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Projeto Cartografia Negra revela histórias de locais e personagens que São Paulo tenta apagar

Pesquisa em mapas, fotos e documentos deu origem a uma caminhada educativa realizada mensalmente no centro da capital paulista
Publicado por Luciano Velleda, para a RBA
08:50
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Reprodução/Facebook

Caminhada no centro de São Paulo passa pelo local onde existia o pelourinho, onde os negros eram vendidos, e também destaca locais da vida de Luiz Gama, figura chave na luta pela abolição da escravidão no Brasil

São Paulo — A narrativa oficial da história da cidade de São Paulo esconde a participação e a presença do negro na sociedade. Essa é a constatação dos integrantes do coletivo Cartografia Negra, idealizado pela antropóloga e educadora Raissa Albano. A partir de inquietações pessoais, ela começou a pesquisar sobre a história da população negra na capital paulista e de como está se insere no processo de formação urbana da cidade.

“Comecei a olhar para o centro de São Paulo, um lugar que sempre frequentei, e questionar onde estavam os pretos para além das posições subalternas de serviço. Olhava também para os monumentos e não me via nos monumentos, porque são majoritariamente de homens brancos”, explica Raissa Albano, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual, na quinta-feira (21).

As inquietações a levaram a um grande trabalho de pesquisa sobre as vivências do população negra em São Paulo nos séculos 18 e 19, para o qual juntou-se ao poeta e educador Pedro Alves e à também educadora Carolina Vieira. Os três se dedicaram a pesquisar fotos, documentos e mapas da capital paulista e, assim, conseguiram demarcar territórios e locais onde ocorreram fatos históricos relevantes para a história dos negros na cidade.

A pesquisa os fez perceber que há uma falha, inclusive, no sistema de ensino, em que os próprios professores desconhecem tais locais e sua relação com o povo negro.

“Decidimos que tínhamos que entrar com um caminho educacional dentro das escolas e ações públicas, para passar esse conhecimento e não só demarcar um espaço que as pessoas iriam ‘passar batido’ no dia a dia”, pondera Pedro Alves, que igualmente tinha a sensação de não se enxergar na cidade. “Você está dentro, mas não faz parte do ambiente.”

Como resultado, a Cartografia Negra realiza uma caminhada, uma vez por mês, sempre aos sábados, às 15h, por locais importantes no centro da cidade. A próxima será realizada dia 30 de novembro.

“A gente vai passando por cerca de nove ou dez pontos da cidade contando a história desses lugares, e a história de pessoas que viviam no centro. Como passamos por lugares muito ‘pesados’, por onde era o pelourinho, por onde as pessoas eram vendidas, a gente também traz referências positivas”, explica, citando como exemplo, aspectos da vida de Luiz Gama, figura emblemática para a abolição da escravidão no Brasil. “São pessoas que têm histórias importantes e também não são reconhecidas.”

Além do caminhada dia 30 de novembro, na véspera o coletivo organiza um cine-debate, na sede do Instituto Pólis, com o documentário “Mil trutas, mil tretas”, do Racionais MC.

Ouça a entrevista na íntegra