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Negros no Brasil: mais desemprego, menos renda, menor presença parlamentar e principal vítima de homicídios

Brancos ganham sempre mais, independentemente do nível de instrução, e predominam em cargos gerenciais, diz IBGE. Chance de negros serem assassinados é praticamente três vezes maior
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
14:45
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No estádio do Mineirão, torcedor demonstra preconceito contra segurança: 'Olha a sua cor!'. Flagrado, tenta se explicar com a 'justificativa' de que tem 'amigos negros'

São Paulo – Dados divulgados nesta quarta-feira (13) pelo IBGE, referentes a 2018, reforçam o cenário de discriminação, sob vários aspectos – político e socioeconômico –, contra os negros.  Eles são maioria entre os desempregados, recebem menos, têm menor representação parlamentar e são as principais vítimas de homicídios no país, conforme mostra o estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, cujo download pode ser feito aqui.

No mercado de trabalho, por exemplo, pretos e pardos (classificação usada pelo IBGE) representam 64,2% dos desempregados e 66,1% dos chamados subutilizados. Quase metade (47,3%) estava em ocupações informais, ante 34,6% dos trabalhadores brancos.

Além disso, o rendimento médio mensal dos brancos (R$ 2.796) é 73,9% superior ao de pretos e pardos (R$ 1.608). “Os brancos com nível superior completo ganhavam por hora 45% a mais do que os pretos ou pardos com o mesmo nível de instrução”, informa o instituto. Entre os cargos de gerência, só 29,9% são ocupados por profissionais pretos ou pardos.

A desigualdade se revela também no item distribuição de renda. Os pretos ou pardos representam 75,2% do grupo populacional que têm os menores rendimentos. E são apenas 27,7% dos 10% da população com maior renda.

Além disso, eles são mais atingidos pela violência, como mostram os indicadores. “Em todos os grupos etários, a taxa de homicídios dos pretos ou pardos superou a dos brancos”, aponta o IBGE. Em 2017, a taxa de homicídios para para pretos ou pardos de 15 a 29 anos, por exemplo, chegou a 98,5, ante 34 dos brancos. Para jovens pretos ou pardos do sexo masculino, chega a 185.

A taxa é calculada pelo quociente entre o número total de homicídios registrados no Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, e a população do país, multiplicado por 100 mil habitantes. Em 2017, esse índice foi de 16 para brancos e 43,4 para pretos ou pardos. “Ou seja, uma pessoa preta ou parda tinha 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma pessoa branca”, constata o instituto.

‘Olha sua cor’

As diferenças também se notam na vida parlamentar. Pretos ou pardos são apenas 24,4% dos deputados federais, 28,9% dos estaduais e 42,1% dos vereadores eleitos.

Na educação, pretos ou pardos passaram a ser mais da metade (50,3%) dos estudantes do ensino superior da rede pública. Mas o IBGE observa que continuam sub-representados, por serem 55,8% da população. O percentual de pretos ou pardos estudantes de 18 a 24 anos cursando nível superior aumentou e chegou a 55,6%, mas também fica abaixo dos brancos (78,8%). O percentual de jovens com menos de 11 anos de estudo e que não frequentava escola caiu para 28,8%, ante 17,4% dos brancos.

Além de todos os dados reforçarem a evidência de que o Brasil é um país com preconceito, às vezes a discriminação surge de maneira explícita. No último domingo (10), durante partida entre Atlético e Cruzeiro no Mineirão, em Belo Horizonte, dois torcedores foram flagrados ofendendo o segurança Fábio Coutinho. “Olha sua cor!”, bradou um deles. Depois de identificados, tentaram se justificar, dizendo, por exemplo, que têm “amigos negros” e, inclusive, “negros que cortam meu cabelo”.

O Atlético-MG informou que excluiu Adrierre e Natan Siqueira Silva do quadro de sócios-torcedores. “Então, pela minha cor, eu sou inferior a outro ser humano?”, disse Coutinho, ainda triste com o episódio.