violência de gênero

Brasil lidera ranking de assassinato de pessoas trans nos últimos 10 anos

Segundo dossiê, 124 pessoas transexuais e travestis foram mortas em 2019

Tomaz Silva/Agência Brasil
A gravidade da violência também preocupa: 80% dos assassinatos apresentaram requintes de crueldade, ou seja, a maioria das mortes ocorreram após violência excessiva. Do total, apenas 8% dos casos tiveram suspeitos identificados

São Paulo – O Brasil lidera o ranking de países que mais mata travestis e transexuais em todo o mundo. De acordo com um novo dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), publicado nesta quarta-feira (29), 124 pessoas trans foram assassinadas em 2019. Só em São Paulo, o número de assassinatos passou de 14, em 2018, para 51 no ano passado – aumento de quase 67%.

O documento foi divulgado para marcar o Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado ontem. Entretanto, o estudo mostra que a violência contra transexuais e travestis só cresce. A gravidade das ocorrências também preocupa: 80% dos assassinatos apresentaram requintes de crueldade, ou seja, a maioria das mortes ocorreu após uma sucessão de atos violentos. Do total, apenas 8% dos casos tiveram suspeitos identificados.

Renata Peron, transexual e assistente social,  conta que perdeu um dos rins, após ser surrada por nove skinheads, no centro de São Paulo. “Eu fui agredida em 2007 e, de lá para cá, muitas outras meninas foram agredidas e violentadas por um Estado, que pouco cria política de inclusão para nós”, lamentou, em entrevista ao repórter André Gianocari, da TVT.

Já Cláudio Galícia, pesquisador e homem trans, afirma que eles também são vítimas da violência. “Alguns indivíduos do sexo masculino se acham ofendidos com aquilo e querem dar ‘um corretivo’, para ver volta a ser mulher, e a primeira coisa que eles pensam em fazer com a gente é estuprar”, denuncia.

O número de assassinatos em 2019 foi menor em relação aos últimos dois anos. Em 2017, foram 179, ante 163 em 2018. Entretanto, Bruna Benevides, secretária de articulação política da Antra e autora do dossiê, pondera que, apesar da queda dos números, não há diminuição efetiva da violência. Apenas de 1º a 24 de janeiro de 2020, por exemplo, houve um aumento de 180% no número de homicídios em relação ao ano anterior. “Qual pessoa trans se sente segura no Brasil? Saímos de casa e não sabemos se iremos voltar”, questiona, em entrevista à repórter Lu Sudré, do Brasil de Fato.

Conforme dados divulgados pela organização Gênero e Número, no ano passado também foi registrado um aumento de 800% das notificações de agressões contra a população trans, chegando ao número de 11 pessoas agredidas diariamente no Brasil.

O Dia Nacional da Visibilidade Trans surgiu há 16 anos como forma de luta contra o ódio e preconceito de gênero. Um grupo formado por travestis, mulheres e homens transexuais foi ao Congresso Nacional exigir respeito e igualdade. “Eu não sou só visível em janeiro, eu sou visível 365 dias do ano e quero uma saúde que enxergue esses corpos, uma educação onde pessoas trans não tenham que ‘viver no armário’, como eu vivi”, afirma Luiz Fernando Ucho, pedagogo no Programa Transcidadania.

Renata acredita que a informação é a melhor ferramenta contra qualquer tipo de preconceito. “Se derem a oportunidade para nós, seremos, médicas, assistentes sociais, promotoras, cantoras, advogadas. Tem que ser uma luta constante todos os dias, onde o Estado reconheça que as pessoas trans existem”, acrescenta.

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