Nesta 4ª

Movimento negro protesta contra massacre de Paraisópolis: ‘Não foi acidente. Foi genocídio!’

Coalizão Negra por Direitos vai até a Secretaria de Segurança Pública para denunciar a política do governo Doria que criminaliza a periferia

Daniel Arroyo/Mídia Ninja
"A gente não tem o direito de ficar calado diante da chacina", diz Douglas Belchior, da Uniafro

São Paulo – O movimento negro realiza manifestação nesta quarta-feira (4) para lembrar as nove vítimas do massacre de Paraisópolis, no último fim de semana, e denunciar a a política de segurança “fascista” do governador João Doria (PSDB). Segundo o educador Douglas Belchior, fundador da Uneafro, uma das organizações que compõem a Coalizão Negra Por Direitos, é hora de mobilizar a sociedade civil organizada para mostrar que não concordam “com uma política de segurança pública que mata as pessoas”.

“Só entendem essa língua, quando o povo ocupa as ruas”, afirmou Douglas aos jornalistas Marilu Cabañas e Cosmo Silva, para o Jornal Brasil Atual. “A gente não tem o direito de ficar calado diante da chacina. Martin Luther King nos dizia que o que preocupa não é o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons.” Para ele, a ação da polícia em um baile funk que provocou a morte de nove jovens teve “requintes de crueldade” e, na medida em que novas informações vão surgindo, “o quadro que se pinta é ainda pior”.

Além da política de segurança baseada na criminalização, perseguição e tortura e que tem na juventude negra da periferia o seu principal alvo, o massacre ocorrido em Paraisópolis também é decorrente da falta de investimentos do estado em políticas públicas de educação, cultura e laser nos bairros periféricos, avalia. “O que a gente tem é uma sociedade organizada de maneira a garantir o uso do dinheiro público para o interesse daqueles que já têm recursos, daqueles que moram em bairros nobres. E para as periferias, para os bairros pobres, o único serviço público que chega é repressão policial, como a gente viu.”

Criminalização do funk

Além do sinais “explícitos de fascismo” nas declarações de figuras públicas como Doria – que já chegou a afirmar que a polícia passaria a atirar para matar, se houvesse resistência – e do presidente Jair Bolsonaro, conhecido pelo discurso em defesa do armamento da população, Douglas afirma que o massacre de Paraisópolis também tem um viés de criminalização do funk, assim como ocorreu com outras manifestações ligadas à cultura negra, como o samba, a capoeira e as religiões de matrizes africanas.

“O nome disso, a gente precisa dizer, é racismo. Estamos a postos para continuar denunciando a violência policial, apresentando alternativas e propostas. Não somos um segmento da sociedade que só reclama, que só se manifesta de forma contrária às políticas que estão colocadas. O movimento negro elabora políticas desde sempre, historicamente”, diz.

Se o poder público quisesse solucionar os transtornos causados aos moradores pelos bailes, em vez de apostar unicamente na repressão, “chamariam as lideranças que promovem os grandes bailes e construiria ao lado deles uma alternativas”, aponta o educador, que destaca a importância econômica desses eventos para as periferias das grandes cidades. “O baile movimenta a economia e emprega as pessoas, para além de ser uma alternativa de cultura.

O ato público “Massacre de Paraisópolis: Não foi acidente. Foi Genocídio!” ocorrerá nesta quarta em São Paulo a partir das 17h, em frente à sede da Secretaria de Segurança Pública, na Rua Líbero Badaró, 39, região central.

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