Vítimas do massacre

‘Cuidei dele minha vida inteira. Ele não era qualquer um. Ele trabalhava’, diz irmã de vítima de Paraisópolis

Ato político em frente à Secretaria de Segurança Pública pede ação do Ministério Público diante da chacina no baile da DZ7

Eduardo Maretti
Movimentos pedem justiça e ação do MP-SP para apurar tragédia

São Paulo – “Fui até o IML pra ver meu irmão, porque eu queria trocar o meu irmão, porque pra mim ele não é o meu irmão, ele era meu filho. Cuidei do meu irmão mais do que cuidei do meu próprio filho. Eu cuidei dele minha vida inteira. Eu troquei, eu alimentei, eu levava pra escola. Ele foi um privilegiado, ele teve duas mães. Ele não era qualquer um. Ele trabalhava, ele ajudava dentro de casa. No IML disseram que eu não podia trocar ele, porque esse era o procedimento.”

Com esse depoimento emocionado, Fernanda dos Santos Garcia falou no ato público “Massacre de Paraisópolis: Não foi acidente. Foi Genocídio!”, realizado no fim da tarde e noite desta quarta-feira (4) em São Paulo, em frente à sede da Secretaria de Segurança Pública do governo estadual, no centro da capital. Fernanda é irmã de Dennys Guilherme dos Santos Franca, de 16 anos, um dos nove mortos em decorrência da repressão policial ao baile da DZ7, em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, no último domingo (1º). A fala da jovem de 28 anos foi ouvida em silêncio por centenas de pessoas no ato, muitas das quais, como Fernanda, também choravam.

“Estou tentando descobrir o que tenho que fazer, como tenho que proceder com as informações que eu tenho, porque quem está investigando sou eu. Quem tá dando a cara a tapa nas redes sociais sou eu: Sou irmã do Dennys, se alguém souber de alguma coisa que possa me ajudar…”, pediu ela.

Fernanda comentou ainda sobre Dennys: “A última pessoa que esteve com ele disse que meu irmão pediu ajuda . E os policiais disseram que podia deixar sob os cuidados deles. E assim foi feito. Deixaram meu irmão sob os cuidados de policiais. Não sei como foi levado ao hospital, não sei o que aconteceu”.

Na manifestação – marcada por palavras de ordem como “Doria genocida” (em referência ao governador do estado, João Doria, do PSDB) e “eu quero o fim da Polícia Militar”, entre outras –, o educador Douglas Belchior, fundador da Uneafro, organização da Coalizão Negra por Direitos, defendeu que a sociedade tem obrigação de cobrar do Ministério Público de São Paulo “que não seja passivo diante da chacina”.

“O Ministério Público tem obrigação de cobrar do governo do estado uma postura. A política de segurança pública tem que ser para garantir segurança e vida para todos, e não só para quem tem patrimônio e mora em bairro rico, e a barbárie e a tortura para quem está nos bairros pobres”, disse Belchior. Segundo ele, a ação que resultou na tragédia “foi deliberada, organizada, estimulada e ordenada pelo governador. Ele dá ordens para que a polícia atire para matar”.

Presente ao ato como representante da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo (OAB-SP), o advogado Arnobio Rocha disse que a sociedade não pode ficar sem resposta ao que aconteceu. “Do ponto de vista geral, uma tragédia como a de Paraisópolis chama a atenção, para a sociedade, dos limites da liberação do uso indiscriminado da força.” Ele destacou que, embora não se possa fazer juízo de valores a priori, é preciso apurar se houve ou não excesso da PM no episódio. “Mas parece evidente que tenha havido. E é importante que haja apuração transparente, livre, e a sociedade tenha uma resposta. As famílias não podem ficar sem resposta ao que aconteceu com seus filhos.”

Fundador do Movimento Negro Unificado (MNU), o ativista Milton Barbosa defendeu o “enfrentamento das ações da extrema direita”. “Eles decidiram, sim, matar. Doria é o responsável, mas isso é uma política nacional do Bolsonaro”, afirmou. “Eles usam a PM para buscar apavorar.” Belchior esclareceu que o ato realizado no centro de São Paulo foi realizado “em diálogo e solidariedade” a outra manifestação, ocorrida no mesmo horário em Paraisópolis. “Segurança pública é uma pauta do povo sim, porque é ela que leva nosso povo ao cemitério todos os dias”, acrescentou.

Cultura e lazer

Renata Prado, fundadora da Frente Nacional de Mulheres do Funk, afirmou que o que aconteceu em Paraisópolis “não é nada de novo para quem é da massa funkeira”. “Quem vai pra baile de rua sabe que isso sempre aconteceu os bailes sempre. Acontece que agora ocorreu a morte massificada de nove jovens da periferia.”

“Não adianta dizer que esses jovens têm ligação com o crime. São jovens que estudavam, trabalhavam, nem eram de Paraisópolis, estavam lá para conhecer.” O ‘Baile da 17’, como é conhecido o evento, “é uma referência cultural para o funk”, que se tornou uma referência  dentro do estado, explicou Renata.

Segundo ela, pessoas do interior do estado e de bairros de toda a cidade de São Paulo participam do Baile da 17. “As pessoas saem dos seus bairros, das suas cidades, simplesmente porque não têm acesso à cultura e lazer, como consta do Estatuto da Criança e do Adolescente. O que a gente pede é não é nada mais, nada menos, do que cultura e lazer. Funk não é pauta de segurança pública, é pauta de Secretaria de Cultura.”