mais ninguém, até porque já há relatos de que já agrediram mulheres nesse bar. Eles não podem sair impunes disso. Estamos todos lesionados fisicamente e com o psicológico destruído. Na segunda feira, a Pedra do Sal já vai estar lotada de novo e esses caras que nos agrediram comandando o bar novamente. Precisamos de ajuda!!! Fiquem alertas!!!!”