sem transparência

Governo Covas ‘esconde’ detalhes do plano cicloviário de São Paulo

Organizações de ciclistas querem íntegra do projeto e apresentação clara das remoções dos trechos já instalados, prazos e custos das ações

Aloisio Mauricio/Fotoarena/Folhapress
Ampliação e manutenção das ciclovias é apoiada pela população paulistana, mas plano precisa ser claro

São Paulo – Organizações de ciclistas da capital paulista querem que o governo do prefeito Bruno Covas (PSDB) apresente a íntegra do plano cicloviário, anunciado pela gestão na última sexta-feira (13). Os ativistas dizem não haver clareza sobre a compensação pelas ciclovias que serão removidas, nem dos prazos e origem dos recursos para realizar as obras. O plano prevê 173 quilômetros de novas conexões e 310 quilômetros de reformas em estruturas já existentes. O projeto também prevê que 12 quilômetros de ciclofaixas serão remanejados, “considerando as particularidades do viário, a segurança dos usuários e a fluidez no trânsito”.

O governo afirmou que “nenhum quilômetro será retirado”. No entanto, as organizações de ciclistas apontam alguns locais em que a remoção não está compensada pela criação de um novo trecho. É o caso da ciclovia na Rua Hugo Carotini, às margens da Rodovia Raposo Tavares, no Butantã. O trecho é o único no bairro e está marcado para ser remanejado. Mas não há nenhuma outra ciclovia planejada no local. Parte desse problema se dá porque a prefeitura não divulgou a integra do plano cicloviário e dos mapas, apenas slides de apresentação à imprensa.

Outro trecho removido sem compensação é a ciclovia da Rua Professor Gustavo Pires de Andrade, na Vila Prudente. O governo Covas justificou que os ciclistas vão poder utilizar o trecho da Avenida Luís Ignácio de Anhaia Melo, mas a área interna do bairro vai ficar sem uma via segura para os usuários de bicicleta. A RBA solicitou à prefeitura a íntegra do plano, mas a reportagem recebeu apenas um link para a apresentação que foi divulgada na sexta-feira.

Investimentos

O investimento previsto para o plano cicloviário é de R$ 325 milhões. Além disso, será realizado um projeto de recapeamento orçado em R$ 250 milhões. No total, a cidade passará dos atuais 503 quilômetros para 676 quilômetros de vias para ciclistas até o final de 2020, com 73% dessas estruturas interligadas ao transporte coletivo. O plano surge após três anos de impasse, em que trechos de ciclovias foram apagados e a manutenção delas abandonada pelo governo tucano.

“O que (a gestão) lançou foi um powerpoint só, com parte dos mapas, não tem todos os mapas disponíveis. E tem ameaças de remoções graves, que está chamando de remanejamento, mas algumas não têm alternativa, é só a remoção. O que é uma contradição com muito do que foi debatido nas audiências, nas oficinas. Foi um processo participativo longo, mas que eles não estão levando bastante a sério”, criticou Rafael Calabria, pesquisador de Mobilidade Urbana do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). “Precisamos dos dados e estamos cobrando com urgência os mapas, os cronogramas e qual vai ser o plano de fato de implantação desse plano cicloviário na cidade”, completou.

Yuri Vasquez, diretor da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade), lembrou que o plano foi resultado de ampla participação da sociedade civil, a partir de workshops e oficinas, feitas em 11 regiões da cidade. E depois disso debatido em mais onze audiências públicas. “Temos que dar crédito à sociedade civil que esteve nesse espaço e construiu esse mapa”, afirmou. Ele e Calabria comemoraram o fato de a implementação e conservação das ciclovias ter superado a disputa partidária e se tornado política de Estado.

Mas Vasquez também esperava mais transparência do governo Covas. “Queremos os arquivos completos, os mapas, o cronograma, a discriminação do orçamento. Os mapas foram georreferenciados pela Ciclocidade, debatidos com os ciclistas e apresentados à prefeitura. E, de repente, vem o anúncio de um plano cicloviário com apenas uma lista de ciclovias que a gente não sabe onde elas terminam, onde elas começam. Também não sabemos qual a fonte orçamentária disso, nem o cronograma de início e término dessas obras. Ano que vem é ano eleitoral. Se não der início até abril, a obra tem que ficar parada até depois da eleição”, ponderou.